«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.»

(Aristóteles [384 a.C. – 322 a.C.] – filósofo grego, discípulo de Platão)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Debate: ensino religioso nas escolas

Proselitismo, não

Entrevista com Nilton Bonder
Rabino

Maria Clara Vieira

Rabino Nilton Bonder acha que uma aula de religião bem dada pode até abrir a cabeça do aluno, mas que escola pública não é lugar para profissões de fé
NILTON BONDER
Rabino gaúcho, radicado no Rio de Janeiro

Autor renomado e um dos religiosos mais influentes do país, o rabino Nilton Bonder, de 59 anos, evoca a própria experiência ao falar sobre a recente e ruidosa decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que permite aulas de religião nas escolas públicas. Na infância, Bonder foi dispensado da matéria, ensinada em sua escola por uma freira. Lembra-se até hoje de seu constrangimento quando era o único garoto que se levantava e saía da sala. “Era um horror”, diz. Nascido em Porto Alegre e radicado no Rio de Janeiro, Bonder discorda da decisão do STF e acha que o ensino religioso não pode privilegiar nenhuma confissão. Mas, feita a ressalva, é a favor da aula de religião como meio de transmitir às crianças valores e tradições que ultrapassam fatos, locais e datas. “É um espaço para mostrar que a vida pode ser vista além da racionalidade”, diz nesta entrevista.

O que representa a liberação pelo STF do ensino confessional religioso nas escolas públicas?

Nilton Bonder: Vejo nas aulas dadas por padres, pastores ou rabinos uma brecha para que a religião vire proselitismo. Colocado na base do pode ou não pode, de se é constitucional ou não, o debate acaba restrito ao plano mais rasteiro. A pergunta que deveria ser martelada o tempo todo é: o que se espera que a religião acrescente à tão combalida educação brasileira? Faltou uma reflexão sobre conteúdo. As aulas de religião deveriam abrir aos alunos uma nova dimensão de conhecimento. Mas, se divulgam uma fé, fecham o espectro do pensamento, o que é nocivo.

O senhor quer dizer então que ensinar uma religião específica faz mais mal do que bem?

Nilton Bonder: Pode fazer mal, sim. A identificação com um grupo tem um lado tóxico, porque há o risco de levar à cegueira. Isso acontece, por exemplo, com as torcidas de futebol, quando descambam para a irracionalidade. Não se constrói a diversidade apresentando uma única narrativa. E um professor que siga uma determinada fé provavelmente encaminhará a aula na direção que lhe pareça mais condizente com ela.

O fato de o ensino religioso ser facultativo não resolve o problema?

Nilton Bonder: Ocorre que, na prática, as coisas são diferentes. Quando eu era pequeno, frequentei durante dois anos uma escola pública em que havia aula opcional de religião católica, dada por uma freira. Meus pais pediram à direção que eu não participasse e foram atendidos. Mas, para mim, era um horror. Quando chegava a hora da aula, eu tremia. Sair da sala era um constrangimento. Cheguei a pedir a meus pais que me deixassem ficar, só para não ser o excluído da turma. Como não permitiram, eu me juntava a outros dois meninos judeus e ficávamos lá à toa, esperando a aula acabar.

Na escola particular, a situação é diferente?

Nilton Bonder: Sim, ali se pode ensinar uma religião específica, até porque muitas delas estão ligadas a igrejas. Ao matricularem os filhos, os pais sabem que tipo de ensino esperar.
Colégio Santa Marcelina, em Botucatu, interior de São Paulo

A existência de aulas de religião na escola pública fere o princípio do Estado laico?

Nilton Bonder: Não vejo assim. Acho até que abrir esse espaço engrandece a educação. O Estado laico não é justificativa para banir toda e qualquer manifestação religiosa. Pelo contrário, ele é uma proteção que a própria Constituição criou para prevenir imposições de natureza religiosa — uma espécie de cláusula de barreira muito sadia. Até pouco tempo atrás, quando o Brasil era um país essencialmente católico, era justamente essa cláusula que protegia minorias como a minha.

Na dúvida sobre como a religião deveria ser ensinada, é preferível banir essa disciplina?

Nilton Bonder: Não. A presença da religião é positiva, desde que conduzida de maneira crítica pelos educadores. É por isso que rabino, padre ou pastor não podem dar aula em escola pública. A razão é simples: além do preparo para lecionar, falta-lhes o distanciamento necessário.

Quem deveria então se encarregar da tarefa?

Nilton Bonder: Antes de entrar no currículo, o ensino religioso precisa ser rigorosamente avaliado por educadores que tenham em mente aonde se quer chegar. Enfatizo isso porque o debate atual parece ignorar esse ponto essencial. Fica a impressão de que as decisões sobre o ensino de religião nas escolas atendem principalmente a interesses dos próprios religiosos, em detrimento da educação e da qualidade. É um erro de prioridades.

A decisão tomada pelo STF favorece grupos religiosos específicos?

Nilton Bonder: É óbvio que sim. O que mais me preocupa, no debate atual, é saber se o foco é mesmo a melhoria da educação ou se por trás de tudo estão grupos religiosos tentando se infiltrar na escola. Existem disputas religiosas no país, que na maioria das vezes se disseminam de forma silenciosa. Aliás, na cultura brasileira muitos problemas se mantêm assim, latentes — o racismo, a intolerância.

E aonde se deveria chegar com aulas de religião?

Nilton Bonder: Levar religião às escolas pode ser uma preciosa janela para a cultura, para as tradições, para a construção de valores e para a noção de identidade. As religiões têm outra virtude escassa no mundo de hoje, que são as utopias. A esperança de um futuro melhor está presente em todas elas, ainda que expressa de maneiras diferentes.

Mas esses valores não podem ser ensinados em outras matérias?

