«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.»

(Aristóteles [384 a.C. – 322 a.C.] – filósofo grego, discípulo de Platão)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Duzentos anos para reescrever a Bíblia


Francesco Battistini
Corriere della Sera
26.08.2011

Estudiosos da Hebrew University devem publicar o quarto volume do projeto que pretende reescrever o Antigo Testamento

E Moisés disse: que o Altíssimo disperse o gênero humano "segundo o número dos filhos de Deus". Disse precisamente isso no Deuteronômio. O número dos filhos de Deus. Ou seja, muitas divindades, não uma só. Um elemento de politeísmo. É isso que nos parecem contar hoje os Pergaminhos do Mar Morto [foto de um deles - acima], os manuscritos mais antigos da Bíblia.

Mas não foi isso que nos transmitiram os massoretas, os escribas que, no final do primeiro milênio, releram, rediscutiram, corrigiram o Antigo Testamento. Entende-se: o politeísmo era um conceito incompatível, inaceitável, insustentável no canto de Moisés. E, então, zás: em vez de interpretar, de dar uma leitura teológica a essa passagem, melhor cortar, apagar com um pouco de monoteísmo. E recopiar de outro modo: "Segundo o número dos filhos de Israel", 70 como as nações do mundo, tornou-se a versão que chegou até nos.

Um retoquezinho: "E muitos mais foram feitos", diz o biblista Rafael Zer, da Hebrew University de Jerusalém.

"Para os crentes, a fonte da Bíblia é a profecia. E a sua sacralidade permanece intacta. Mas nós, estudiosos, não podemos ignorar uma coisa: que essas palavras foram confiadas aos seres humanos, ainda que por iniciativa e com o acordo de Deus. E, de passagem em passagem, houve erros e se multiplicaram...".

Uma palavra, a Palavra. Sobre a Bíblia, se jura e se reza, na Bíblia se espera e se crê. Mas qual Bíblia? O Pentateuco Samaritano, a Septuaginta, a Vulgata, a Bíblia do Rei James? Sobre uma das mais altas colinas de Jerusalém, em uma das maiores bibliotecas do mundo, na Hebrew University fundada por Einstein e Freud, no silêncio das oliveiras e protegido de toda curiosidade, há uma equipe de biblistas que, há 53 anos, tem a ambição de publicar a última, definitiva, incontestável escritura do Antigo Testamento.

"The Bible Project", a Academia da Bíblia. Dezenas de exegetas, em grande parte judeus, mas em consulta constante com os colegas das universidades pontifícias e de Friburgo. Reuniões mensais. Boletins internos e totalmente reservados. A recomendação de não falar muito a respeito por aí. De acordo com um projeto tão ambicioso quanto lento: em meio século, só foram publicados três livros dos 24 livros da Bíblia hebraica (39 para os cristãos, que os contam de modo diferente), um quarto e um quinto são iminentes. O último componente do originário comitê científico morreu há ponto tempo, aos 90 anos. E toda a obra, se prevê, não irá terminar antes de dois séculos: por volta de 2200, ou mais do que isso.

"É um trabalho enorme", diz o Pe. Matteo Crimella, estudioso milanês da École Biblique et Archéologique Française, próxima da Porta de Damasco, que conhece o projeto: "Começa-se do Códice de Alepo, o mais antigo manuscrito massorético, para oferecer um texto crítico com todas as variantes possíveis. A novidade é que se leva em conta os manuscritos do Qumran, fazendo um salto de mil anos com relação ao Códice de Leningrado, que sempre foi a base de todos os estudos. E se avalia, se compara o material disponível em todas as partes do mundo". A evolução da Palavra através dos milênios.

Compulsando manuscritos hebraicos, anotações meticulosas, traduções gregas, siríacas, latinas, coptas, etíopes, papiros egípcios, edições venezianas do século XVI, textos de Pisa, amanuenses samaritanos, pergaminhos em aramaico, até citações do Alcorão...

