«Daqui a alguns anos estarás mais arrependido pelas coisas que não fizeste do que pelas que fizeste. Solta as amarras! Afasta-se do porto seguro! Agarra o vento em suas velas! Explora! Sonha! Descubra!»

(Mark Twain [1835-1910] – escritor e humorista norte-americano)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

domingo, 3 de dezembro de 2017

1º Domingo do Advento – Ano B – Homilia

Evangelho: Marcos 13,33-37

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
33 «Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento.
34 É como um homem que, ao partir para o estrangeiro, deixou sua casa sob a responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um sua tarefa. E mandou o porteiro ficar vigiando.
35 Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem: à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer.
36 Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo.
37 O que vos digo, digo a todos: Vigiai!'

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

DESEJO DE ALGO NOVO

Há um grito que se repete na mensagem evangélica e se condensa em uma só palavra: «Vigiai!». É uma chamada a viver de maneira lúcida, sem deixar-nos arrastar pela insensatez que parece invadir quase tudo. Um convite a manter desperta a nossa resistência e rebeldia, a não agir como todo mundo, a sermos diferentes, a não nos identificarmos com a mediocridade. Isso é possível?

A primeira coisa, talvez, seja aprender a olhar a realidade com olhos novos. As coisas não são somente como aparecem nos meios de comunicação da sociedade. No coração das pessoas há mais bondade e ternura que aquilo que captamos à primeira vista. Temos de educar o nosso olhar, torná-lo mais positivo e benévolo. Tudo muda quando olhamos as pessoas com mais simpatia, tratando de compreender suas limitações e suas capacidades.

É importante, além disso, não deixar que se apague em nós o gosto pela vida e o desejo daquilo que é bom. Aprender a viver com coração e amar as pessoas buscando o seu bem. Não ceder à indiferença. Viver com paixão a pequena aventura de cada dia. Não nos desinteressarmos pelos problemas das pessoas: sofrer com os que sofrem e alegrar-nos com aqueles que se alegram.

Por outro lado, pode ser decisivo dar sua verdadeira importância a esses pequenos gestos que, aparentemente, não servem para nada, porém sustentam a vida das pessoas. Eu não posso mudar o mundo, porém posso fazer que junto de mim a vida seja mais amável e leve, que as pessoas «respirem» e se sintam menos sozinhas e mais acompanhadas.

É tão difícil, então, abrir-se ao mistério último da vida que as pessoas de fé chamam «Deus»? Não estou pensando em uma adesão de caráter doutrinal a um conjunto de verdades religiosas, mas nessa busca serena da verdade última e nesse desejo confiante de amor pleno que, de alguma maneira, apontam para Deus. À medida que os anos passam, tenho a impressão de que as pessoas se tornam mais profundamente crentes e, ao mesmo tempo, têm cada vez menos «crenças».

DEUS INTERESSA?

Não é fácil celebrar nos dias de hoje o Advento. Como desejar, pedir ou esperar a vinda de Deus em meio a uma sociedade onde, ao que parece, Deus já não mais interessa? Mais que falar de um Deus que vem (adveniens), não deveríamos refletir sobre um Deus que se distancia, se oculta e se faz cada vez mais estranho?

Em muitos ambientes, Deus foi se reduzindo a uma recordação do passado. Já não se fala mais dele nos lares. Em muitas consciências, Deus não é senão uma sombra pouco agradável. Inclusive, não poucos daqueles que se dizem crentes, apenas o invocam. A atitude mais generalizada é uma indiferença cada vez mais fria e que constitui, segundo o teólogo e pensador Joseph Moingt [padre jesuíta francês, 102 anos], «a experiência cultural mais cruel da morte de Deus».

Ao que parece, Deus hoje não atrai nem preocupa. Não suscita inquietação nem alegria. Simplesmente, deixa indiferentes as pessoas. A vida humana pode transcorrer tranquilamente, sem que ninguém sinta falta dele! Porém, é verdade que o homem não necessita de Deus?

Desde o século dezoito, foi-se difundindo a ideia de que a ciência e a técnica iriam livrar o homem de tudo aquilo que a religião não o tinha conseguido libertar: a fome, as guerras, a pobreza ou a tirania. A fé em Deus parecia condenada a desaparecer como algo próprio de uma fase de ignorância e obscurantismo da história da humanidade.

Hoje, quando já ultrapassamos o ano dois mil, um fato parece inquestionável: os grandes problemas, longe de desaparecer, cresceram ameaçadoramente. A culpa não é da ciência nem da técnica, que tornaram possíveis êxitos admiráveis. O que está mal é o homem que utiliza esse poder científico e tecnológico. E o certo é que nem a ciência nem a técnica tornam o homem nem mais sábio nem melhor.

Chegou o momento de fazer-se uma pergunta simples, mas radical: O que pode tornar mais humanos os homens e as mulheres de hoje? O que pode dar sentido, orientação ética e esperança a seus esforços?

Certamente, Deus não é necessário para fundamentar a ciência nem para desenvolver a técnica. Deus não é a resposta a nossas perguntas científicas nem a solução mágica para nossos problemas.

Porém, Deus, crido e acolhido como Criador e Pai, pode ser o melhor estímulo para viver com sentido, o melhor impulso para atuar de maneira responsável, o horizonte mais válido para viver com esperança.

Porém, não podemos ser ingênuos. Vinte séculos de cristianismo põem diante de nossos olhos um fato que não podemos esconder. Tampouco, a religião faz automaticamente os cristãos mais humanos que as demais pessoas. Somente um Deus acolhido de forma responsável no fundo do coração pode transformar o ser humano. Por isso, os cristãos celebram o Advento.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo B (Homilías) – Internet: clique aqui.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Quem ensina o racismo às crianças?