Nilton Bonder: Podem. Eles se encaixam nas aulas de história ou de geografia, por exemplo. Mas vejo seu ensino no universo das religiões como uma espécie de contraponto poético, um espaço para mostrar às crianças que a vida pode ser vista para além da racionalidade. As religiões são ricas em narrativas pouco discutidas, mas que marcaram um grupo ou a humanidade inteira em todos os tempos. Eu adoraria, como brasileiro, aprender sobre aquilo em que os índios acreditavam, como entendiam a passagem do tempo.

No Brasil, a religião também se faz presente nos crucifixos em espaços públicos e na frase “Deus seja louvado” na nota de real. É condenável?

Nilton Bonder: Depende do contexto. A frase na nota representa muito mais do que uma preferência religiosa. Trata-se da noção coletiva de que há algo superior que guarda nosso trabalho, nosso dinheiro. O que dá valor àquele pedaço de papel é justamente a crença que as pessoas têm de que estão construindo algo bom. Da mesma forma, acredito que a presença da cruz em repartições públicas funciona como um símbolo de grandiosidade — como a águia para os Estados Unidos. Não estou dizendo que os dois símbolos não possam ser debatidos. Aliás, se dependesse de mim, não haveria símbolo algum. Mas percebo que, se a frase e o crucifixo representam uma identidade nacional, eles são válidos.
No alto, à direita, vê-se a presença de um crucifixo no Plenário da mais alta corte do país:
o Supremo Tribunal Federal, em Brasília (DF)

A legislação define Israel como um Estado laico, mas, como se sabe, a religião se pronuncia ali nas mais diversas áreas. Isso não compromete a laicidade?

Nilton Bonder: Compromete, sem dúvida nenhuma, e esse é um assunto extremamente problemático, que remete às origens do país. A própria criação de um Estado judeu que almeja ser laico já é uma contradição em si. E Israel paga um preço alto por não conseguir demarcar a fronteira entre Estado e religião. Para se ter uma ideia, lá não existe nem casamento civil. É sempre civil e religioso. Tudo é dominado pela religião.

Inclusive a sala de aula?

Nilton Bonder: Na educação, essa também é uma questão bastante delicada. Israel tem uma rede pública que é relativamente protegida da religião. Por outro lado, gasta muito dinheiro concedendo benefícios a grupos religiosos, que dominam todas as outras áreas e acabam por influenciar também o ensino. Vale lembrar que estamos falando de um país em guerra e de um povo que passou por um genocídio. Como a história da religião está muito atrelada à história sangrenta dos judeus, os dois departamentos facilmente se misturam. O Brasil, por suas raízes e pluralidade, teve muito mais facilidade em delimitar onde termina a religião e começa o Estado. E deve assegurar isso como uma conquista sagrada.

O senhor considera o Brasil um país tolerante?

Nilton Bonder: Não é uma resposta fácil. Uma coisa é a letra fria da lei, a outra é sua aplicação. Quando o Brasil reúne à mesa boas cabeças para refletir sobre conceitos universais, coloca-se muitas vezes entre os países mais avançados do mundo. Há uma lei contra o antissemitismo aqui que, até onde sei, não tem igual em outra parte. Assim como existem boas leis contra o racismo e a homofobia. O problema, portanto, não está na teoria, mas, de novo, no modo como ela se expressa. É nesse ponto que, apesar do verniz legal, podemos ser extremamente intolerantes em relação a toda e qualquer diferença.

Censurar obras de arte em nome da moral — como ocorreu com as da Queermuseu, em Porto Alegre, e com a performance no Museu de Arte Moderna de São Paulo — é expressão de intolerância?

Nilton Bonder: Sim. Desde que haja definição de faixa etária e avisos bem claros do que vai ser visto, tudo bem, a obra pode ser exibida livremente. Agora, é preciso distinguir o espaço público do privado. Se algum símbolo judaico fosse dessacralizado em lugar público, um outdoor ou um muro, eu reclamaria. Se um monumento macula a figura de Jesus Cristo e ofende os cristãos, não pode estar em uma praça. Já dentro de um museu, aonde vai quem quer, deve ser permitida toda forma de manifestação artística. [Isso também, a meu ver, é discutível! A manifestação artística não significa “carta branca” para se fazer o que bem quer! Em todas as atividades e atitudes humanas o bom senso, o respeito aos símbolos e valores de outrem devem ser levado em conta, ou não?!]

Há grupos exagerando no moralismo?

Nilton Bonder: É leviano achar tudo um exagero, mas não se pode dar poder de censura às pessoas que se sentem agredidas. Deve haver um limite aí. Até acho que algumas vezes levar um bom processo na cabeça não faz mal ao artista, para que ele aprenda que ser ousado requer qualidade. É importante existir ao mesmo tempo um Estado liberal em relação às artes e um Judiciário sensível o suficiente para analisar caso a caso e coibir discursos de intolerância e ódio.

O senhor já foi alvo de preconceito religioso?

Nilton Bonder: Há poucos anos, voltava da sinagoga usando um solidéu quando um rapaz passou por mim de bicicleta e gritou “sai daí, seu judeuzinho”. Nunca tinha experimentado nada parecido, mas não é a regra no Brasil.

Como vê a ascensão de grupos neonazistas nos tempos atuais?

Nilton Bonder: Dá medo. O Holocausto é muito recente. Há ainda gente viva que presenciou aquele horror. Outro dia ouvi o depoimento de um judeu americano que dizia, aos prantos: “Nunca imaginei ver essa semente nascendo no mundo outra vez”. Em nome desse pavor ainda evidente, consequência de uma marca que não se apaga, uma parcela da comunidade judaica no mundo acaba se apegando a líderes apenas pelo fato de inspirarem proteção.

Fonte: Revista VEJA – Entrevista – Edição 2551 – Ano 50 – Número 41 – 11 de outubro de 2017 – Páginas 11-13 – Internet: clique aqui.