Derrubando as certezas dos ultraortodoxos que acreditam em uma única Palavra divina, inalterada e inalterável. Cada página tem uma linha de texto e uma série de aparatos: a tradução alexandrina mais antiga, as lições baseadas nos textos do Mar Morto, as citações rabínicas e do Talmude, as diferenças de vocalização, o comentário. Destacando evoluções, correções, censuras. Algumas desejadas, outras casuais.

"Sabe-se que todo texto bíblico transmitido à mão ou por ditado nunca é igual", explica o professor Alexander Rofé, israelense nascido em Pisa, professor durante 40 anos da Hebrew University. "Os textos de 400 a.C. eram como um funil invertido: para uma palavra que entrava, saíam muitas mais. Mas, dois séculos e meio depois, ocorre o inverso. O funil se inverteu para o outro lado. E, no Templo, alguém disse: esse é o texto oficial. A partir disso, todos os livros foram corrigidos. E se um livro era muito divergente, não o podendo destruir, era enterrado. Foi deste modo que se começou a refletir sobre a Sagrada Escritura, mas sem preservá-la".

Uma palingênese de séculos. Assim se tornou a Bíblia. Onde a uma correção se acrescentava outra correção. Onde alguma seita acrescentava a sua contribuição. Onde os tardo-bizantinos assinalaram as precisões ortográficas. Tanto que, uma verdade já consolidada, o Antigo Testamento que lemos hoje não é o que era lido originalmente.

No Livro dos Provérbios, por exemplo, quando uma versão diz que o justo "anda na sua integridade", uma outra fala da "sua morte", introduzindo um conceito do além muito caro aos fariseus: os dois termos, muito semelhantes, também são igualmente ilustrados pelo "The Bible Project" com todas as possíveis interpretações.

Outros casos? O Livro de Jeremias, concluíram os biblistas da Hebrew University, recuperando fragmentos aqui e ali, é mais longo em pelo menos uma sétima parte do que a versão geralmente aceita. Com diferenças não muito notáveis, mas com diferenças: alguns versículos, que se referem a uma profecia sobre o cativeiro babilônico do Templo, mais do que uma profecia, parece ser um acréscimo posterior, com os fatos consumados.

A Academia da Bíblia de Jerusalém não está sozinha. Projetos paralelos, e igualmente notáveis, ocorrem na Alemanha e em Oxford. Mas ninguém parece ter a mesma pretensão de completude e de monumentalidade. "Certamente, estamos diante da mais extensa edição crítica do Antigo Testamento jamais tentada na história", certifica o professor David Marcus, do Seminário Teológico Judaico de Nova York, defensor do projeto.

Em 1958, quando Michael Segal reuniu pela primeira vez o comitê de estudos sobre a colina da cidade sagrada às três religiões, ele anunciou que "aquilo que estamos fazendo deve ser do interesse de qualquer um que tenha interesse na Bíblia". Ele também não profetizou tantas dificuldades e lentidões, mesmo que pudesse imaginá-lo: não seria nada fácil recuperar os antigos documentos.

Enquanto ele falava, de Alepo, chegou a Israel o famoso Códice sobre o qual seria possível começar os estudos. Por milagre, ele havia sido salvo do incêndio de uma sinagoga da Síria. E, de contrabando, escondido dentro de um eletrodoméstico e sob uma camada de laticínios, quem o havia levado ao mundo dos biblistas havia sido um mensageiro que nenhum Malaquias ou Isaías jamais teria profetizado: um comerciante de queijos.

Tradução de Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - 30/08/2011 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=46860

O problema "Wall Street" do Brasil [Aqui está o nó da questão!]


MARK WEISBROT

Tirando os interesses do setor financeiro, não há razões para sacrificar crescimento para reduzir a inflação

A economia brasileira está crescendo mais devagar, mas o governo está reduzindo seus gastos para aumentar seu superavit primário, algo que pode desacelerar a economia ainda mais.