Nós mesmos, ué

RITA LISAUSKAS*

Com a gente, claro, óbvio, com as mesmas pessoas que
as ensinam a comer e a andar
Vídeo com teste aplicado no México sobre racismo entre crianças
Tradução: "Bem, eu sou um pouco como este"

No mês das mães deste ano, eu participei de um evento sobre maternidade e havia, no palco, várias mulheres brancas, formadoras de opinião (sabe-se Deus o que isso significa), falando sobre os desafios da maternidade moderna ou coisa que o valha. Eu, na plateia, estava sentada a duas ou três cadeiras de uma mãe que era negra. Lá pelas tantas, quando abriram o debate para perguntas, essa mulher contou que sua filha de pouco mais de 4 anos tinha acabado de ser matriculada na escola e estava sofrendo o pão que o diabo amassou. Nos primeiros anos em casa, ao lado da família, sempre ouviu o quanto era especial, o quanto seus cabelos crespos eram lindos mas, na escola, ouvia o oposto de crianças da mesma idade. Os coleguinhas de classe diziam que ela era feia. Que seu cabelo era horrível. O que adianta proteger e fortalecer a autoestima da minha filha se o mundo lá fora é assim, tão cruel com as meninas negras?, perguntou às ‘formadoras de opinião’, surpresas por terem sido retiradas a fórceps daquele mundo lavanda da maternidade perfeitinha, onde estavam prontas para falar sobre tudo que não incluísse esse assunto tão urgente.

A primeira pegou o microfone e disse àquela mãe coisas no estilo o-que-não-mata-fortalece, sua-filha-vai-ser-uma-guerreira-como-você  enquanto as duas outras, em seu socorro, soltavam algumas frases soltas no mesmo estilo ‘não-importa-o-que-os-outros-pensam-o-que-importa-o-que-você-carrega-no-coração’, para a incredulidade da mãe e vergonha alheia de muitas, que não sabiam onde enfiar a cara e ficavam procurando o botão eject na cadeira onde estavam sentadas.

Minutos depois, pedi a palavra e, tentando me desculpar, joguei uma pergunta à audiência: Não seríamos nós os responsáveis pelo inferno que vivia essa criança? Nós, os pais e mães das crianças brancas com as quais ela convive? Não teria sido com a gente que elas teriam aprendido a dizer tamanhas aberrações às crianças negras? Ou será que meninos e meninas já saem da maternidade classificando “cabelo bom”, “cabelo ruim”, “nariz bom”, “nariz ruim”? Não precisamos prestar atenção, dobrar o cuidado, perceber que fomos nós que ensinamos às crianças a tratar mal aquela menina na escola?, perguntei.

Silêncio.

Todos logo fizeram aquela cara de ‘não, eu não faço isso’, e a prosa mudou de rumo, né, vamos falar outra coisa.

Corta para semana passada.

Thaís Araújo, a atriz, disse mais ou menos o mesmo que aquela mãe no evento de dia das mães, só que com outras palavras e em um TEDx São Paulo**. Ela comentou que a cor do filho “é aquela que faz com que as pessoas atravessem a rua”. Também não foi compreendida, mas foi logo classificada de “mimizenta” e vitimista pelas redes sociais, sempre elas. Os adultos brancos, aqueles que dizem sempre “não, nada a ver esse papo de racismo”  logo se uniram para desqualificar a fala da Thaís, fazendo memes para ridicularizar sua afirmação.  Alguma reflexão sobre o assunto ou mea-culpa? Não, nenhuma, não somos racistas, ora, ora, somos uma nação miscigenada, blá, blá, blá, whiskas sachê.

Corta para alguns dias atrás.

Uma mulher que se diz socialite (o que é socialite, afinal?) grava um vídeo praticando o crime de racismo. Repete aquelas coisas todas que a menina do início do post ouve todos os dias na escola, mas para outra menina negra: Titi, filha dos atores Bruno Gagliasso e Giovana Ewbank. No vídeo, a tal mulher chama a criança de “macaca”. Disse que a guria é “horrorosa”, porque tem “cabelo de pico de palha”. Termina dizendo que é “sua opinião” e que não tem medo da polícia e nem da Justiça. Não tem que ter medo mesmo, estamos no País da impunidade.

Mas agora me diz uma coisa: onde você acha que as crianças aprendem a ser racistas?

Com a gente, claro, óbvio, com as mesmas pessoas que as ensinam a comer e a andar. Com as mesmas pessoas que, ao se deparar com um negro bem-vestido no elevador, “estranham” e verbalizam esse “estranhamento” (???) na frente dos filhos. Com as mesmas pessoas que atravessam a rua ao ver um negro bem-vestido ou mal-vestido, vai quê, né, tem cara de ladrão! Com os telejornais que sempre tratam o negro como “traficante” e o traficante branco como “adolescente classe média da zona sul”. E com as novelas, que sempre colocam os negros como serviçais.

Sabe de quem é a culpa? Nossa. De mais ninguém. Duvida? Assista a esse experimento sobre racismo feito com crianças mexicanas e comece a pensar sobre as respostas. Dois bonecos, um branco e outro negro, são colocados em frente a crianças de diferente raças. Uma entrevistadora questiona as crianças, uma a uma: “Qual boneco é bonito? E qual é feio?” Elas elegeram os bonecos negros como “feios”, “perigosos” e “não confiáveis”. Quando eram perguntadas o por quê de tal escolha, não conseguiam dizer. Alguém passou esse conceito para as crianças. Adivinham quem? Sim. Nós.
 
Rita Lisauskas tendo seu mais recente livro em mãos: "Mãe Sem Manual"
Clique sobre a imagem para assistir ao vídeo:


* RITA LISAUSKAS é jornalista e escritora. Autora do “Mãe Sem Manual”, Editora Belas Letras, é também colunista da Rádio Eldorado. É mãe do Samuel e madrasta do Raphael e do Lucca.
** O TEDxSãoPaulo tem como objetivo disseminar ideias e compartilhar experiências inspiradoras para gerar discussões profundas e reflexões entre os participantes. O TEDxSãoPaulo tem licença de TED, uma organização sem fins lucrativos, que tem a missão de promover ideias. Hoje, as palestras TED, ou TEDTalks, são referência mundial e vistas por milhões de pessoas no mundo todo.

Fonte: ESTADÃO.COM.BR – blog Rita Lisauskas – Terça-feira, 28 de novembro de 2017 – 08h00 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.

Cidades que excluem

O desmaio do menino de Brasília expôs os
equívocos da política urbana

Nabil Bonduke*

O caso de Gabriel, que desmaiou de fome em uma escola de Brasília, revelou para o grande público, com crueldade, o que já sabíamos: os governos, pressionados pelo setor imobiliário, repetem os equívocos da política urbana
Após desmaiar de fome, o menino Gabriel, de 8 anos, volta com o pai à escola no Cruzeiro, em Brasília. Garoto de 8 anos foi para a escola em Brasília,
distante a 30 km de casa, sem comer. E esmoreceu.

Foto: ANDRE DUSEK/ESTADÃO

Em 1978, a socióloga Lícia do Prado Valladares publicou um clássico sobre o programa de remoção de favelas da zona sul do Rio de Janeiro, nos anos 1960, que deslocou milhares de famílias para conjuntos habitacionais, financiados pelo BNH, localizados a 30 km do local onde moravam.

"Passa-se Uma Casa" mostrou que famílias removidas vendiam as novas casas e retornavam para favelas, onde tinham expedientes de sobrevivência. Carlos Nelson, arquiteto defensor da urbanização de favelas, disse: "A favela não é um problema, é uma solução".
Direito a habitação, aprendeu-se, não podia se limitar a oferecer uma moradia, um teto. Tinha que garantir acesso à cidade, aos serviços públicos e a condições de obter trabalho e renda. Aprendeu-se?

O caso de Gabriel, que desmaiou de fome em uma escola de Brasília, revelou para o grande público, com crueldade, o que já sabíamos: os governos, pressionados pelo setor imobiliário, repetem os equívocos da política urbana.

Removida de uma ocupação situada no Noroeste (Plano Piloto), a família do menino saiu de um barraco de madeira de um cômodo, que só tinha energia elétrica à noite, para um apartamento de 46 m², com dois quartos, subsidiado pelo Minha Casa, Minha Vida.

Maravilha! Para o Paranoá Parque, situado a 21 km da Esplanada dos Ministérios, foram deslocadas 6.000 famílias, muitas provenientes de ocupações retiradas de áreas nobres.

A falta de equipamentos sociais, inexistentes no local e insuficientes em Paranoá, cidade satélite de Brasília, é apenas uma face do problema, que com o tempo poderá ser superada.
A questão estrutural é a segregação territorial, que gera bairros-dormitórios afastados da cidade.

"O governo deu apartamentos do Paranoá, mas tirou nossas oportunidades", afirmou uma moradora.

Muitos estão desempregados devido ao custo do vale-transporte: são necessárias quatro conduções para chegar aonde tem emprego. A família de Gabriel, que trabalhava com reciclagem, ficou sem renda para complementar o Bolsa Família. Novas despesas, como condomínio e taxas, passaram a ser exigidas.

No Noroeste, como na zona sul do Rio, jorram oportunidades. Mas foi destinado a empreendimentos privados de alta renda, em uma urbanização sofisticada. Por isso, os pobres foram removidos.

Podia ser diferente. As terras do Distrito Federal foram estatizadas, nos anos 1950, para implantar a nova capital. Pertencem à Terracap, empresa do GDF. Em vez de deslocar os moradores para longe, o governo poderia ter destinado áreas inseridas na cidade para habitação social.

Mas optou por reproduzir uma lógica de exclusão urbana e de política habitacional que gera dramas como o vivido por Gabriel.

* NABIL BONDUKI é arquiteto e urbanista, é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP). Em São Paulo, foi vereador, relator do Plano Diretor Estratégico e secretário municipal de Cultura. É autor de 12 livros.

Fonte: Folha de S. Paulo – Colunista – Terça-feira, 28 de novembro de 2017 – 02h00 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Igreja contra a reforma da Previdência

Bispo recomenda “levante popular pacífico”
contra reforma da Previdência

Rede Brasil Atual

Política de Pilatos: governo Temer “lava as mãos” na responsabilidade do Estado em proteger os vulneráveis
DOM REGINALDO ANDRIETTA

Para o bispo de Jales (região sudeste de São Paulo, a cerca de 580 quilômetros da capital), Dom Reginaldo Andrietta, a proposta de reforma da Previdência que o governo Temer quer ver votada ainda neste ano "reduz direitos constitucionais e ameaça a vida de milhões de brasileiros, especialmente os mais pobres".

Ele afirma que os argumentos do alegado déficit no sistema das aposentadorias são falsos e enganadores, e defende um levante popular pacífico, com a distribuição de "santinhos" contra parlamentares que votarem a favor da reforma.

"Que tal, então, levantarmo-nos em respeito às pessoas idosas de hoje e de amanhã? (...) David venceu Golias com uma simples funda. A força dos fracos está nas ações simples e contundentes", diz o prelado em artigo publicado na semana passada no site da Diocese de Jales.

Segundo o bispo, a igreja é clara na defesa de um sistema de proteção social assegurado pelo Estado, "que não esteja submetido à lógica mercantil", de modo a garantir a preservação de direitos dos mais pobres.

Sobre o suposto déficit, o religioso ressalta dados apresentados pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Previdência, que apresentou relatório que identificou que as contas das aposentadorias estão no azul. "Essa constatação foi feita pela própria Comissão Parlamentar de Inquérito, constatando que a Previdência Social é, na realidade superavitária. Causa espanto um dos argumentos utilizados pelo presidente da República para essa reforma, que o brasileiro daqui a pouco viverá 140 anos."

Também em esforço para barrar a proposta de reforma da Previdência do governo Temer, as nove centrais sindicais do país decidiram convocar uma greve nacional para o próximo dia 5 de dezembro. Em nota, as centrais afirmam que a proposta "acaba com o direito à aposentadoria dos trabalhadores brasileiros", e mandam recado aos parlamentares: "Não mexam nos direitos!".

Confira o artigo:

Proteção social sem lógica mercantil

O projeto de Reforma da Previdência Social será votado na Câmara dos Deputados tão logo se concluam as negociações do executivo com o legislativo, na forma de “compra de votos” por meio de cargos e emendas parlamentares. Este projeto reduz direitos constitucionais e ameaça a vida de milhões de brasileiros, de modo especial os socialmente vulneráveis.