A ameaça Bolsonaro

Ana Clara Costa

O presidenciável se consolida na vice-liderança das pesquisas, mas suas ideias extremistas e seu isolamento político são um alerta para o perigo que oferece
JAIR BOLSONARO
No partido do eu sozinho! 
(Jonne Roriz/VEJA)

O deputado Jair Bolsonaro quer ser presidente do Brasil. O deputado Jair Bolsonaro tem chances reais de vir a ser presidente do Brasil. Há alguns anos, essas duas frases juntas fariam a maior parte dos brasileiros rir às escâncaras. Hoje, provocam reações diversas, que vão da celebração ao pavor, mas não incluem mais as antigas gargalhadas. A mais recente pesquisa do instituto Datafolha mostra que o deputado se consolidou em segundo lugar na corrida eleitoral para a Presidência da República, com 17% das intenções de voto no primeiro turno, atrás apenas do líder de sempre, o ex­presidente Lula, com 35%. Os números significam que, se o petista desistir ou for impedido de concorrer por motivos penais, hipótese cada vez mais provável, Bolsonaro é hoje o candidato com maior chance de assumir a liderança. É uma novidade e tanto — e talvez a maior ameaça que o Brasil já enfrentou no atual ciclo democrático.

Debulhando-se a pesquisa, constata-se que Bolsonaro tem um desempenho especialmente favorável entre os jovens, na faixa de 24 a 32 anos, do sexo masculino, com renda acima de cinco salários mínimos, que residem em cidades com mais de 50000 habitantes das regiões Sudeste e Nordeste. Isso mostra que o grosso do seu público não viveu sob a ditadura militar e pertence a um segmento da classe média. Não é o pedaço mais expressivo do eleitorado brasileiro, mas já reúne entre 20 milhões e 30 milhões de pessoas, dependendo dos nomes que aparecem na cédula.

Com esse apoio, Bolsonaro colocou definitivamente a direita radical no jogo eleitoral, num país que, há poucos anos, tinha vergonha de expor ideais dessa tendência. “Eu sempre fui de direita, mesmo quando isso era crime”, orgulha-se. Sua ascensão ganhou um impulso monumental justamente de seu maior inimigo — o PT, que, com a desmoralização provocada pela revelação de seus intestinos criminosos, conseguiu imprimir um estrago histórico à esquerda brasileira. Antes de Bolsonaro, o maior sucesso da direita extremista foi protagonizado por Enéas Carneiro, um cardiologista folclórico e estridente que se celebrizou pelo bordão “Meu nome é Enéas” e teve 7% dos votos na eleição de 1994 — e que, não por acaso, é um dos ídolos de Bolsonaro.

Bolsonaro já é maior que dois Enéas. É recebido com fanfarra nos aeroportos por fãs entusiasmados, é solicitado para selfies até nos corredores do Congresso. Numa noite recente, depois de ser abordado por uma dezena de deputados em sessão da Câmara, comentou com a reportagem de VEJA, que o acompanhava: “Ouviu o que me disseram lá dentro? ‘Vou estar contigo no ano que vem.’ Não tem opção, cara”. Apesar dos rapapés e uivos, Bolsonaro vive em isolamento político. Não tem ligação sólida com nenhum partido. Em quase três décadas como deputado, conseguiu aprovar apenas dois projetos e virou um saltimbanco de siglas. Pertenceu ao PDC, PP, PPR, PPB, PTB, PFL, PSC e, agora, está prestes a aderir ao PEN, cujo nome está mudando para Patriotas. No PSC, sua legenda anterior, quem lhe abriu as portas foi o pastor Everaldo Dias Pereira, aquele que a Odebrecht acusou de cobrar 6 milhões de reais para dar apoio ao candidato presidencial Aécio Neves, do PSDB. O pastor, aliás, tornou-se tão íntimo de Bolsonaro que o convenceu a cruzar o Oceano Atlântico pela primeira vez, no ano passado, para visitar Israel e ser batizado no Rio Jordão, junto com seus quatro filhos mais velhos.

Bolsonaro não oferece a seus eleitores um conjunto concatenado de ideias, não articula uma visão de Estado nem se alinha com nenhuma escola econômica. “Sou ignorante em economia”, confessa. Mas, entre suas ideias, observa-se uma tendência conspiratória, comum entre os militares, segundo a qual os estrangeiros estão sempre tramando para afanar as riquezas nacionais (veja o quadro abaixo). Outro sinal do isolamento está em seu entorno. Seus conselheiros mais próximos são os três filhos mais velhos, do primeiro casamento:
* o deputado estadual Flávio Bolsonaro, a quem o pai chama de Zero Um;
* o vereador Carlos Bolsonaro, o Zero Dois; e
* o deputado federal Eduardo Bolsonaro, o Zero Três, todos do PSC.
Os filhos de Jair Bolsonaro:
Carlos, Eduardo e Flávio, em agosto de 2017
(Antonio Milena/VEJA)

Em tempos de Lava-Jato, Bolsonaro vende seu isolamento político como um ativo. “Nenhum partido vai querer se coligar comigo porque sabem que não sou ‘piranha’ para receber certas propostas indecorosas”, diz. Apresentar-se como um solitário lírio no lodo pode parecer positivo, mas esconde um perigo. “Não ter uma base ampla e organizada não é novidade em uma eleição. Outros candidatos menos asquerosos disputarão as eleições de 2018 também sem amplas bases. Isso tudo coloca um problema: como conseguirão maioria parlamentar que dê sustentação às decisões? Todos os isolados teriam de responder a isso”, diz o sociólogo Demétrio Magnoli, da Universidade de São Paulo, que, em seguida, toca no ponto fulcral: “Agora, no campo da especulação, um presidente isolado com o perfil de Bolsonaro pode tentar apelar diretamente ao povo, por cima das instituições de mediação democráticas, como já vimos acontecer em outros países. Isso é uma ameaça à democracia porque põe em risco não a relação direta entre o presidente e o povo, mas sim as mediações entre o poder e o povo, que são fundamentais em um Estado democrático”.

“Sou ignorante em economia”

Mesmo assim, Bolsonaro se declara contrário à política de aumento de juros para combater a inflação e votou contra o pacote fiscal de resgate do Rio

TAXA SELIC
Bolsonaro critica a política de aumentar juros para conter a inflação — o baluarte do pensamento liberal. Para ele, o Banco Central só cortou a Selic no último ano para “beneficiar banqueiros”, que temiam que os juros altos tornassem a dívida pública impagável, pondo em risco a rentabilidade de títulos públicos nos quais os bancos investem. “Banqueiro não quer levar calote”, diz. Bolsonaro afirma que defende a queda da Selic “há muito tempo”. Mas diz ser criticado por essa convicção porque o mercado acredita que “é pecado” o governo intervir na política de juros.

PRIVATIZAÇÕES
Sobre as privatizações anunciadas por Temer, ele se esquiva de dizer se manterá o plano caso seja eleito. “Tem coisa que dá para privatizar para acabar com o loteamento político. Mas setor estratégico não se privatiza. Nos Estados Unidos, é o Exército americano que cuida das hidrelétricas. Algumas coisas não podem sair da tutela do Estado. Chamam os militares de estatizantes, mas como fazer Itaipu com dinheiro privado?” Contudo, Bolsonaro votou a favor de desobrigar a Petrobras de participar dos leilões do pré-sal e discordou quando o governo Dilma determinou que a empresa tivesse participação obrigatória de 30% nos consórcios.

AJUSTE FISCAL
Bolsonaro nunca esteve alinhado à agenda de corte de gastos públicos nos seus sete mandatos como deputado. Sempre defendeu corporações do funcionalismo, em especial os militares, sua base eleitoral, votando a favor de reajustes salariais e de pensões. Neste ano, opôs-se ao pacote fiscal de resgate do Rio de Janeiro, que previa a venda de estatais fluminenses e a redução de benefícios de servidores. Mas, numa flagrante contradição, causou revolta nos próprios eleitores ao votar a favor da proposta que estabelece um teto de gastos para o governo em 2016, apesar de ter discursado contra a medida.

EQUIPE ECONÔMICA
Bolsonaro diz receber conselhos de um economista do setor financeiro cuja identidade não revela. Afirma ainda não ter pensado em um nome para assumir a Fazenda, caso ganhe. Costuma dizer que os generais não eram economistas e fizeram o Brasil crescer como nunca nos anos 1970. “Sou ignorante em economia, mas foram os especialistas que levaram o país para o buraco”, declara, deixando de lado o fato de que foram os especialistas que venceram o ciclo de hiperinflação.

CHINA
Ele faz críticas à China, país ao qual o Brasil “está entregando o seu solo e subsolo”, segundo diz. Tem obsessão pela ideia de que o Brasil possui riquezas geológicas pouco exploradas, como o nióbio e o grafeno, que, um dia, serão tomadas pelos chineses. “O chinês não tem coração. Não manda seus homens para o Afeganistão nem para lutar no Iraque. Manda homens de negócios para comprar tudo. A China está garantindo sua segurança alimentar com as nossas terras, e vamos nos tornar inquilinos dela”, diz.
JAIR BOLSONARO - em destaque na foto - liderando manifestação por melhores
salários para as Forças Armadas, em Brasília, em 1984
(Lula Marques/Folhapress)

O mesmo isolamento se verifica no ambiente em que Bolsonaro passou a juventude e parte da idade adulta, as Forças Armadas. Ali, o capitão da reserva faz sucesso entre as baixas patentes, mas é visto com desconfiança pelo comando, que não apoia sua candidatura presidencial, tampouco enxerga com bons olhos o empenho do capitão da reserva em personificar a imagem da corporação. Há dois meses, na cerimônia de entrega do espadim de Duque de Caxias, na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), Bolsonaro ganhou tratamento de celebridade por parte dos 450 cadetes e seus familiares, mas teve recepção fria entre quem tinha mais estrelas no peito. Generais fingiam ignorar sua presença. O ministro da Defesa, Raul Jungmann, sentou-se o mais distante possível dele. Com esse clima de indiferença, na mesa que Bolsonaro dividiu com a terceira mulher, Michelle, alguém comentou: “As Forças Armadas estão cheias de comunistas. Só por isso os militares permitiram que o PT ficasse tanto tempo no poder”.

Na corporação — na qual Bolsonaro é chamado de “bunda-suja”, termo usado pelos militares de alta patente para designar os que não galgaram posições na carreira —, o presidenciável deixou um passado de insubordinação que a alta hierarquia não esquece. Em 1986, Bolsonaro escreveu um artigo em VEJA reclamando dos salários e benefícios dos militares. No ano seguinte, uma reportagem, também de VEJA, revelou que ele urdira um plano para explodir bombas em locais públicos e chamar a atenção do Exército para seu pleito de aumento do soldo militar (fato que ele nega até hoje). Um processo foi aberto para investigar o caso e Bolsonaro foi absolvido pelo Superior Tribunal Militar, numa decisão que ainda é contestada. Mas as marcas do episódio ficaram nos arquivos do Exército, onde Bolsonaro é tido como um militar dado a “proselitismos políticos”.
No Congresso Nacional durante a votação do impeachment, em que homenageou
o coronel Brilhante Ustra, conhecido torturador na ditadura militar, em abril de 2016

(Cristiano Mariz/VEJA)

A ilha política em que se transformou, no mundo civil ou militar, convive bem com suas posições extremadas. Em nome delas, Bolsonaro já foi classificado de quase tudo: homofóbico, racista, xenófobo, misógino, fascista. Ele atribuiu tudo a acusações distorcidas ou a pura armação promovida por inimigos da esquerda — ou, para usar sua definição predileta, “os imbecis”. Sua artilharia verbal insultuosa, que mira quase sempre as minorias, tem lhe rendido dissabores na medida em que sua popularidade cresce. Na semana passada, ele foi condenado por mais uma ofensa — nesse caso, contra os quilombolas. Em abril, em palestra no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, rememorou uma visita a um quilombo e disse que “afrodescendente mais leve lá pesava 7 arrobas”. E acrescentou: “Não fazem nada. Eu acho que nem para procriadores eles servem mais”. A juíza Frana Elizabeth Mendes, da 26ª Vara Federal do Rio, que o condenou a pagar indenização de 50000 reais, deu-lhe um pito público: “Política não é piada, não é brincadeira”. E acrescentou que um parlamentar tem “o dever de assumir uma postura mais respeitosa com relação aos cidadãos”. [Parece que as pessoas que apoiam Bolsonaro se esquecem disso também!]

As intervenções provocadoras, destinadas mais a ofender opositores do que a clarear ideias, são uma marca de Bolsonaro. Na votação do impeachment de Dilma Rousseff, ele fez questão de dedicar seu voto a Carlos Alberto Brilhante Ustra, o famoso “doutor Tibiriçá” dos porões da tortura do regime militar. Embora Ustra esteja entre seus mentores intelectuais, Bolsonaro, ao mencioná-lo, queria apenas ofender os adversários políticos, sobretudo a própria presidente Dilma, que sofreu o suplício da tortura durante a ditadura. Dilma construiu todos os motivos para ser apeada do Palácio do Planalto, mas ter sido torturada não é um deles.
JAIR BOLSONARO com a terceira esposa, Michelle, em agosto de 2017
(Antonio Milena/VEJA)

O discurso agressivo de Bolsonaro encaixa-se no clima politicamente polarizado do Brasil atual e faz sucesso entre uma camada de eleitores, mas talvez só ajude a radicalizar ainda mais o ambiente político. Diz Maurício Santoro, cientista político da Universidade do Estado do Rio de Janeiro: “Assim como ocorre com Trump e Marine Le Pen, muitas das declarações de Bolsonaro extrapolam a legalidade e são explicitamente racistas, discriminatórias ou de incitação ao crime. Só em 2017 ele já foi condenado duas vezes por incentivar o estupro e por agressões verbais contra negros. Agora, o que aconteceria se ele estivesse numa posição forte no Poder Executivo, como a Presidência da República? Ele provavelmente não hesitaria em promover discursos de ódio contra adversários ideológicos, o que pode ter consequências nefastas num país que já é muito violento”. A hostilidade ao diálogo não é novidade para Bolsonaro. Ele tem por hábito fugir de situações que não domina para evitar ser confrontado. Só viaja a locais onde é convidado por grupos de seguidores que defendem suas ideias. Os convites costumam partir de deputados estaduais e federais e de empresários locais.

OS MENTORES INTELECTUAIS

Entre os ídolos declarados de Bolsonaro estão expoentes da ditadura e ativistas de extrema direita que acreditam que o Brasil está prestes a ser tomado por comunistas

O GENERAL:
Ex-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) e ex-comandante militar do Planalto, o general Newton Cruz foi réu na ação penal do atentado do Riocentro. Para Bolsonaro, o militar é uma “inspiração” (Luiz Antonio/Agência o Globo)
General Newton Cruz

O TORTURADOR:
O coronel Carlos Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi, foi responsabilizado por torturas cometidas durante a ditadura. Bolsonaro o considera “herói” (Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)
Coronel Carlos Brilhante Ustra

O PATRIOTA:
Morto em 2007, Enéas Carneiro especializou-se em discursos de teor nacionalista. Bolsonaro quer o ex-deputado no Livro dos Heróis da Pátria (Rosane Marinho/Folhapress)
Enéas Carneiro

O PROFESSOR:
Radicado nos Estados Unidos, o filósofo Olavo de Carvalho é o guru dos ultraconservadores e diz que não houve ditadura no Brasil. É consultor informal de Bolsonaro para assuntos externos (//Reprodução)
Professor Olavo de Carvalho


Entretanto, há um ambiente — o digital — em que Bolsonaro reina soberano. Tem 5,5 milhões de seguidores nas redes sociais, muito mais do que o ex-presidente Lula, por exemplo, que tem 3,2 milhões. Na companhia permanente de um celular, ele mesmo fica praticamente todo o tempo on-line. Quem comanda seu núcleo virtual é o filho Flávio, o Zero Um. Ele criou um repertório de vídeos, memes e gritos de guerra de fácil assimilação e viés radical (com pequenas variações, são as seguintes as frases preferidas dos seguidores do deputado: “Bandido bom é bandido morto”, “Comunista tem que morrer, gay e feminazis também”, “Não gostou? Vai pra Cuba”). Recentemente, fez sucesso nas redes o tuíte em que o “Mito”, como o deputado é chamado por apoiadores, elogia o vídeo do general Hamilton Mourão, que defendeu uma intervenção militar no Brasil. “Ele (refere-se a Mourão) falou como um brasileiro qualquer que está indignado com esse estado de putrefação da política brasileira”, disse. Urros e vivas espoucaram no Facebook.
O general Mourão, que defendeu uma intervenção militar, é apenas
“um brasileiro indignado com esse estado de putrefação da política brasileira”,
escreveu o deputado
(FS 2015/Divulgação)

Atento à importância das redes sociais, Bolsonaro é zeloso com sua imagem digital. Na Câmara, ele percorre a passos largos e rápidos a distância de 400 metros que separa o Salão Verde de seu gabinete, no Anexo III (a “favela da Câmara”, diz ele). O gabinete de seu filho Eduardo, onde costuma receber visitas, é decorado com distintivos da Polícia Federal e da NRA, a poderosa associação que faz o lobby pró-armas nos Estados Unidos. No percurso, um entusiasta o parou para pedir que gravasse em vídeo palavras de apoio a uma campanha de sua cidade pela renovação das armas da Polícia Civil. Outro quis uma selfie para mostrar à mulher, “fã” do deputado, segundo disse. Minutos depois, jovens da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) abordaram o parlamentar. Queriam seu apoio para “desmistificar a ideia de que a universidade é bolivariana”. Esses, o deputado nem parou para ouvir. “Imagine se assino alguma coisa desse lugar. Depois sou esculhambado.”