A produção industrial caiu 1,6% em junho, e a atividade econômica caiu pela primeira vez desde 2008.
Embora as cifras mensais sejam erráticas e não necessariamente indiquem qualquer tendência, o quadro maior provoca perguntas sobre se a política seguida pelo governo é apropriada, diante dos crescentes riscos e ventos contrários na economia global. Não me interprete mal.

A política e os resultados econômicos do Brasil desde que Lula foi eleito, em 2002, têm tido uma melhora imensa em relação a FHC [Fernando Henrique Cardoso].

Este, que foi objeto de muito amor e afeto em Washington por ter implementado as políticas neoliberais do "Consenso de Washington", presidiu sobre um fracasso econômico. A economia cresceu meros 3,5% por pessoa durante seus oito anos. A performance de Lula foi imensamente melhor; com crescimento per capita de 23,5%, com um aumento real de 60% no salário mínimo e reduções consideráveis no desemprego e na pobreza, realmente não existe comparação. É provável que o mandato de Dilma tenha resultados ainda melhores.

Mas o Brasil tem um problema estrutural que é semelhante a um dos problemas maiores que temos nos EUA: o setor financeiro é grande demais e detém poder excessivo.

Como este setor não tem muito interesse no crescimento e desenvolvimento - é muito mais obcecado por seus próprios lucros e por minimizar a inflação -, seu controle sobre o Banco Central e a política macroeconômica impede o Brasil de realizar seu potencial. E o potencial do país é imenso: entre 1960-1980, a economia brasileira cresceu 123% por pessoa. Se o Brasil tivesse mantido esse ritmo de crescimento, os brasileiros hoje teriam padrões de vida europeus.

A inflação está em queda no Brasil no momento - nos últimos três meses foi de 4% ao ano, contra 7% no ano passado. Tirando os interesses estreitos do setor financeiro, não existem razões para sacrificar crescimento ou emprego para reduzir a inflação. O setor financeiro é também o maior vilão por trás da sobrevalorização do real, que está prejudicando a indústria e o setor manufatureiro brasileiros. O Banco Central combate a inflação elevando o valor do real, com isso barateando as importações. Mesmo quando o governo tenta puxar o real para baixo, a nível mais competitivo, o fato de o setor financeiro negociar com vários derivativos impede de fazê-lo.

Entre os anos 2002-2011, a Argentina cresceu 90%, o Peru, 77%, e o Brasil, 43%. Não há razão pela qual o Brasil não possa ter uma das economias de mais rápido crescimento da região, ou mesmo do mundo.

Nos últimos quatro anos, o setor financeiro do Brasil cresceu cerca de 50%, três vezes mais que o setor industrial. Hoje os salários dos gerentes de alto nível estão mais altos que os dos EUA.
Isto não é apenas um enorme desperdício de recursos - é muito mais destrutivo ainda devido à influência política desse setor.

Tradução de CLARA ALLAIN.

Fonte: Folha de S. Paulo - Mundo - Quarta-feira, 31 de agosto de 2011 - Pg. A18 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft3108201114.htm

O que está acontecendo no Chile? [É o que não acontece aqui!]



PAULA LOUZANO E GREGORY ELACQUA

Quanto mais uma sociedade tem acesso à educação, maior a demanda por qualidade; portanto, o Chile parece ser vítima de seu próprio sucesso

Há mais de dois meses, os estudantes estão em greve no Chile.
Mais de 70% da população apoia o protesto. É paradoxal que o melhor sistema de educação da região esteja vivendo uma crise, enquanto o Brasil, com indicadores educacionais bem piores, pareça satisfeito.

O Chile tem o mais alto IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da região. Noventa por cento dos jovens chilenos têm ensino médio completo, e mais de 50% estão no ensino superior. No Brasil, menos de 40% dos jovens conseguem terminar o ensino médio, e 10% chegam à universidade.

Quanto mais gente em uma sociedade tem acesso à educação, maior é a demanda por sua qualidade e pela ampliação do acesso a níveis mais altos. Portanto, o Chile parece ser vítima de seu próprio sucesso. O país fez a lição de casa na educação básica.