A Constituição de 1988, ainda em vigor, assegurou um sistema avançado de proteção social, conquistado a duras penas pela classe trabalhadora no bojo das lutas pela redemocratização do Brasil. A classe dominante jamais aceitou esse e outros avanços que, em última instância, apenas asseguram as bases para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática e justa.

O congelamento por 20 anos dos gastos com programas sociais e a recente reforma trabalhista ferem gravemente nossa “Constituição Cidadã”. Agora, a Proposta de Emenda Constitucional 287, que reforma a Previdência Social, se for aprovada, dificultará o acesso à aposentadoria de milhões de trabalhadores, especialmente rurais, reduzirá drasticamente o acesso ao Benefício de Prestação Continuada, que é o benefício assistencial ao idoso e à pessoa com deficiência, e cortará pela metade as pensões de viúvas e viúvos.

Os argumentos utilizados para essa reforma previdenciária são enganadores. O déficit alegado é falso. Essa constatação foi feita pela própria Comissão Parlamentar de Inquérito, constatando que a Previdência Social é, na realidade, superavitária. Causa espanto um dos argumentos utilizados pelo Presidente da República para essa reforma, que o brasileiro daqui a pouco viverá 140 anos.

Nossa Lei Magna está sendo, assim, mutilada. Em consequência, os pobres, já crucificados, estão sendo ainda mais sacrificados com o desmonte descarado do sistema de proteção social. Instaura-se a barbárie. Perde-se a civilidade. O governo de plantão quer que o Estado adote a política de Pilatos. Este “lavou as mãos” na condenação de Jesus. Trata-se da política do “Estado Mínimo” que se exime de sua responsabilidade de proteger, sobretudo, os mais desvalidos.

O grau de respeito à dignidade humana de uma nação deve ser também medido por seu sistema de proteção social. A Doutrina Social da Igreja é clara na definição do papel do Estado de salvaguardar os direitos, sobretudo, dos mais pobres, garantindo, por exemplo, acesso a um sistema de proteção social que não esteja submetido à lógica mercantil. Afinal, proteção social deve ser comprada?

Um sinal muito particular de respeito humano é a proteção às pessoas idosas, a ser garantida, especialmente, por uma aposentadoria justa. Clamam aos céus o desprezo sofrido por elas. O Salmo 79,1 traduz, sabiamente, o clamor do idoso: “Não me rejeites na minha velhice; não me desampares quando forem acabando as minhas forças”. O livro de Levítico 19,32 exorta: “Levante-se diante de uma pessoa de cabelos brancos e honre o ancião!”

Que tal, então, levantarmo-nos em respeito às pessoas idosas de hoje e de amanhã? Que seja um “levante popular”, evidentemente pacífico. Que tal, por exemplo, distribuirmos ostensivamente, “santinhos” com nomes, fotos e partidos políticos dos legisladores que votarem a favor dessa reforma da previdência, denunciando-os em seus “currais eleitorais”? David venceu Golias com uma simples funda. A força dos fracos está nas ações simples e contundentes.

Jales (SP), 23 de novembro de 2017

Dom Reginaldo Andrietta
Bispo Diocesano de Jales


Fonte: Rede Brasil Atual – Cidadania – Segunda-feira, 27 de novembro de 2017 – 10h44 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Como apoiar o Papa Francisco?

Minhas propostas para resolver o confronto que
estamos vivendo na Igreja

José María Castillo
Teólogo espanhol
Religión Digital
25-11-2107

Encontramo-nos diante de um conflito que nos traz à mente a “memória
perigosa” daquele que foi o grande conflito que Jesus viveu:
acolhido pelo sofrimento do povo simples e odiado (também temido)
pela ambição daqueles que possuíam o poder
PAPA FRANCISCO

Constatamos

1. Ninguém nega que o Papa Francisco é uma figura controversa: ele provoca e encontra, ao mesmo tempo, “acolhida” e “rejeição”. Acolhida que vem de amplos setores do “povo pobre e humilde”. E rejeição que vem, em grande medida, dos “representantes do poder”, dos gestores do sistema (econômico-político e dos poderes que sustentam e apoiam o mencionado sistema). Portanto e ao mesmo tempo, o Papa Francisco é visto (aparentemente) como “solução” para os indigentes e “ameaça” para os poderosos.

Se, de fato, o que dissemos apresenta adequadamente o que realmente estamos vivendo, encontramo-nos diante de um conflito (aquele vivido pelo Papa e que se vive na Igreja) que nos traz à mente a “memória perigosa” daquele que foi o grande conflito que Jesus viveu: acolhido pelo sofrimento do povo simples e odiado (também temido) pela ambição daqueles que possuíam o poder. Foi o que aconteceu na vida de Jesus. E é o que estamos vivendo neste momento na Igreja.

2. Os meios de comunicação, que “informam” e, ao informar, inevitavelmente “interpretam” esse personagem, que é o atual Papa, um homem tão discutido, fazem sua “interpretação” do Papa, e não a partir das carências daqueles que o aceitam, mas a partir dos interesses daqueles que o rejeitam. Incluídos, como protagonistas desta rejeição, não poucos clérigos de todos os níveis e numerosos leigos muitas vezes vinculados a grupos integristas e conservadores. E não nos esqueçamos de que o lugar “de onde” se vê a realidade é o fator que mais fortemente determina e condiciona “como se vê a realidade”. Não se vê a vida da mesma maneira olhando de um palácio do centro ou de uma favela da periferia. Acontece, portanto, que muitas vezes não percebemos o que realmente está acontecendo. Em todo caso, parece que se pode afirmar que este duplo fenômeno (aceitação e rejeição do Papa) está acontecendo mais do que certamente suspeitamos.

3. Não esqueçamos que o perigo de desfigurar ou distorcer a imagem do Papa (e sua mensagem) equivale a distorcer ou desfigurar a realidade da Igreja e do Vaticano como centro do governo da Igreja. E também desfigurar a razão de ser do Vaticano como Estado.

4. Mas, sem dúvida, a coisa mais séria e preocupante que o atual papado colocou em evidência é a CONTRADIÇÃO VIVIDA PELA IGREJA. Trata-se da contradição que estão deixando claro aqueles que não se cansam de insistir na comunhão com o Papa e na obediência que lhe devemos, mas, na hora da verdade, comungam com o Papa e lhe obedecem enquanto o Papa pensa, fala e age como eles gostam ou acham melhor. É fato que a maior oposição ao Papa Francisco tem sua origem em setores do clero – a começar por alguns cardeais – que não concordam com a sua maneira de pensar, viver e governar.

5. Quanto ao demais, quando falamos do papado e da gestão dos assuntos mais sérios da Igreja, é importante ter presente que estamos falando de um sistema de governo, para a necessária gestão da Igreja, que não está devidamente atualizado em não poucos aspectos de notável influência. O simples e preocupante fato de que a Igreja – como instituição religiosa e como Estado – não possa subscrever (a estas alturas) o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, bem como o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (ambos assinados nas Nações Unidas em 1966, como parte da implementação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 10-12-1948), é um claro indicador de que a nossa Igreja ainda hoje é uma instituição desatualizada e estagnada em questões de grande atualidade e importância. Transferir e aplicar os direitos de uma instituição religiosa aos direitos de uma instituição política desemboca inevitavelmente em uma situação de ambiguidade, que se traduz em uma fonte de incessantes mal-entendidos e contradições.
Via della Conciliazione tendo ao fundo a Basílica de São Pedro - Vaticano

Pedimos

1. A devida reformulação e atualização dos dicastérios e Congregações da Santa Sé, que foram pensados e organizados para outra Igreja de outros tempos, em que os problemas e as necessidades da Igreja eram situações e realidades muito diferentes das situações e necessidades que a Igreja tem hoje.

2. Em primeiro lugar, deveria ficar muito claro que na Igreja não existe, nem as pessoas deveriam ver nela, nada que seja contra o Evangelho. Devemos dizer com toda clareza e força que a Igreja não tem nem autoridade nem poder para fazer nada que seja contra o Evangelho. E ter presente que este critério teria que ser aplicado primeiramente às coisas e assuntos mais óbvios e visíveis da Igreja.
Os representantes da Igreja não devem, não podem, distinguir-se por seus privilégios, ostentação, dignidades; tudo o que representa uma diferença ou superioridade sobre os últimos e os mais desamparados, teria que ser banido.
Esta deveria ser a coisa mais urgente na Igreja neste momento.

3. Pedimos ao Papa que informe a Igreja sobre as verdades que o Magistério da Igreja propôs – e segue exigindo sua aceitação – como “verdades de fé divina e católica” (Constituição Dogmática Dei Filius, Concílio Vaticano I, cap. III): “Deve-se, pois, crer com fé divina e católica tudo o que está contido na palavra divina escrita ou transmitida pela Tradição, bem como tudo o que a Igreja, quer em declaração solene, quer pelo Magistério ordinário e universal, nos propõe a crer como revelado por Deus” (Denz.-Hün, 3011). Tudo o que não é, com certeza, uma verdade de fé divina e católica, pode ser modificado, interpretado ou aplicado de acordo com as necessidades dos fiéis e da humanidade em geral quando há motivos sérios para isso. Por exemplo, é inexplicável o conflito que vivemos recentemente por causa de uma questão que não pertence à fé divina e católica: a indissolubilidade do matrimônio e a casuística que ela suscitou.

4. A hermenêutica deve ser aplicada (a grande descoberta do século XX) não apenas à Palavra de Deus (a Bíblia), mas também à palavra da Igreja, o Magistério. Para dar um exemplo, é evidente que a afirmação do Credo de Niceia: “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso”, o Pantokrator, um termo que não aparece na Bíblia, uma vez que, como se sabe, o “pantokrator” foi, na Antiguidade tardia, um título imperial que era entendido como “o senhor do mundo”. Semelhante Deus não é o Deus que Jesus nos revelou no Evangelho.

5. Pedimos que a Igreja se organize e estruture para responder mais às necessidades (de fé e vida) dos fiéis, do que para cumprir fielmente as tradições eclesiásticas, muitas das quais já não respondem às necessidades dos crentes de hoje. Por exemplo, é difícil justificar a manutenção da lei do celibato eclesiástico ao preço de deixar milhares de paróquias sem a adequada administração dos sacramentos. Na Igreja existem agora centenas (talvez milhares) de paróquias que não podem ter missa todos os domingos.

6. E também pedimos, como uma questão de capital importância, que haja mais transparência na Igreja. Ou seja, que nem o Vaticano, nem as dioceses, nem a vida dos “homens da religião” tenham algo a esconder. Somente dessa maneira será possível falar com liberdade, de forma clara e sem dupla intenção. No dia em que esse objetivo puder ser alcançado, a Igreja poderá ter a credibilidade que não tem perante amplos setores da população.
PAPA FRANCISCO
Beija os pés de um imigrante africano

Nos comprometemos

1. Não esconder ou marginalizar informações religiosas, por uma questão de menor importância ou de pouco interesse. Nunca deveríamos esquecer que religião e política ainda são inseparáveis. É escandaloso que, neste momento, existam agrupamentos políticos que, obtendo conquistas importantes à custa da religião, escondem suas profundas vinculações com dignitários religiosos e seus interesses. É hora de perguntar se um dos motivos que explicam os êxitos do Islã, não está em que, nessa confissão religiosa, não se ocultam, mas que estão em primeira linha as conexões óbvias que reduzem a uma só coisa dois componentes básicos: o fato religioso e o fato político. Não esqueçamos que, na realidade da vida, o “religioso” e o “político” são duas dimensões da vida do ser humano na sociedade. Duas realidades inseparáveis, por mais que o sujeito não tenha consciência de que as vive e estão presentes em sua intimidade e em seu comportamento, mesmo que não pertença a uma religião ou a um partido político.

2. Não usar as informações religiosas para colocá-las a serviço de interesses nacionalistas ou partidários. Este ponto é particularmente delicado quando se trata de informar sobre a pessoa do Papa Francisco. Um homem próximo dos pobres e comprometido com a dignidade e os direitos dos humildes e marginalizados é, por isso mesmo, um homem exposto a ser identificado (ou em sintonia) com partidos da esquerda política.

3. Se quisermos falar sobre religião e informar sobre ela, será necessário que, na medida do possível, nos proponhamos a ter uma formação religiosa básica que permita compreender e comunicar adequadamente e com a devida competência e precisão o que dizemos e o que pode interessar aos nossos leitores.

4. Evitar, no que depender de nós, o silêncio, a passividade ou a marginalidade dos líderes eclesiásticos nos assuntos mais atuais e importantes da vida pública. É escandaloso que a Igreja, para não se indispor com os poderes de que recebem importantes ajudas ou privilégios, não aborde determinados assuntos que afetam a ética e a vida pública de forma, às vezes, clamorosa. Basta pensar nos escândalos de corrupção ou na gestão econômica que é a principal causa das escandalosas desigualdades que ocorrem no mundo e em não poucos países.

Traduzido do espanhol por André Langer. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 27 de novembro de 2017 – Internet: clique aqui.

Estão mentindo para todos nós!!!

O corno da rua

Mauro Santayana
Jornalista

O país precisa, mais do que nunca, negociar a estruturação de uma frente ampla, nacionalista e antifascista, de Defesa da Soberania e da Democracia, neste momento
MAURO SANTAYANA

Se, como dizia Von Clausewitz, a guerra é a continuação da política por outros meios, na encarniçada guerra em que se transformou a política, nos dias de hoje, a missão do jornalismo deveria ser a de escrever a história enquanto ela ocorre e acontece, se a mídia não estivesse, na maioria das vezes, a serviço de seus próprios interesses e de projetos de poder mendazes, hipócritas e manipuladores.

Só os ingênuos acreditam em imprensa isenta em uma sociedade capitalista - na qual ela defende o interesse de seus donos e anunciantes - e mais ainda em um país como o Brasil, em que praticamente inexistem meios de comunicação públicos, quanto mais democráticos e de qualidade, como em outros lugares do mundo.

A história que desejam que engulamos

A “história oficial” que tenta contar, ou corrobora, enquanto discurso quase único, a mídia brasileira hoje, é a de que vivemos em um país subitamente assaltado, em termos históricos, nos últimos 15 anos, por “quadrilhas” e organizações criminosas, infiltradas em governos populistas e incompetentes que, acossado pela corrupção, tenta, por meio de uma justiça corajosa e impoluta, livrar-se desse flagelo “limpando” a ferro e fogo a Nação, enquanto um governo que, coitado, não é perfeito, mas foi alçado ao poder pelas “circunstâncias”, tenta “modernizar” o Brasil, por meio de reformas tão inadiáveis quanto necessárias, para tirá-lo de uma terrível bancarrota em que o governo anterior o enfiou.

A história verdadeira do Brasil recente

Mas a história real que ficará registrada nos livros do futuro - queira ou não quem está a serviço dessa gigantesca mistificação - falará de um Brasil que, no início do Século XXI, chegou a sair da décima-quarta economia do mundo para o sexto posto nos últimos 15 anos - e que ainda ocupa o nono lugar entre as nações mais importantes do mundo.

De uma nação que mais que triplicou seu PIB de 504 bilhões em 2002, para quase 2 trilhões de dólares no ano passado - que pagou - sem aumentar a sua dívida pública com relação a 2002 - seus débitos com seus principais credores internacionais - entre eles o FMI - e quadruplicou sua renda per capita em dólares, além de economizar mais de 340 bilhões de dólares em reservas internacionais, nesse período, transformando-se no que ainda é, hoje, em 2017, o quarto maior credor individual externo dos EUA.

Um país que cortou, segundo números do IBGE, o número de pobres pela metade, duplicou o número de escolas técnicas federais, construiu quase 2 milhões de casas populares, com qualidade suficiente para atrair até mesmo o interesse de altos funcionários do Estado, como procuradores da República.

Um país que tinha voltado a construir refinarias, navios, grandes usinas hidrelétricas, gigantescas plataformas de petróleo e descoberto, com tecnologia própria, abaixo do fundo do mar, a maior província petrolífera, em termos mundiais, dos últimos 50 anos.

Que expandiu o crédito e o consumo, duplicou sua safra agrícola, projetou-se internacionalmente em seu próprio continente e até o continente africano - como fazem outros países de sua dimensão e importância - e forjou uma aliança geopolítica com potências espaciais e atômicas, como Índia, China e Rússia [África do Sul] - o BRICS - montando um banco que foi criado com a missão de transformar-se no embrião de uma alternativa ao sistema financeiro internacional.

Que estava construindo submersíveis - entre eles o seu primeiro submarino atômico - tanques, navios de patrulha, cargueiros aéreos, caças-bombardeiros, radares, novos mísseis ar-ar, sistemas de mísseis de saturação, uma nova família de rifles de assalto, para suas forças armadas, por meio de forte apoio governamental a grandes empresas de engenharia de capital majoritariamente nacional, integrando esses esforços com outros países, também do próprio continente, para fortalecer a defesa e a soberania regional contra eventuais agressões externas.

Um Brasil que, por estar fazendo isso, sofreu, nos últimos quatro anos, um ataque coordenado, ideológico e canalha, de inimigos internos e externos.

Primeiro, com a revelação do escândalo de espionagem do país e do governo, e empresas que depois seriam, coincidentemente acusadas de corrupção, como a Petrobras, por parte de governos estrangeiros.

Depois, por meio de um golpe iniciado com manifestações financiadas de fora do país, desde a época da Copa do Mundo, e de uma ampla campanha de sabotagem midiática e de operações de contra-informação permanentes, financiadas e coordenadas em muitos casos de fora do país, com o deslocamento para cá de embaixadores que estavam presentes quando do desfecho de golpes semelhantes e recentes em outros países sul-americanos, como o Paraguai, por exemplo.

Um golpe que, iniciado no ano de 2013, foi finalmente desfechado, politicamente, em 2016 - baseado em uma tese juridicamente insustentável - para gáudio do que existe de pior na política brasileira e de nossos concorrentes internacionais. 

O que pretendem aqueles que fabricaram o golpe

Concorrentes que, como vimos, pretendiam e desejam não apenas parar o Brasil no caminho que estava seguindo, de seu fortalecimento econômico, social e geopolítico, mas destruir a economia brasileira, para se apossar, por meio de uma segunda onda de destruição e de desnacionalização de nossas empresas, de nosso mercado interno e de nossos mais importantes ativos públicos e privados a preço de banana, colocando no poder “governos” de ocasião, entreguistas e dóceis às suas determinações e desejos.

Para fazer isso, os inimigos do Brasil agiram - e continuam agindo - na frente política e na econômica, sustentados por paradigmas tão falsos quanto mendazes, que muitas vezes podem se apresentar como aparentemente contraditórios aos olhos de certos observadores.

O principal deles, é o que reza que a corrupção é o maior problema brasileiro, e que trata-se, ela, de um fenômeno recente em nossa história, ou que alcançou supostamente “gigantescas” proporções, somente a partir de chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder em janeiro de 2003.


Na economia, por outro lado, era e é preciso vender o peixe de que o país está quebrado, quando no grupo das 10 principais economias do mundo, em que nos incluímos depois de 2002, pelo menos 7 países - EUA, Japão, Reino Unido, França, Itália, Canadá - têm uma dívida pública maior que a nossa, o governo encontrou 200 bilhões de reais no caixa do BNDES, “adiantados” em “devolução” ao tesouro - no lugar de serem investidos em infraestrutura para a geração de emprego, - e temos mais 380 bilhões de dólares - ou mais de um trilhão de reais - em reservas internacionais, acumulados nos últimos 15 anos - boa parte deles, mais de 260 bilhões, emprestados aos EUA, como se pode ver pela página oficial do tesouro norte-americano: clique aqui.

Ora, como já afirmamos aqui antes, se a situação real da dívida brasileira era e continua sendo essa, com relação às outras nações que conosco dividem - e concorrem - no pelotão das maiores economias do mundo, por qual razão isso nunca foi divulgado de forma clara, ampla, transparente, pelo governo e pela grande mídia, e seus “especialistas” de plantão, desde a saída de Dilma?

Ora, porque isso quebraria a espinha dorsal da “história oficial”, do discurso único e do senso comum que imperam na internet, neste momento, que afirmam e reafirmam, a todo momento:

Que o PT é incompetente e irresponsável e quebrou o Brasil - quando o PIB e a Renda per capita encolheram e a dívida líquida duplicou nos governos de FHC, apesar da venda de quase 100 bilhões de patrimônio público, a preço de banana, quando não com financiamento do BNDES, até mesmo para compradores do exterior.

Que é necessário fazer reformas - injustas, mentirosas, cruéis, inúteis - como a trabalhista e a previdenciária (vamos ver o que nos reserva a tributária) senão o Brasil vai quebrar, inexoravelmente, no futuro próximo.

Que precisamos de um teto para os gastos do governo para os próximos 20 anos, porque o Estado é superdimensionado e perdulário, quando os EUA, por exemplo, apenas na área de defesa, tem mais funcionários públicos que o Brasil; a maioria dos grandes países com que concorremos - ainda que marginalmente - devem, como já vimos, mais do que devemos; quando eles se endividaram para se desenvolver e continuarão a se endividar - e a se armar - livremente, no futuro; enquanto nós estaremos sendo governados por imbecis - ou espertalhões a serviço de terceiros - vide os mais de 200 milhões de reais ganhos pelo Ministro da Fazenda no exterior nos últimos 3 anos - como se fôssemos uma mercearia, preocupados não com geopolítica, mas apenas, supostamente, com receitas e despesas, sendo condenados, pelo menos por uma geração, a subir no ringue para disputar, em um mundo cada vez mais complexo e competitivo, com um olho vendado e um braço e uma perna amarrados nas costas, com nações sem limite real de endividamento, que privilegiam a estratégia nacional no lugar dessa estúpida modalidade de suicídio nacional , ou melhor, de austericídio.

Que, finalmente, diante da supostamente calamitosa situação que o país vive, não há outra saída a não ser privatizar tudo - quando não entregar de mãos beijadas até mesmo a empresas estatais estrangeiras - nossas próprias estatais e seus ativos, na bacia das almas e a toque de caixa, porque elas trabalham mal, dão prejuízo; e servem como cabides de emprego - como se empresas privadas não fossem useiras e vezeiras em tráfico de influência, funcionários que conduziram a privatização da Telebrás não tivessem depois se transformado, durante anos, em presidentes de multinacionais do setor no Brasil, e o genro do rei da Espanha, por exemplo - um ex-jogador de handebol - não tivesse ganho milhares de euros por reunião, em escândalo conhecido, “pendurado” como membro do conselho de empresas “privatizadas” para capitais espanhóis por estas bandas.

Como seria possível para o governo Temer, entregar o PRÉ-SAL por menos de 20 bilhões de reais, o controle da ELETROBRAS, a empresa líder de nossos sistema elétrico, por 13 bilhões de reais, e até a CASA DA MOEDA - país que repassa a terceiros o direito de imprimir o seu dinheiro não merece ser chamado de Nação - se ele admitisse que tem, deixados pelo PT - que acusa de ter quebrado o país - mais de um trilhão de reais em caixa, à disposição do Banco Central, além de uma quantia superior ao que está querendo arrecadar com privatizações apenas nos cofres do BNDES?

Da mesma forma que é preciso, na política - e na economia - vender o peixe - tão falso como o primeiro - de que a corrupção é o maior flagelo do país, para justificar a morte da engenharia brasileira, a destruição de nossas principais empresas nas áreas de energia, defesa, indústria naval e infra-estrutura, e a interrupção judicial de centenas de bilhões de dólares em projetos, obras e programas - vide o sucateamento e venda para a Gerdau, para derreter, de 80 mil toneladas de aço em peças de duas mega plataformas da Petrobras, que estavam prontas para serem montadas - com a eliminação de milhões de empregos e a quebra de milhares de investidores, acionistas e fornecedores, quando os JUROS pagos aos bancos privados e a SONEGAÇÃO - que atinge dois trilhões de reais - além de uma estrutura tributária perversa e injusta, que faz com que os ricos paguem muito menos impostos que os mais pobres, desviam do orçamento nacional milhares de vezes mais recursos do que, supostamente - sem provas e com base no disse me disse de “delatores” interessados em sair da cadeia a qualquer custo - se alega que foi genericamente desviado pela corrupção nos últimos anos.

Tanto é assim que a Operação Lava Jato, cantada e decantada como a “maior operação anticorrupção do mundo”, só conseguiu comprovar até agora, em setembro de 2017, 520 milhões de reais em “propina” comprovadamente paga - em financiamento de campanha, caixa 2, etc - a agentes públicos e partidos pelas construtoras Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Correa-UTC, Galvão Engenharia, Mendes Júnior, e OAS, além dos casos que envolvem Palloci, Eduardo Cunha, e o suposto episódio do tríplex atribuído a Lula, dinheiro autorizado, pelo Juiz Sérgio Moro, a ser cobrado dessas empresas, pelo Ministério Público.

As outras punições envolvendo dinheiro, de dezenas de bilhões de reais, que levaram as maiores empresas de engenharia do Brasil para uma situação de quebra real e para a beira do precipício, foram absurdamente determinadas pelo Ministério Público de forma absolutamente aleatória e punitivista como condição para que as empresas pudessem participar de acordos de leniência, que, comprovou-se depois, não tem nenhuma validade jurídica, já que precisam ser corroborados, ou avalizados por outros órgãos como o TCU, a CGU, a própria Polícia Federal, que disputam com o próprio MP e a turminha da “Força Tarefa” da Operação Lava Jato um lugar ao Sol ou nas brasas da verdadeira Fogueira da Vaidade, ou casa da Mãe Joana, em que se transformaram a pluto-burocracia e o Estado brasileiros.

Com tudo isso, o Brasil não apenas perdeu centenas de bilhões de dólares em obras, empresas, desvalorização de ações, como também entregou - e continua entregando - de mão beijada, suas prerrogativas e instrumentos de desenvolvimento ao exterior, apesar de estarmos vivendo, nesta primeira quadra do século XXI, em um mundo cada vez mais nacionalista, complexo e competitivo.

A doutrina da viralatice, do mais abjeto e abnegado entreguismo, tomou conta das redes sociais e de sujeitos que desgraçadamente - para a nação - nasceram em solo brasileiro, e não tem pejo de pedir na internet ao governo Temer que entregue tudo, nosso petróleo, nossos minerais, nossas terras, nosso mercado, nossas empresas estatais aos gringos.

Já não basta o desprezo pelo PT e o Nordeste, ou - como se viu nas reações à morte da turista espanhola morta por um bloqueio da PM no Rio de Janeiro - a tudo que esteja ligado à periferia das grandes cidades. É preciso bradar, cinicamente, vestido de verde e amarelo, o ódio que ficou por tanto tempo represado, dentro dos pulmões de uma gente tão calhorda quanto desprezível, contra o próprio país e tudo que lembre NACIONALISMO, BRASILIDADE, SOBERANIA, nestes tempos imbecis e vergonhosos que estamos vivendo.

A desculpa é sempre a mesma. As empresas estatais seriam - contradizendo o próprio discurso anticorrupção que está acabando com dezenas de empresas e grupos econômicos privados nacionais - mais “corruptas” e propícias à criação de “cabides de empregos” que as empresas privadas ou privatizadas.

Com a aprovação da PEC do teto dos gastos - que nos obriga a limitar nossos investimentos estratégicos quando nenhuma das maiores economias do mundo utiliza um gesso semelhante - a entrega do pré-sal a gigantes internacionais como a Shell e a Exxon, a “venda” de refinarias e outros ativos da Petrobras a mexicanos a preço de banana; a propalada “privatização” da Eletrobras, do Banco do Brasil, e da própria Petrobras, apesar dessas empresas já serem, na verdade, “privatizadas” por terem ações em bolsa; a defesa da isenção de vistos para países que não nos oferecem reciprocidade, a crescente, e desigual, “cooperação” militar entre o Brasil e os EUA; a discussão da entrega da Base Espacial de Alcântara aos Estados Unidos, e a vitória da mentalidade privatista que afirma que somos incompetentes, como país ou estado, para cuidar do que é nosso, estamos nos transformando cada vez mais, de fato e doutrinariamente, naquele sujeito que, incapaz de administrar sua casa, seus negócios e sua família, decide resolver o problema chamando o vizinho para colocar, no cinto, moral nos seus filhos, e dormir na mesma cama que a sua esposa, e, achando que está fazendo um grande negócio, coloca uma coleira e se muda, de mala e cuia, para a casa do cachorro.

Com o perdão da imagem e da carapuça - no caso, bem fornida na parte de cima - estamos correndo o risco de que nos transformem definitivamente, por abjeção explícita, no CORNO DA RUA entre os maiores países em PIB, território e população do mundo.

A criação da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Soberania Nacional, neste ano, com centenas de deputados e senadores, e sua interação com organizações dignas e centenárias como o Clube de Engenharia, mostra, no entanto, que a nação não está entregue, apenas, a uma patética e miserável estirpe de entreguistas oportunistas e invertebrados.

O recuo do governo em questões como a da RENCA e do trabalho escravo nos diz que não há luta que seja em vão, quando estão em jogo os direitos do povo brasileiro e os perenes interesses da Pátria.

É necessário, no entanto, que se amplie urgentemente a resistência e a mobilização em torno dessa e de outras bandeiras.

O país precisa, mais do que nunca, negociar a estruturação de uma frente ampla, nacionalista e antifascista, de Defesa da Soberania e da Democracia, neste momento.

Fonte: Blog Mauro Santayana – Domingo, 26 de novembro de 2017 – Internet: clique aqui.