Nascido em Glicério, no interior de São Paulo, Bolsonaro criou-se em Eldorado, no Vale do Ribeira, um lugarejo de 20000 habitantes. Ali, o grosso dos moradores atribui o atraso da cidade à demarcação de reservas ambientais, que impediriam a exploração agrícola. De família modesta (seu pai fabricava próteses dentárias, a mãe é dona de casa), ele frequentava a escola pública, era goleiro do time de futebol local e aturava a gozação dos colegas por causa do jeito desengonçado com que apanhava a bola. Seus passatempos eram caçar passarinhos com espingarda de chumbo, pescar no Rio Ribeira, ouvir no rádio o programa de Tonico e Tinoco, assistir aos filmes de Mazzaropi e — desde cedo, garante quem conviveu com ele — falar mal de comunistas. Segundo o professor Olavo Amado Ribeiro, hoje com 85 anos, de quem Bolsonaro foi aluno de português e educação moral e cívica, ele já era na adolescência um dos mais ácidos críticos de João Goulart, presidente derrubado no golpe de 1964. Mas o jovem Bolsonaro não era uma voz dissonante na cidade. “Eldorado não tinha esquerdistas”, diz o professor.

O episódio que mais moldou a forma de Bolsonaro, porém, deu-se com a chegada à região da trupe de Carlos Lamarca, o líder da VPR, organização guerrilheira de extrema esquerda. Em 8 de maio de 1970, um enfrentamento com soldados locais terminou com troca de tiros na praça de Eldorado. Bolsonaro, então com 15 anos, estava na escola no momento dos ataques. Ele lembra que os professores, amedrontados pelos tiros, esvaziaram as salas de aula e mandaram as crianças atravessar a praça rastejando para se proteger das balas. Seis soldados e uma moradora foram feridos, mas ninguém morreu. O episódio marcou para sempre a cidade e fez com que o Exército direcionasse tropas para o Vale do Ribeira. Os soldados que se confrontaram com Lamarca e a VPR, vistos como heróis, passaram a receber visitas constantes do jovem Bolsonaro, a quem estimularam a entrar na carreira militar.

Na década de 70, coube ao seu pai, Percy Bolsonaro, trazer a política para dentro da família. Ele foi candidato a prefeito em Eldorado pelo MDB, que fazia oposição ao regime militar, mas não se elegeu. Gostava de “uma cervejinha” e não era “muito rígido” com os filhos. Algumas de suas características contrastavam com as de Bolsonaro desde cedo. “O Jair sempre foi mais radical e conservador que o pai”, diz o professor Ribeiro. Tanto que, em algumas oca­siões, seu Percy julgava que o filho se excedia no “anticomunismo”. Soltava um “o Jair é doido, é um exagerado”. A família, contudo, sempre se entusiasmou com a entrada do filho nas Forças Armadas. A prova disso é que, quando Bolsonaro decidiu abandonar o Exército para se dedicar à política, o pai foi até o Rio de Janeiro para demovê-lo da ideia. Fracassou. Agora, o filho está em segundo lugar nas pesquisas — e passou a levar a sério suas chances de chegar lá.
JAIR BOLSONARO
Em seu casamento com a primeira mulher, Rogéria, em 1978
(//Reprodução)

Tanto que, neste 7 de outubro, Bolsonaro embarca para sua primeira visita como político aos Estados Unidos. Seu cicerone será o filósofo ultraconservador Olavo de Carvalho, que mora lá e convidou o candidato para um road show no país. “Vamos conversar com investidores, membros do Partido Republicano e do governo de Donald Trump”, revela o deputado. Será a segunda viagem de Bolsonaro aos Estados Unidos. A primeira foi nos anos 2000, quando levou os filhos a Orlando. O político afirma que não gosta muito de viajar. Prefere passar o tempo livre no condomínio em que mora — com 100 casas de frente para o mar, na Barra da Tijuca. Ultimamente, anda cismado com segurança. Conta que, outro dia, viu um assalto em que o ladrão disparou um tiro para cima. Pensou que o episódio poderia ser “um alerta” para ele. Bolsonaro suspeita da existência de um “sistema” interessado em eliminá-lo “pelo fato de ser um outsider”. “O patinho horroroso está ficando bonito. Por isso querem me tirar. Mas vão ter de tirar na mão grande”, desafia, supondo que, mesmo que saia vitorioso, não estará imune a investidas para apeá-lo do cargo. “O sistema não me quer ali. Não quer que eu escolha ministros do Supremo”, diz.

Como todo populista, Bolsonaro tem uma solução simples para cada problema complexo. Contra a violência, propõe “dar armas ao cidadão de bem”. Ele também quer o fim do regime de progressão de pena e, para abrigar o número crescente de condenados, sugere “construir presídios agrícolas, para o preso produzir alguma coisa e trabalhar, e não ser um fardo para o Estado”. Em suas entrevistas, ele aceita discorrer apenas sobre temas que “domina”, como a exploração de metais por estrangeiros. Vencer o desemprego e fomentar o crescimento econômico, para Bolsonaro, é uma equação que se resolve com “segurança pública”. “Que empresário estrangeiro vai investir no Brasil se não podemos nem andar na rua?”, questiona. Contudo, se o empresário for chinês, ele não quer. “Os chineses estão se apropriando de nosso subsolo e, em breve, de nosso solo”, reclama. “Vamos virar inquilinos da China”, profetiza. Para o deputado, a exploração chinesa do nióbio (metal usado como liga na produção de aços especiais), em Goiás, é “um crime de lesa­pátria”. Numa mistura de nacionalismo e nostalgia, ele apregoa que as riquezas minerais deveriam ser liberadas para extração pelos brasileiros. “O que seria do Brasil sem os bandeirantes que exploraram os diamantes? Teríamos um terço do território atual se não fossem eles. É preciso parar de tratar o garimpeiro como bandido no Brasil.”

Entre os especialistas ouvidos por VEJA, nenhum se arrisca a apostar que o deputado saia vitorioso de um pleito presidencial. Mas o fato de um grande grupo de brasileiros se engajar na campanha precoce de um candidato como ele causa preocupação. “Bolsonaro é contra todo o ideário que edifica uma democracia sólida, o que inclui a defesa dos direitos humanos e o combate à desigualdade”, diz Ricardo Sennes, da consultoria política Prospectiva. “Ele opta sistematicamente por partidos cada vez menores e cria um cenário que remete ao do ex-presidente Fernando Collor quando se filiou ao PRN. Essa falta de coalizão resultaria numa dificuldade de governar tamanha que um impeachment poderia se tornar inevitável.” Caminhando sozinho, um candidato pode até vencer a eleição, mas governar sozinho ninguém governa.

Fonte: Revista VEJA – Edição 2551 – Ano 50 – Número 41 – 11 de outubro de 2017 – Páginas 42-49 – Internet: clique aqui.

sábado, 14 de outubro de 2017

28º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 22,1-14

Naquele tempo:
1 Jesus voltou a falar em parábolas aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo,
2 dizendo: «O Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho.
3 E mandou os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir.
4 O rei mandou outros empregados, dizendo: “Dizei aos convidados: já preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Vinde para a festa!”.
5 Mas os convidados não deram a menor atenção: um foi para o seu campo, outro para os seus negócios,
6 outros agarraram os empregados, bateram neles e os mataram.
7 O rei ficou indignado e mandou suas tropas para matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles.
8 Em seguida, o rei disse aos empregados: “A festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela.
9 Portanto, ide até às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes.”
10 Então os empregados saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados.
11 Quando o rei entrou para ver os convidados, observou ali um homem que não estava usando traje de festa
12 e perguntou-lhe: “Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?”. Mas o homem nada respondeu.
13 Então o rei disse aos que serviam: “Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Ali haverá choro e ranger de dentes”.
14 Por que muitos são chamados, e poucos são escolhidos.»

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

O CONVITE DE DEUS

Ao que parece, a parábola do banquete foi muito popular entre as primeiras gerações cristãs, e foi aproveitada em Lucas, Mateus e, inclusive, no evangelho apócrifo de Tomé. As versões são tão diferentes e as aplicações que se extraem tão diversas que somente podemos nos aproximar dos elementos essenciais do relato original.

Deus está preparando uma festa final para todos os seus filhos, pois quer ver todos sentados junto a ele ao redor da mesma mesa, desfrutando para sempre de uma vida plena. Esta foi certamente uma das imagens mais amadas por Jesus para «sugerir» o final último da existência. Não se contentava somente em dizer isso com palavras. Ele sentava-se à mesa com todos, e comia até com pecadores e indesejáveis, pois queria que todos pudessem ver concretamente algo daquilo que Deus desejava realizar.

Por isso, Jesus entendeu sua vida como um grande CONVITE em nome de Deus. Não impunha nada, não pressionava ninguém. Anunciava a boa notícia de Deus, despertava a confiança no Pai, deixava os medos, acendia o desejo de Deus. A todos devia chegar o seu convite, sobretudo, aos mais necessitados de esperança.

Jesus era realista. Sabia que o convite poderia ser rejeitado. Na versão de Mateus, descrevem-se diversas possibilidades. Uns recusam o convite de modo consciente: «não quiseram vir». Outros respondem com indiferença: «não deram a menor atenção». Importavam-se mais com suas terras e negócios. Houve aqueles que reagiram de maneira hostil contra os empregados do rei.

Muitos são os homens e mulheres que não mais escutam o chamado de Deus. Basta-lhes responder de si mesmos para si mesmos. Sem ser, talvez, muito conscientes disso, vivem uma existência «solitária», fechados em um monólogo perpétuo consigo mesmos. O risco é sempre o mesmo: viver cada dia mais surdos a todo chamado que possa transformar radicalmente sua vida.

Talvez, uma das tarefas mais importantes da Igreja seja hoje criar espaços e facilitar experiências onde as pessoas possam escutar de modo simples, transparente e alegre o convite de Deus à Vida.

ONDE BUSCAR A FELICIDADE

Onde os homens de hoje buscam a felicidade?
A que portas batem buscando salvação?

Para a grande maioria a felicidade está em ter mais, comprar mais, possuir mais coisas e mais segurança. «Acumular, acumular: nisto consiste a lei e os profetas» (disse Karl Marx, filósofo alemão).

Outros buscam o prazer imediato e individualista: sexo, droga, diversão, jantares de final de semana. Há de se fugir dos problemas; refugiar-se no prazer do presente.

Há quem se entregue ao cuidado do corpo. É importante, para essas pessoas, manter-se em forma; ser jovem; não envelhecer nunca.