Além de aumentar seu acesso e conclusão, ampliou a jornada escolar criando um único turno. Todos os alunos têm sete horas de aula, e os professores trabalham em uma só escola. O gasto por aluno, além de maior que o nosso, é proporcional à renda da família: as escolas que atendem aos mais pobres recebem mais dinheiro.

A diferença no desempenho entre os pobres e os ricos já diminuiu, como mostrou a prova internacional do Pisa, mas a desigualdade ainda incomoda os chilenos.

Uma de suas reivindicações é que se escreva na Constituição que a qualidade da educação seja um direito garantido pelo Estado.

O grande problema está no ensino superior - estopim das manifestações. Mais de 75% do gasto está nas mãos das famílias.

O aumento no acesso incluiu os mais pobres - sete de cada dez estudantes são os primeiros da família a ingressar em um curso superior -, mas eles têm dificuldades em pagar as mensalidades, e as bolsas de estudos são escassas.

As taxas de juros do crédito educativo são altas para o padrão chileno - de 6% a 8% ao ano -, e os graduados acabam comprometendo parte importante de sua renda no pagamento da dívida. Mais de 40% estão inadimplentes.

Soma-se a isso a percepção de que o Estado chileno não é capaz de fiscalizar as universidades privadas, que por lei não podem ter lucro, nem de garantir que elas entreguem uma educação de qualidade.

O progresso econômico do país, a diminuição da pobreza e a entrada dos chilenos na OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) aumentou a expectativa da sociedade sobre o seu desenvolvimento social.

Apesar de haver se distanciado dos países da região, o Chile olha para o mundo desenvolvido e percebe que ainda está longe de ser um país equitativo e justo.

Os jovens chilenos, ao contrário dos brasileiros, não parecem dispostos a esperar até 2020 para ter uma educação de qualidade para todos. Devemos aprender com o vizinho que ampliou as oportunidades educacionais e transformou a educação em prioridade nacional.

Não há dúvidas de que o Chile vai sair fortalecido dessa "crise".
Pena que nós, brasileiros, não estejamos passando pelo mesmo tipo de problema.

PAULA LOUZANO é doutora em educação pela Universidade Harvard (EUA) e pesquisadora da Fundação Lemann.
GREGORY ELACQUA é diretor do Instituto de Políticas Públicas da Universidade Diego Portales, no Chile.

Fonte: Folha de S. Paulo - Tendências/Debates - Opinião - Quarta-feira, 31 de agosto de 2011 - Pg. A3 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz3108201108.htm

GRITOS E RESPOSTAS


D. Demétrio Valentini

Na Semana da Pátria deste ano vai acontecer o 17º. Grito dos Excluídos.  Pela sua continuidade, e pelas repercussões que ainda suscita, o Grito se apresenta como uma das iniciativas bem sucedidas da CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil], levada em frente pelas Pastorais Sociais.

Foi realizado pela primeira vez em 1995, ano da Campanha da Fraternidade sobre os Excluídos.
Aí já encontramos um dos motivos do acerto deste evento. Ao longo de todos os anos, ele sempre fez questão de retomar o tema da Campanha da Fraternidade, mostrando seus desdobramentos em torno de situações concretas, que mais exigem nossa atenção.

O Grito faz repercutir a Campanha da Fraternidade. Como, por exemplo, neste ano com a campanha sobre a vida no planeta, o Grito nos provoca lembrando que pela vida grita a terra, por direitos todos nós!”.

Outra razão que explica o sucesso do Grito foi o fato de vincular sua promoção ao Dia da Pátria. Desde a primeira edição, em 1995, a intenção era recuperar para a cidadania a celebração do “Dia da Pátria”, com manifestações que envolvessem os movimentos sociais, garantindo espaço para os que se sentiam, por um motivo ou outro, “excluídos” dos benefícios a que todos têm direito como cidadãos do mesmo país.

Esta é outra circunstância que ajuda a desenhar o quadro de referências do Grito dos Excluídos. Ele nasceu como gesto concreto da Semana Social, que tinha por tema O Brasil que nós queremos.
Desde o seu início, o Grito se colocou a serviço da cidadania, incentivando a participação popular em torno de grandes causas que o povo precisa assumir.

Como a história da proclamação da nossa independência vem associada ao “Grito” de Dom Pedro, o Grito dos Excluídos vem nos alertar que a soberania de nosso país precisa ser assumida sempre, de maneira consciente e articulada.

Por isto, em cada ano, não faltam causas, com a ênfase de gritos que apelam para os nossos compromissos de cidadãos.

Entre tantas, podemos citar algumas, que estão sendo assumidas pelo Grito deste ano.

Uma delas é a corrupção. Ela merece nosso repúdio constante. Ela precisa ser combatida com firmeza e sem complacência. Este combate deve ser sustentado pelo poder público, mas precisa ser apoiado pela cidadania.

Outro grito que precisa ecoar com mais clareza é contra a droga. Estamos chegando ao limite da tolerância. A nação corre perigo! A população, em especial a juventude, não pode mais ficar exposta à ganância de inescrupulosos, que permanecem impunes enquanto vidas inocentes são ceifadas em números assustadores.  O combate contra a droga exige mais vigilância de nossas fronteiras territoriais. Mas exige também que nos demos conta que os caminhos da droga são abertos pela perda de valores morais, com o consequente abalo de nossas instituições.  Além de enérgica ação do poder público, o combate contra a droga precisa contar com a corajosa recuperação dos critérios éticos que precisam presidir a nossa convivência familiar e social.

Outro Grito, que já começa a ficar impaciente, é por uma eficaz reforma política. Ela precisa desencadear um processo, que não pode prescindir da regulamentação dos instrumentos de democracia direta, que a Constituição já prevê, mas que até agora não foram regulamentados com clareza e segurança.

Outro tema de enorme responsabilidade se coloca agora em torno do novo Código Florestal, cuja votação está tramitando no Congresso. Em torno deste Código Florestal é necessário superar os radicalismos, para se chegar, com lucidez e equilíbrio, a compatibilizar os objetivos da proteção ao meio ambiente com os objetivos da agricultura.  A discussão em torno do Código Florestal precisa se transformar em bom instrumento de consensos razoáveis, que levem em conta todas as dimensões implicadas neste complexo assunto, cheio de consequências práticas, que não podem ser ignoradas, ou atropeladas por bandeiras que escondem interesses ou carregam ingenuidades.

E assim o Grito pode ir levantando outros assuntos, como os agrotóxicos, a reforma tributária, a reforma previdenciária, a questão da moradia urbana, as barragens, e outros mais. A cidadania agradece!

Fonte: Informações da Diocese - Diocese de Jales - 04/09/2011 - Por e-mail.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Bento XVI e a sua relação com movimentos como os Neocatecumenais e os Arautos


 Sandro Magister 
Site - Chiesa
26.08.2011

Num primeiro exame, tende a promover a todos, inclusive aqueles grupos e movimentos que depois lhe causaram grandes desilusões. Três casos de estudo: os Neocatecumenais, os monges de Vallechiara e os Arautos do Evangelho.

Como era de se esperar, os Neocatecumenais participaram em grande número da Jornada Mundial da Juventude, em Madri. E acrescentaram ali o seu “day after”, também este segundo a tradição.

Na tarde da segunda-feira, 22 de agosto, reuniram-se na Praça central de Cibeles para celebrar o rito do “chamado” ao sacerdócio ou à vida religiosa, com seu fundador Francisco José Gómez Argüello, Kiko [foto ao lado], para servir de ímã, rodeado pelo arcebispo de Madri, Antonio María Rouco Varela, e por dezenas de outros bispos de todo o mundo.

A praça estava cheia de neocatecumenais de numerosos países, 180.000 no total, entre os quais 50.000 eram italianos e 40.000 eram espanhóis.

Justamente 750 vieram de apenas duas paróquias de Roma, cidade em que o Caminho Neocatecumenal está mais presente.

O “chamado” teve uma resposta massiva. Cerca de 9.000 jovens de ambos os sexos se deslocaram da praça ao palco, para receberam a bênção dos bispos para a sua escolha vocacional.

Ao inflamar a multidão, Kiko não deixou – como faz com frequência – de se orgulhar do apoio do então professor de teologia Joseph Ratzinger à implantação do Caminho Neocatecumenal na Alemanha, em 1974. Nesse ano, Stefano Gennarini e outros discípulos italianos de Ratzinger em Regensburg lhe informaram que haviam entrado no Caminho Neocatecumenal, em Roma, e que estavam entusiasmados.

Seu entusiasmo contagiou o professor Ratzinger, que quis encontrar em sua casa, para uma janta, Kiko e a outra fundadora do Caminho, a ex-monja Carmen Hernández.

O encontro se prolongou até o dia seguinte, por vontade de Ratzinger, nessa época bispo auxiliar de Munique.

E pouco mais tarde Ratzinger escreveu a dois de seus amigos sacerdotes da diocese de Munique, recomendando-lhes calorosamente que fizessem crescer o Caminho em suas respectivas paróquias. O que realmente acabou acontecendo.

Como sempre faz quando conta este episódio, também em Madri Kiko releu com ênfase algumas das frases dessas duas cartas de Ratzinger.

O que não exclui o fato de que o Caminho tenha proporcionado depois momentos difíceis ao próprio Raztinger, quando foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e, depois, como Papa.

Os textos do catecismo escrito por Kiko e Carmen para a formação dos membros do Caminho – até agora mantidos em segredo – demandaram efetivamente 13 anos de revisões e correções, por parte da Congregação para a Doutrina da Fé, antes que fossem aprovados em 2010.

E também a modalidade com que os Neocatecumenais celebram a Missa e os outros sacramentos foram objeto de reclamações e correções insistentes, que nem sempre chegaram a bom porto, por parte das autoridades vaticanas.

Se em 1974 o então jovem professor Ratzinger tivesse tido conhecimento dos defeitos do Caminho nos campos da doutrina e da liturgia, seu entusiasmo teria dado lugar a uma cautela maior.

E este não é o único caso em que Ratzinger teve excessivo otimismo inicial, ao julgar novos movimentos religiosos que depois lhe deram motivos para preocupação.

* * * * * *

Um desses casos remete à Família Monástica Fraternidade de Jesus, estabelecida nos anos 80 na zona agrícola não longe de Castel Gandolfo, com várias dezenas de monjas e monges.

O fundador, o padre Tarcisio Benvenuti [foto ao lado], deu o nome alusivo de Vallechiara ao seu novo mosteiro e atraiu rapidamente as visitas e simpatias de eclesiásticos ilustres, desde o arcebispo de Viena, Christoph Schönborn, até o arcebispo de Canterbury e primaz da Igreja anglicana, Rowan Williams.

Também o Príncipe Charles da Inglaterra, em 2002, visitou o mosteiro e a granja. E também o então cardeal Ratzinger.

Ratzinger se entusiasmou tanto que em 8 de março de 2004 escreveu de próprio punho ao abade Benvenuti uma longa carta, cheia de elogios e incentivos, reproduzida de forma integral na página da internet da comunidade.

Nesse mesmo ano amadureceu inclusive no Vaticano o propósito de confiar à Família Monástica Fraternidade de Jesus o cuidado da Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma, em substituição aos monges beneditinos que moravam ali há séculos, reduzidos em número e envelhecidos.

Mas isto foi o início do fim para o padre Benvenuti e os seus.

Os beneditinos, os verdadeiros, se levantaram contra aqueles, que consideravam falsos imitadores. E começaram a trazer à luz as numerosas e graves falhas da comunidade. