«A corrupção, como um câncer, está corroendo a vida cotidiana dos povos.»

(Papa Francisco – Mensagem enviada aos bispos da América Latina e Caribe em Assembleia de 9 a 12 de maio de 2017)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sábado, 22 de julho de 2017

16º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 13,24-43


Naquele tempo:
24 Jesus contou outra parábola à multidão: «O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo.
25 Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora.
26 Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio.
27 Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: “Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?”
28 O dono respondeu: “Foi algum inimigo que fez isso”. Os empregados lhe perguntaram: “Queres que vamos arrancar o joio?”.
29 O dono respondeu: “Não! pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo.
30 Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo:
arrancai primeiro o joio e o amarrai em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!”».
31 Jesus contou-lhes outra parábola: «O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo.
32 Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos.»
33 Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: «O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado.»
34 Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas,
35 para se cumprir o que foi dito pelo profeta: “Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo”.
36 Então Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: «Explica-nos a parábola do joio!».
37 Jesus respondeu: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem.
38 O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno.
39 O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifadores são os anjos.
40 Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos:
41 o Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal;
42 e depois os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes.
43 Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça.»

JOSÉ MARÍA CASTILLO & ENZO BIANCHI
TRIGO & JOIO

O JUÍZO PERTENCE A DEUS

O ensinamento da primeira parábola narrada por Jesus (Mt 13,24-30) está claro: a juízo dele, ninguém nesta vida tem o direito de erigir-se em juiz do bem e do mal. Ninguém tem, portanto, o direito de decidir onde está o bem (o trigo) e onde está o mal (o joio). E menos ainda, ninguém tem o direito de considerar-se com poder para pretender extirpar o mal pela raiz (arrancar o joio). Porque pode acontecer que, pensando que se arranca o joio, na realidade o que se está arrancando é o trigo.

Assim, ninguém pode constituir-se em juiz dos outros. Ninguém tem o direito de fazer isso. Ninguém pode condenar ninguém, rejeitar a ninguém, reprovar a quem quer que seja. Porque corre o perigo de equivocar-se. De modo que, pensando que faz algo bom, na realidade, o que leva a cabo é um desastre. Jesus condena desse modo o puritanismo e a intolerância. Todos corremos o perigo de incorrer nesse tipo de conduta. A, ainda mais, sabemos até que ponto as pessoas andam por aí condenando, rejeitando, ofendendo, insultando...

Porém, esse perigo aumenta ainda mais, na medida em que uma pessoa se torna religiosa, sobretudo, se sua religião é de caráter fundamentalista. Então, a intolerância supera todos os limites e chega a criar ambientes nos quais não se pode respirar. Este mundo está cheio de fanáticos, que se consideram com o direito e o dever de obrigar que os outros mudem e passem a viver e pensar como vive e pensa o fanático intolerante.

As pessoas «muito religiosas» dão medo! Tornam a vida insuportável e a convivência amarga.

No fundo, o problema está em que, no final das contas, o bem e o mal são categorias que dependem dos que têm poder para defini-las. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche [1844-1900] disse muito bem: «foram os bons mesmos, isto é, os nobres, os poderosos, os homens de posição superior... que se sentiram e se valorizaram a si mesmos e ao seu agir como bons, ou seja, como algo de primeira importância, em contraposição a tudo que é de baixo, abjeto, vulgar e plebeu» (Genealogia da moral I,2).

Assim, como é que limparemos o campo do Senhor do pressuposto joio?

Afinal de contas, a essência do fanatismo consiste no desejo (e até no empenho) de «obrigar os outros a mudar» (Amos Oz – escritor israelense). Neste ponto, coincidem todos os fanáticos do mundo, que frequentemente degeneram para a violência e o terror!
FERMENTO SENDO COLOCADO EM MEIO À FARINHA

A PEQUENEZ DE HOJE GARANTE A GRANDEZA DO FUTURO

O Reino é semelhante a um grão de mostarda semeado no campo. Trata-se de uma semente pequeníssima, porém «quando cresce é maior que as hortaliças e se torna como que uma árvore, ao ponto das aves do céu poder aninhar em seus ramos» (cf. Ez 17,22-24). Aqui a atenção se volta para o enorme desenvolvimento da semente, na distância entre sua pequenez inicial e sua grandeza final.

O mesmo acontece com o Reino de Deus: em nosso hoje parece como uma realidade pequena, porém, no final dos tempos, se manifestará sua grandeza. Os discípulos de Jesus Cristo devem observar o contraste entre o hoje e o futuro, porém também deve entender que o futuro depende precisamente da pequenez de hoje. Pois seu Mestre lhe revelou que os critérios da grandeza e da aparência não se devem aplicar ao Reino dos Céus.

A força do Reino não se deve confundir com a fascinação da grandeza, que se traduz, muitas vezes, no número, outras no prestígio, no poder etc.

Para corroborar esta realidade, Jesus se serve de outra comparação. Uma mulher põe um pouco de fermento em uma grande quantidade de farinha (cerca de 40 quilos). O texto destaca que a mulher «esconde» o fermento, indicando assim que a presença do Reino é oculta, não se impõe. Mesmo assim, a inequívoca força do fermento faz crescer a massa.

A atenção se concentra aqui no poder do fermento: algo tão pequeno é capaz de provocar uma grande transformação. E assim é: a vida de Jesus era pouca coisa, praticamente desconhecida para os historiadores de seu tempo; porém nele, o homem no qual Deus reinou plenamente, se ocultava a potência do Reino, oferecido a toda humanidade.

Somos chamados, pois, por essas três parábolas à paciência, à pequenez , ao ocultamento. Acolhemos o Reino anunciado por Jesus, vivendo com liberdade e inteligência esta realidade, isto é, obedecendo a ele, grão de trigo caído na terra e morto para dar muito fruto (cf. Jo 12,24). Esta dinâmica de morte e ressurreição é a primícia do Reino se soubermos assumi-la em nossa vida e testemunhá-la em meio aos homens e mulheres.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fontes: CASTILLO, José María. La religión de Jesús: comentario al Evangelio diario – ciclo A (2016-2017). Bilbao: Desclée De Brouwer, 2016, págs. 316-317; BIANCHI, Enzo. Jesús, «Dios con nosotros» que cumple la Escritura – Ciclo A. Salamanca: Ediciones Sígueme, 2010, págs. 136-137.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Fundamentalismo evangélico e integralismo católico

Antonio Spadaro & Marcelo Figueroa*
La Civiltà Cattolica
Edição 4.010, julho de 2017

Um «ecumenismo do ódio»!
Por isso, é preciso combater a manipulação dessa temporada de
ansiedade e de insegurança 
PAPA FRANCISCO E DONALD TRUMP
Encontro entre o pontífice e o presidente dos Estados Unidos ocorrido em 24 de maio de 2017
Cidade do Vaticano

In God We Trust: esta é a frase impressa nas notas dos Estados Unidos da América, que é também o atual lema nacional. Ele apareceu pela primeira vez em uma moeda em 1864, mas não se tornou oficial até a aprovação de uma resolução conjunta do Congresso em 1956. Ela significa: “Em Deus nós confiamos”. E é um lema importante para uma nação que, na raiz da sua fundação, também tem motivações de caráter religioso. Para muitos, trata-se de uma simples declaração de fé, para outros é a síntese de uma problemática fusão entre religião e Estado, entre fé e política, entre valores religiosos e economia.

Religião, maniqueísmo político e culto do apocalipse

Especialmente em alguns governos dos Estados Unidos das últimas décadas, notou-se o papel cada vez mais incisivo da religião nos processos eleitorais e nas decisões de governo: um papel também de ordem moral na identificação do que é bom e do que é mau.

Às vezes, essa interpenetração entre política, moral e religião assumiu uma linguagem maniqueísta que subdivide a realidade entre o Bem absoluto e o Mal absoluto. De fato, depois que Bush, no seu tempo, falou de um “eixo do mal” a ser enfrentado e fez referência à responsabilidade de “libertar o mundo do mal” após os eventos do 11 de setembro de 2001, hoje, o presidente Trump dirige a sua luta contra uma entidade coletiva genericamente ampla, a dos “maus” (bad) ou até “muito maus” (very bad). Às vezes, os tons usados em algumas campanhas pelos seus partidários assumem conotações que poderíamos definir como “épicas”.

Essas atitudes se baseiam nos princípios fundamentalistas cristão-evangélicos do início do século passado, que gradualmente se radicalizaram. De fato, passou-se de uma rejeição de tudo o que é “mundano”, como a política era considerada, à busca de uma influência forte e determinada daquela moral religiosa sobre os processos democráticos e sobre os seus resultados.
LYMAN STEWART

O termo “fundamentalismo evangélico”, que hoje pode se assemelhar a “direita evangélica” ou “teoconservadorismo”, tem as suas origens nos anos 1910-1915. Naquela época, um milionário do sul da Califórnia, Lyman Stewart, publicou 12 volumes intitulados “Os Fundamentos” (Fundamentals). O autor tentava responder à “ameaça” das ideias modernistas da época, resumindo o pensamento dos autores dos quais ele apreciava o apoio doutrinal. Desse modo, ele exemplificava a fé evangélica quanto aos aspectos morais, sociais, coletivos e individuais. Vários expoentes políticos e também dois presidentes recentes, como Ronald Reagan e George W. Bush, foram seus admiradores.

O pensamento das coletividades sociais religiosas inspiradas em autores como Stewart considera os Estados Unidos como uma nação abençoada por Deus e não hesita em basear o crescimento econômico do país na adesão literal à Bíblia. Ao longo dos anos mais recentes, ele também se alimentou da estigmatização de inimigos que são, por assim dizer, “demonizados”.

No universo que ameaça o seu modo de entender o American way of life [trad.: modo de vida americano], alternaram-se ao longo do tempo:
* os espíritos modernistas,
* os direitos dos escravos negros,
* os movimentos hippies,
* o comunismo,
* os movimentos feministas e assim por diante, até chegar, hoje,
* aos migrantes e
* aos muçulmanos.
Para sustentar o nível do conflito, as suas exegeses bíblicas sempre se empurraram cada vez mais para leituras descontextualizadas dos textos do Antigo Testamento sobre a conquista e sobre a defesa da “terra prometida”, em vez de serem guiados pelo olhar incisivo e cheio de amor do Jesus dos Evangelhos.

Dentro dessa narrativa, o que impulsiona ao conflito não é banido. Não se considera o vínculo existente entre capital e lucros e a venda de armas. Ao contrário: muitas vezes a própria guerra é assimilada às heroicas ações de conquista do “Deus dos exércitos” de Gideão e de Davi. Nessa visão maniqueísta, as armas, portanto, podem assumir uma justificação de caráter teológico, e não faltam ainda hoje pastores que buscam, por isso, um fundamento bíblico, usando trechos da Sagrada Escritura como pretextos fora de contexto.

Outro aspecto interessante é a relação que essa coletividade religiosa, composta principalmente por brancos de extração popular do profundo Sul estadunidense, tem com a “criação”. Há como que uma espécie de “anestesia” em relação aos desastres ecológicos e aos problemas gerados pelas mudanças climáticas. O “dominionismo” que professam – que considera os ecologistas como pessoas contrárias à fé cristã – afunda as suas raízes em uma compreensão literal dos relatos da criação do livro do Gênesis, que coloca o ser humano em uma situação de “domínio” sobre a criação, enquanto esta última permanece submetida ao seu arbítrio em bíblica “sujeição”.

Nessa visão teológica, os desastres naturais, as dramáticas mudanças climáticas e a crise ecológica global não só não são percebidos como um alarme que deveria induzi-los a rever os seus dogmas, mas, ao contrário, são sinais que confirmam a sua concepção não alegórica das figuras finais do livro do Apocalipse e a sua esperança em “novos céus e nova terra”.

Trata-se de uma fórmula profética: combater as ameaças aos valores cristãos estadunidenses e esperar a iminente justiça de um Armagedom, uma prestação de contas final entre o Bem e o Mal, entre Deus e Satanás. Nesse sentido, todo “processo” (de paz, de diálogo etc.) desmorona diante da iminência do fim, da batalha final contra o inimigo. E a comunidade dos fiéis, da fé (faith), torna-se a comunidade dos combatentes, da batalha (fight).

Tal leitura unidirecional dos textos bíblicos pode levar a anestesiar as consciências ou a apoiar ativamente as situações mais atrozes e dramáticas que o mundo vive fora das fronteiras da própria “terra prometida”.
ROUSAS JOHN RUSHDOONY

O pastor Rousas John Rushdoony (1916-2001) é o pai do chamado “reconstrucionismo cristão” (ou “teologia dominionista”), que teve grande impacto na visão teopolítica do fundamentalismo cristão. Ela é a doutrina que alimenta organizações e redes políticas como o Council for National Policy e o pensamento dos seus expoentes, como Steve Bannon, atual chief strategist da Casa Branca e defensor de uma geopolítica apocalíptica [1].

“A primeira coisa que devemos fazer é dar voz às nossas Igrejas”, dizem alguns. O real significado desse tipo de expressões é que se espera a possibilidade de influenciar na esfera política, parlamentar, jurídica e educacional, para submeter as normas públicas à moral religiosa.

A doutrina de Rushdoony, de fato, defende a necessidade teocrática de submeter o Estado à Bíblia, com uma lógica nada diferente daquela que inspira o fundamentalismo islâmico. No fundo, a narrativa do terror que alimenta o imaginário dos jihadistas e dos neocruzados bebe de fontes não muito distantes entre si. Não devemos esquecer que a teopolítica propagandeada pelo Estado Islâmico se fundamenta no mesmo culto de um apocalipse a ser apressado o mais rápido possível. E, portanto, não é por acaso que George W. Bush foi reconhecido como um “grande cruzado” precisamente por Osama bin Laden.

Teologia da prosperidade e retórica da liberdade religiosa

Outro fenômeno relevante, ao lado do maniqueísmo político, é a passagem do original pietismo puritano, baseado em “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, de Max Weber, à “teologia da prosperidade”, propugnada principalmente por pastores milionários e midiáticos, e por organizações missionárias com uma forte influência religiosa, social e política. Eles anunciam um “evangelho da prosperidade”, para o qual Deus quer que os fiéis estejam:
* fisicamente saudáveis,
* materialmente ricos e
* pessoalmente felizes.

É fácil notar como algumas mensagens das campanhas eleitorais e as suas semióticas abundam em referências ao fundamentalismo evangélico. Acontece, por exemplo, de ver imagens em que líderes políticos aparecem triunfantes com uma Bíblia nas mãos.
NORMAN VINCENT PEALE

Uma figura relevante, que inspirou presidentes como Richard Nixon, Ronald Reagan e Donald Trump, é o pastor Norman Vincent Peale (1898-1993), que oficiou o primeiro casamento do atual presidente e o funeral dos seus pais. Ele foi um pregador de sucesso: vendeu milhões de cópias do seu livro “O poder do pensamento positivo” (1952), repleto de frases como: “Se você acreditar em algo, você irá obtê-lo”, “Se você repetir ‘Deus está comigo, quem está contra mim?’ nada vai pará-lo”, “Imprima em sua mente a sua imagem de sucesso, e o sucesso chegará”, e assim por diante. Muitos televangelistas da prosperidade misturam marketing, direção estratégica e pregação, concentrando-se mais no SUCESSO PESSOAL do que na salvação ou na vida eterna.

Um terceiro elemento, ao lado do maniqueísmo e do evangelho da prosperidade, é uma forma particular de proclamação da defesa da “liberdade religiosa”. A erosão da liberdade religiosa é claramente uma grave ameaça dentro de um secularismo galopante. No entanto, é preciso evitar que a sua defesa ocorra ao ritmo dos fundamentalistas da “religião em liberdade”, percebida como um desafio virtual direto à laicidade do Estado.

O ecumenismo fundamentalista

Aproveitando-se dos valores do fundamentalismo, está se desenvolvendo uma estranha forma de surpreendente ecumenismo entre fundamentalistas evangélicos e católicos integralistas, unidos pela mesma vontade de uma influência religiosa direta sobre a dimensão política.

Alguns que se professam católicos se expressam, às vezes, em formas até pouco tempo atrás desconhecidas para a sua tradição e muito mais próximas dos tons evangélicos. Em termos de atração de massa eleitoral, esses eleitores são definidos como value voters [trad.: eleitores de valor]. O universo de convergência ecumênica entre setores que, paradoxalmente, são concorrentes em termos de pertença confessional é bem definido. Esse encontro por objetivos comuns ocorre no campo de temas como:
* o aborto,
* o casamento entre pessoas do mesmo sexo,
* o ensino religioso nas escolas e
* outras questões consideradas genericamente como morais ou ligadas aos valores.

Tanto os evangélicos quanto os católicos integralistas condenam o ecumenismo tradicional e, por outro lado, promovem um ecumenismo do conflito que os une no sonho nostálgico de um Estado de traços teocráticos.

A perspectiva mais perigosa desse estranho ecumenismo está relacionada à sua visão xenófoba [aversão aos estrangeiros] e islamofóbica [aversão aos islâmicos, muçulmanos], que invoca muros e deportações purificadores. A palavra “ecumenismo”, assim, traduz-se em um paradoxo, em um “ecumenismo do ódio”.

A intolerância é marca celestial de purismo,
o reducionismo é metodologia exegética, e
o ultraliteralismo é a chave hermenêutica.

É clara a enorme diferença que existe entre esses conceitos e o ecumenismo encorajado pelo Papa Francisco com diversas referências cristãs e de outras confissões religiosas, que se move na linha da inclusão, da paz, do encontro e das pontes. Esse fenômeno de ecumenismos opostos, com percepções contrapostas da fé e visões de mundo em que as religiões desempenham papéis irreconciliáveis talvez seja o aspecto mais desconhecido e, ao mesmo tempo, mais dramático da difusão do fundamentalismo integralista. É nesse nível que se compreende o significado histórico do empenho do pontífice contra os “muros” e contra toda forma de “guerra religiosa”.

A tentação da “guerra espiritual”

O elemento religioso, em vez disso, nunca deve ser confundido com o político. Confundir poder espiritual e poder temporal significa sujeitar um ao outro. Um traço claro da geopolítica do Papa Francisco consiste em não dar margens teológicas ao poder para se impor ou para encontrar um inimigo interno ou externo a ser combatido.

É preciso fugir da tentação transversal e “ecumênica” de projetar a divindade sobre o poder político que se reveste dela para seus próprios fins. Francisco esvazia, a partir de dentro, a máquina narrativa dos milenarismos sectários e do “dominionismo”, que prepara para o apocalipse e para o “confronto final” [2]. A ênfase da MISERICÓRDIA como atributo fundamental de Deus expressa essa exigência radicalmente cristã.

Francisco pretende despedaçar o laço orgânico entre cultura, política, instituições e Igreja. A espiritualidade não pode se ligar a governos ou a pactos militares, porque ela está a serviço de todos os seres humanos. As religiões não podem considerar alguns como inimigos jurados, nem outros como amigos eternos. A religião não deve se tornar a garantia das classes dominantes. Porém, é precisamente essa dinâmica de espúrio sabor teológico que tenta impor a própria lei e a própria lógica no campo político.

Chama a atenção uma certa retórica usada, por exemplo, pelos comentaristas do Church Militant, uma plataforma digital estadunidense de sucesso, abertamente inclinada em favor de um ultraconservadorismo político, que usa os símbolos cristãos para se impor. Essa instrumentalização é definida como “autêntico cristianismo”. Ela, para expressar as próprias preferências, criou uma precisa analogia entre Donald Trump e Constantino, por um lado, e entre Hillary Clinton e Diocleciano, por outro. As eleições estadunidenses, nessa ótica, foram entendidas como uma “guerra espiritual[3].
CRUZADO
Há um desejo de explorar as inseguranças e incertezas do tempo atual para promover novas "guerras santas"

Essa abordagem bélica e “militante” parece ser decisivamente fascinante e evocativa para um certo público, especialmente pelo fato de que a vitória de Constantino – dada como impossível contra Maxêncio, que tinha às suas costas todo o establishment romano – devia ser atribuída a uma intervenção divina: in hoc signo vinces [tradução livre: por este sinal vencerás].

O Church Militant se pergunta, portanto, se a vitória de Trump pode ser atribuída às orações dos estadunidenses. A resposta sugerida é positiva. A missão indireta para o presidente Trump, novo Constantino, é clara: ele deve agir em conformidade. Uma mensagem muito direta, portanto, que quer condicionar a presidência, conotando-a com os traços de uma eleição “divina”. In hoc signo vinces, justamente.

Hoje, mais do que nunca, é necessário se despojar o poder das suas vestes confessionais suntuosas, das suas couraças, das suas armaduras enferrujadas. O esquema teopolítico fundamentalista quer instaurar o reino de uma divindade aqui e agora. E a divindade, obviamente, é a projeção ideal do poder constituído. Essa visão gera a ideologia de conquista.

O esquema teopolítico verdadeiramente cristão, ao contrário, é ESCATOLÓGICO, isto é, olha para o futuro e pretende orientar a história presente para o Reino de Deus, reino de justiça e de paz. Essa visão gera o processo de integração que se desdobra com uma diplomacia que não coroa ninguém como “homem da Providência” [grande risco político da atualidade em vários países, inclusive no Brasil].

E é também por isso que a diplomacia da Santa Sé quer estabelecer relações diretas, fluidas com as superpotências, mas sem entrar em redes de alianças e de influências pré-constituídas. Nesse quadro, o papa não quer nem dar nem tirar razão, porque ele sabe que, na raiz dos conflitos, sempre há uma luta de poder. Por isso, não se deve imaginar uma “inclinação” por razões morais ou, pior ainda, espirituais.

Francisco rejeita radicalmente a ideia da implantação do Reino de Deus sobre a terra, que tinha estado na base do Sacro Império Romano e de todas as formas políticas e institucionais similares, até a dimensão do “partido”. Se assim fosse entendido, de fato, o “povo eleito” entraria em uma complicada trama de dimensões religiosas e políticas que o fariam perder a consciência do seu estar a serviço do mundo e o contraporia a quem está longe dele, a quem não pertence a ele, isto é, ao “inimigo”.

Eis, então, que as raízes cristãs dos povos nunca devem ser entendidas de maneira etnicista. As noções de “raízes” e de “identidade” não têm o mesmo conteúdo para o católico e para o identitário neopagão. O etnicismo triunfalista, arrogante e vingativo, em vez disso, é o contrário do cristianismo.

O papa, no dia 9 de maio, em uma entrevista ao jornal francês La Croix, disse: “A Europa, sim, tem raízes cristãs. O cristianismo tem o dever de regá-las, mas em um espírito de serviço, como para o lava-pés. O dever do cristianismo para a Europa é o serviço”. E ainda: “A contribuição do cristianismo a uma cultura é a de Cristo com o lava-pés, ou seja, o serviço e o dom da vida. Não deve ser uma contribuição colonialista”.

Contra o medo

Sobre qual sentimento se apoia a tentação sedutora de uma aliança espúria entre política e fundamentalismo religioso?

Sobre o medo da fratura da ordem constituída e sobre o temor do caos. Ou, melhor, ela funciona justamente graças ao caos percebido. A estratégia política para o sucesso torna-se a de:
* elevar os tons da conflitualidade,
* exagerar a desordem,
* agitar os ânimos do povo com a projeção de cenários inquietantes para além de todo realismo.

A religião, nesse ponto, se tornaria garantia da ordem, e uma parte política encarnaria as suas exigências. O apelo ao apocalipse justifica o poder desejado por um deus ou conivente com um deus. E o fundamentalismo, assim, se revela não como o produto da experiência religiosa, mas como uma concepção pobre e instrumental dela.

Por isso, Francisco está desenvolvendo uma sistemática contranarrativa em relação à narrativa do medo. Portanto, é preciso combater a manipulação dessa temporada de ansiedade e de insegurança. No entanto, para isso, corajosamente, Francisco não dá nenhuma legitimação teológico-política aos terroristas, evitando toda redução do Islã ao terrorismo islâmico. E não a dá nem mesmo àqueles que postulam e que querem uma “guerra santa” ou que constroem cercas de arame farpado. O único arame farpado para o cristão, de fato, é o da coroa de espinhos que Cristo tem sobre a cabeça [4].

NOTAS

1. Bannon crê na visão apocalíptica que William Strauss e Neil Howe teorizaram no seu livro The Fourth Turning: What Cycles of History Tell Us About America’s Next Rendezvous with Destiny. Cf. também N. Howe, “Where did Steve Bannon get his worldview? From my book”, in The Washington Post, 24 de fevereiro de 2017.

2. Cf. A. Aresu, “Pope Francis against the Apocalypse”, in Macrogeo, 9 de junho de 2017.

3. Cf. “Donald ‘Constantine’ Trump? Could Heaven be intervening directly in the election?”, in Church Militant.

4. Para aprofundar essas reflexões, cf. D. J. Fares, “L’antropologia politica di Papa Francesco”, in Civiltà Cattolica 2014, I, p. 345-360; A. Spadaro, “La diplomazia di Francesco. La misericordia come processo politico”, ibid., 2016, I, p. 209-226; D. J. Fares, “Papa Francesco e la politica», ibid., 2016, I, p. 373-385; J. L. Narvaja, “La crisi di ogni politica cristiana. Erich Przywara e l’‘idea di Europa’”, ibid., 2016, I, p. 437-448; Id., “Il significato della politica internazionale di Francesco”, ibid., 2017, III, p. 8-15.

* Antonio Spadaro é presbítero jesuíta italiano, jornalista, diretor da revista La Civiltà Cattolica; Marcelo Figueroa é pastor presbiteriano argentino, diretor da edição argentina do jornal L’Osservatore Romano.

Artigo traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 17 de julho de 2017 – Internet: clique aqui.

Cuidado: antigos vícios, novas drogas!

Seis drogas da moda que ameaçam os JOVENS
que buscam prazer e estímulo sexual

1. POPPER
O nome vem do barulho que a ampola da substância fazia ao ser aberta quando era usada, nos anos 1970, como analgésico. Hoje, a droga é consumida principalmente nos círculos LGBT. Por relaxar os músculos e ativar a circulação sanguínea, aumenta o prazer sexual.

2. Champanhe rosa
Produz efeito semelhante ao do ecstasy, de euforia e agitação. Mas é mais perigosa por ser vendida em cristais, o que dificulta o controle da quantidade consumida. Seu princípio ativo é o MDMA, um tipo de anfetamina modificada.

3. G
O nome vem de GHB, sigla em inglês para o ácido gama-hidroxibutirato, usado para produzir a droga «Boa noite, Cinderela», de efeito sedativo. Em sua fórmula mais recente, estimula o prazer sexual e a euforia. Líquida, costuma ser consumida em gotas nas baladas.

4. SPICE ou K2

A maconha sintética tem efeito 85 vezes mais potente que o da planta e maior risco de causar dependência. Provoca o efeito «zumbi» - o usuário se movimenta com lentidão. O composto é borrifado em folhas secas de ervas e vendido em pacotes, para ser consumido com tabaco.

5. NBOMe
Variante da feniletilamina, um alcaloide natural, é vendida em forma de pó, líquido ou fita microporosa, como alternativa ao LSD. A duração de seus efeitos (da ansiedade à alucinação) é de até doze horas. Pode causar transtornos de ansiedade, alucinações e crises de pânico.

6. CIGARROS COM SABOR
Conforme o consumo de cigarros diminui, as empresas de tabaco lançam mão de outros recursos para atrair novos consumidores, especialmente entre os jovens. Isso tem sido feito principalmente pela oferta de cigarros com sabor, eletrônicos e até charutos. Afinal, as pesquisas mostram que 90% dos fumantes se tornam dependentes até os 19 anos. O resultado é que, enquanto as vendas totais de cigarros estão em declínio, as de cigarros com sabor aumentam. Um estudo da Euromonitor revelou que, entre 2010 e 2015, o consumo das versões com sabor multiplicou-se por dez em seis países latino-americanos (não há dados sobre o Brasil).
O problema é ainda mais grave porque, aqui no Brasil, esses cigarros estão sendo vendidos a uma distância de até 250 metros das portas das escolas. Os sabores doces, de frutas e de mentol servem para suavizar o fumo e torná-lo mais palatável, justamente para atrair e conquistar novos fumantes. Para piorar, estudos recentes concluíram que os cigarros da atualidade são ainda mais viciantes que os do passado.

Fonte: revista VEJA – A lista / Página aberta – edição 2538 – Ano 50 – número 28 – 12 de julho de 2017 – Págs. 27, 84 (edição impressa).

15º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 13,1-23


1 Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se às margens do mar da Galileia.
2 Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé, na praia.
3 E disse-lhes muitas coisas em parábolas: «O semeador saiu para semear.
4 Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os pássaros vieram e as comeram.
5 Outras sementes caíram em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. As sementes logo brotaram, porque a terra não era profunda.
6 Mas, quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz.
7 Outras sementes caíram no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram e sufocaram as plantas.
8 Outras sementes, porém, caíram em terra boa, e produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente.
9 Quem tem ouvidos, ouça!».
10 Os discípulos aproximaram-se e disseram a Jesus: «Por que tu falas ao povo em parábolas?».
11 Jesus respondeu: «Porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos Céus,
mas a eles não é dado.
12 Pois à pessoa que tem, será dado ainda mais, e terá em abundância; mas à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem.
13 É por isso que eu lhes falo em parábolas: porque olhando, eles não vêem, e ouvindo, eles não escutam, nem compreendem.
14 Deste modo se cumpre neles a profecia de Isaías: “Havereis de ouvir, sem nada entender. Havereis de olhar, sem nada ver.
15 Porque o coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade e fecharam seus olhos, para não ver com os olhos, nem ouvir com os ouvidos, nem compreender com o coração, de modo que se convertam e eu os cure”.
16 Felizes sois vós, porque vossos olhos vêem e vossos ouvidos ouvem.
17 Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, e não viram, desejaram ouvir o que ouvis, e não ouviram.
18 Ouvi, portanto, a parábola do semeador:
19 Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho.
20 A semente que caiu em terreno pedregoso é aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria;
21 mas ele não tem raiz em si mesmo, é de momento: quando chega o sofrimento ou a perseguição, por causa da palavra, ele desiste logo.
22 A semente que caiu no meio dos espinhos é aquele que ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra, e ele não dá fruto.
23 A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem, outro sessenta e outro trinta.»

Marcelo Guimarães & José Antonio Pagola
"O Semeador"
Pintura de Albin Egger-Lienz (1868–1926), de 1903
Museum Schloß Bruck, Lienz

Para que Jesus veio ao mundo

Começa a terceira parte do Evangelho Segundo Mateus. É o chamado “terceiro livro” de Mateus. Após ter anunciado a NOVA LEI ao povo de Deus (Mt 5 – 7) e de tê-lo enviado em missão. Jesus anuncia por que e para que veio ao mundo. No capítulo 13 do seu Evangelho, Mateus apresenta-nos sete parábolas, através das quais Jesus revela aos discípulos a realidade do “Reino”: são as “parábolas do Reino”. A “parábola” é uma imagem ou comparação, através da qual se ilustra uma determinada mensagem ou ensinamento.

A passagem evangélica deste domingo começa com uma imagem significativa, a de Jesus mestre que, sentado numa barca – símbolo da comunidade cristã –, ensina a multidão. Em seguida, a figura de Jesus ensinando se confunde com seu próprio ensinamento: ele é o SEMEADOR que saiu a semear e que, depois de muitas peripécias da palavra/semente, consegue ter êxito em sua tarefa e colher frutos. O Evangelho se conclui com um diálogo de Jesus com os discípulos para explicar por que nem todos conseguem compreender e ter acesso a esta palavra.

Jesus não falou somente para as pessoas que o acolhiam e se convertiam. Comunicou-se com gente aberta e gente fechada, colocou sua semente em terreno fértil e em terreno que não apresentava boas condições para o plantio. Há uma atitude de absoluta gratuidade e abertura da parte de Jesus, uma decisão de amor. Jesus abre o anúncio para todos, mas não força ninguém. E se alguém não acolhe a sua Palavra, não cria vínculo com Deus.

No centro do anúncio de Jesus está a própria Palavra de Deus, compreendida mais como um ACONTECIMENTO NA VIDA das pessoas do que como uma mensagem ou uma doutrina. Como acontecimento, a Palavra pede posições, espera reações, gera outros acontecimentos e outras palavras.

A liturgia dominical, como lugar de escuta da Palavra de Deus, pede de nós a mesma atitude dos discípulos de viver o HOJE DE DEUS e de poder participar de um acontecimento que muitas pessoas desejariam. Escutar a Palavra de Deus e fazê-la frutificar torna-se, assim, um momento de graça e de salvação.

Semear

Ao terminar o relato da parábola do semeador, Jesus faz esta chamada: «Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!». Pede-nos que prestemos muita atenção à parábola. Mas, em que temos de refletir? No semeador? Na semente? Nos diferentes terrenos?

Tradicionalmente, os cristãos têm se fixado quase exclusivamente nos terrenos em que cai a semente, para rever qual é a nossa atitude ao escutar o Evangelho. No entanto é importante prestar também atenção ao semeador e ao seu modo de semear.

É a primeira coisa que diz o relato: «Saiu o semeador a semear». Age com uma confiança surpreendente. Semeia de forma abundante. A semente cai e cai por todas as partes, inclusive onde parece difícil que possa germinar.

Às pessoas não lhes é difícil identificar o semeador. Assim semeia Jesus a sua mensagem. Veem-no sair todas as manhãs anunciando a Boa Nova de Deus. Semeia a Sua Palavra entre as pessoas simples, que a acolhem, e também entre os escribas e fariseus, que a rejeitam. Nunca se desalenta. A Sua sementeira não será estéril.

Sobrecarregados por uma forte crise religiosa, podemos pensar que o Evangelho perdeu a sua força original e que a mensagem de Jesus já não tem garra para atrair a atenção do homem ou da mulher de hoje. Certamente, não é o momento de «colher» êxitos chamativos, mas de aprender a semear sem nos desalentarmos, com mais humildade e verdade.

Não é o Evangelho o que perdeu força humanizadora; somos nós os que o estamos anunciando com uma fé débil e vacilante. Não é Jesus o que perdeu poder de atração. Somos nós os que o desvirtuamos com as nossas incoerências e contradições.

Papa Francisco diz que, quando um cristão não vive uma adesão forte a Jesus, «depressa perde o entusiasmo e deixa de estar seguro do que transmite, falta-lhe força e paixão. E uma pessoa que não está convencida, entusiasmada, segura, apaixonada, não convence ninguém».

Evangelizar não é propagar uma doutrina, mas tornar presente no meio da sociedade e no coração das pessoas a força humanizadora e salvadora de Jesus. E isto não se pode fazer de qualquer forma. O mais decisivo não é o número de pregadores, catequistas e professores de religião, mas a qualidade evangélica que nós cristãos podemos irradiar: o que contagiamos? Indiferença ou fé convicta? Mediocridade ou paixão por uma vida mais humana?

Fontes: GUIMARÃES, Marcelo; CARPANEDO, Penha. Dia do Senhor: guia para as celebrações das comunidades. Tempo Comum – Ano A. São Paulo: Apostolado Litúrgico, Paulinas. 2001, págs. 154-155; MUSICALITURGICA.COM – Homilías de José A. Pagola – Segunda-feira, 10 de julho de 2017 – 17h36 (Horário Centro Europeu) – Internet: aqui

quinta-feira, 6 de julho de 2017

É SUBSTITUÍDO O GUARDIÃO DA DOUTRINA CATÓLICA

Müller sai, Ladaria é investido:
motivos plausíveis de uma reviravolta

Andrea Grillo*
Come Se Non
05-07-2017

“Era inevitável que se devesse investir um novo prefeito de uma função muito delicada e valiosa: elaborar uma leitura do Magistério que retorne ao impulso com que o Concílio Vaticano II restituiu autoridade à Igreja e à história da salvação que ela vive, aqui e agora.”
 
Gerhard Ludwig Müller - cardeal alemão
O que aconteceu na cúpula da Congregação para a Doutrina da Fé deveria ser interpretado com categorias adequadas. Essa interpretação à queima-roupa não é fácil. É mais fácil captar motivos extrínsecos e ocasionais, para explicar simpatias e antipatias, projetos de reforma e projetos de restauração. Assim, é possível, com base nessas avaliações, falar de uma “oportunidade perdida”, ou de “escândalo”, ou de “buraco na água”, ou de “não decisão”. Eu acredito que é oportuno e prudente analisar a situação de acordo com um ângulo mais amplo. É o que eu tento esboçar aqui.

a) A primeira observação que podemos fazer é que, desde os primeiros meses depois da eleição de Francisco ao ministério petrino, o cardeal Müller assumiu posições, às vezes veladamente, às vezes explicitamente, conflitantes com as palavras do bispo de Roma. Essa tensão, depois de quatro anos, devia encontrar uma solução. E era difícil pensar que o papa pudesse confirmar um “ministro” que contradizia sistematicamente o que o papa afirmava. Obviamente, não é possível aqui fazer uma comparação entre Müller e Ladaria. Poder-se-ia afirmar que, justamente, a “superexposição do prefeito” protegeu o secretário, que pode gozar de uma condição particularmente “coberta”, que hoje ele pode valorizar.

b) São muitos os pontos sobre os quais Müller fez declarações ou concedeu entrevistas com uma perspectiva muito diferente da do papa: para fazer apenas uma pequena lista, lembro a “exigência de dar estruturação teológica ao papado” por parte da Congregação para a Doutrina da Fé; uma forma de “indiferença” para com o envolvimento de “leigos” e “leigas” na luta contra a pedofilia; uma leitura radicalmente “continuísta” da Amoris laetitia com a substancial exclusão de qualquer novidade. Sobre todos esses pontos, a lacuna entre abordagem papal e abordagem do prefeito da Congregação parecia ser, nos últimos anos, quase irremediável.

c) Mas, para além dessas divergências bastante importantes, pareceu que, em Müller, sobrevivia a uma leitura redutora do Magistério e da função da Congregação em seu interior. Müller parecia ligado a uma compreensão em que a “negação de autoridade do Magistério e da Congregação” correspondia a uma confirmação substancial do limite autorreferencial da Igreja. Sobre todos os temas “novos”, Müller parecia reagir de acordo com o estilo dos últimos 30 anos, dizendo “non possumus”. Ele parecia interpretar a função dele – e a do Magistério – como um baluarte contra qualquer mudança. Enquanto o Papa Francisco entende a função do Magistério e da Congregação como acompanhamento, discernimento e integração na mudança. A mudança é mediação de fidelidade.

d) Um tema exemplar, sobre o qual Müller se pronunciou primeiro como teólogo e depois como prefeito, é o diaconato feminino. Sobre esse assunto, ele desposou, sem distinção, uma exclusão radical, passando pela extensão ao diaconato da proibição estabelecida sob João Paulo II com a Ordinatio sacerdotalis. À posição de Müller, parece estranha até mesmo uma comissão de estudo histórica. Essa “exclusão de autoridade” – como salvaguarda de uma noção velha e rígida de ministério ordenado – também é típica de uma abordagem unilateral de compreensão do Magistério e da função da Congregação para a Doutrina da Fé.
Luis Francisco Ladaria Ferrer - jesuíta espanhol
recém nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé

e) Tudo isso, evidentemente, desgastou irremediavelmente as relações entre o prefeito e o papa. E era inevitável que se devesse investir um novo prefeito de uma função muito delicada e valiosa: elaborar uma leitura do Magistério que retorne ao impulso com que o Concílio Vaticano II restituiu autoridade à Igreja e à história da salvação que ela vive, aqui e agora. A um prefeito achatado demais sobre o “neoantimodernismo” dos anos 1980-2010, temos agora, substituído, um prefeito, pelo menos, disponível para entrar em uma lógica “não autorreferencial” de custódia do “depositum fidei”.

Entrar com autoridade na lógica do papa, estando ao seu lado, ler a mudança também como autêntica fidelidade e não apoiar ou endossar qualquer histerismo dissidente e reacionário, para a Congregação, seria uma passagem nada pequena no caminho estreito, mas certo, de uma retomada do Magistério positivo, do modo como foi sistematizado e sonhado pelo Concílio Vaticano II. É nessa direção que me parece que se move a investidura do Padre Ladaria.

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão original, clicando aqui.

* ANDREA GRILLO é teólogo italiano leigo e professor do Pontifício Ateneu Sant’Anselmo, em Roma; do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona; e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 6 de julho de 2017 – Internet: clique aqui.