São muitas as ofertas de salvação em nossa sociedade. Porém, são ofertas parciais, redutoras, que não proporcionam tudo o que o homem está buscando. O homem segue insatisfeito. E o convite de Deus continua ressoando. Seu convite temos de perceber não à margem, mas em meio as insatisfações, alegrias, lutas e incertezas de nossa vida.
[...]
Os homens continuarão sendo uns eternos buscadores de orientação, felicidade, plenitude, verdade, amor. Os homens continuarão buscando, de alguma maneira, o Absoluto. Por isso, em meio a nossa vida, às vezes tão louca e superficial, em meio a nossa busca vã de felicidade total, estejamos alertas e vejamos se não estamos deixando de ouvir um convite que, talvez, outros homens e mulheres simples e pobres estão escutando com alegria «nas encruzilhadas dos caminhos» deste mundo nosso tão paradoxal.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo A (Homilías) – Internet: clique aqui.

domingo, 8 de outubro de 2017

27º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 21,33-43


Naquele tempo, Jesus disse aos sumos sacerdotes
e aos anciãos do povo:
33 Escutai esta outra parábola: «Certo proprietário plantou uma vinha, pôs uma cerca em volta, fez nela um lagar para esmagar as uvas e construiu uma torre de guarda. Depois arrendou-a a vinhateiros, e viajou para o estrangeiro.
34 Quando chegou o tempo da colheita, o proprietário mandou seus empregados aos vinhateiros
para receber seus frutos.
35 Os vinhateiros, porém, agarraram os empregados, espancaram a um, mataram a outro, e ao terceiro apedrejaram.
36 O proprietário mandou de novo outros empregados, em maior número do que os primeiros. Mas eles os trataram da mesma forma.
37 Finalmente, o proprietário, enviou-lhes o seu filho, pensando: “Ao meu filho eles vão respeitar”.
38 Os vinhateiros, porém, ao verem o filho, disseram entre si: “Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança!”.
39 Então agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o mataram.
40 Pois bem, quando o dono da vinha voltar, o que fará com esses vinhateiros?»
41 Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: «Com certeza mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo.»
42 Então Jesus lhes disse: «Vós nunca lestes nas Escrituras: “a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos”?
43 Por isso eu vos digo: o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos.»

JOSÉ ANTONIO PAGOLA
Biblista espanhol católico

ESTAMOS DECEPCIONANDO A DEUS?

Jesus encontra-se no recinto do Templo de Jerusalém, rodeado por um grupo de altos dirigentes religiosos. Nunca os teve tão próximos de si. Por isso, com incrível audácia, pronunciará uma parábola dirigida diretamente a eles. Sem dúvida, a mais dura que saiu de seu lábios.

Quando Jesus começa a falar-lhes de um senhor que plantou uma vinha e cuidou dela com solicitude e carinho especial, cria-se um clima de expectativa. A «vinha» é o povo de Israel. Todos conhecem o canto do profeta Isaías que fala do amor de Deus por seu povo com essa bela imagem. Eles são os responsáveis dessa «vinha» tão querida por Deus.

O que ninguém esperava é a grave acusação que lhes lançará Jesus: Deus está decepcionado. Os séculos foram se passando e Ele não logrou recolher desse povo amado os frutos de JUSTIÇA, de SOLIDARIEDADE e de PAZ que esperava.

Vez ou outra enviou seus servidores, os profetas, porém os responsáveis da vinha os maltrataram sem piedade até dar-lhes a morte. O que mais Deus pode fazer pela sua vinha? Segundo o relato, o senhor da vinha manda-lhes seu próprio filho pensando: «A meu filho respeitarão». Porém, os vinhateiros o mataram para ficarem com sua herança.

A parábola é transparente. Os dirigentes do Templo se veem obrigados a reconhecer que o Senhor há de confiar sua vinha a outros vinhateiros mais fiéis. Jesus lhes aplica rapidamente a parábola: «o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos».

Esmagados por uma crise para a qual não é possível responder com pequenas reformas, distraídos por discussões que nos impedem de ver o essencial, sem coragem para escutar o apelo de Deus por uma CONVERSÃO RADICAL ao Evangelho, a parábola nos obriga a fazer-nos sérias perguntas:

* Somos esse povo novo que Jesus deseja, dedicado a produzir os frutos do Reino ou estamos decepcionando a Deus?
* Vivemos trabalhando por um mundo mais humano?
* Como estamos respondendo, a partir do projeto de Deus, às vítimas da crise econômica e aos que morrem de fome e desnutrição em tantos lugares do mundo, como a África?
* Respeitamos o Filho que Deus nos enviou ou o jogamos, de muitas maneiras, para «fora da vinha»?
* Estamos acolhendo a missão que Jesus nos confiou de humanizar a vida ou vivemos distraídos por outros interesses religiosos mais secundários?
* Que fazemos com os homens e mulheres que Deus nos envia, também hoje, para recordar-nos seu amor e sua justiça?
* Não há mais entre nós profetas de Deus nem testemunhas de Jesus?
* Não os reconhecemos mais?

Às vezes, pensamos que esta parábola tão ameaçadora vale para antes de Cristo, para o povo do Antigo Testamento, porém não para nós que somos o povo da Nova Aliança e temos, ainda, a garantia de que Cristo estará sempre com nós.

Pensar assim é um erro. A parábola está falando também de nós. Deus não tem porque abençoar um cristianismo estéril do qual não recebe os frutos que espera. Não tem porque identificar-se com nossas incoerências, desvios e pouca fidelidade. Também agora, Deus deseja que os trabalhadores indignos de sua vinha sejam substituídos por um povo que produza frutos dignos do Reino de Deus.

Cabe aqui uma reflexão de Luis Espinal, sacerdote jesuíta, assassinado em 1980 na Bolívia. Ele diz assim:

«Passam os anos e, ao olhar para trás, vemos que nossa vida foi estéril.
Não passamos por ela fazendo o bem.
Não melhoramos o mundo que nos deixaram.
Não vamos deixar rastros.
Fomos prudentes e cuidamos de nós.
Porém, para quê?
Nosso único ideal não pode ser atingir a velhice.
Estamos sufocando a vida por egoísmo, por covardia.
Seria terrível desperdiçar esse tesouro de amor que Deus nos deu».

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte:  Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo A – Internet: clique aqui.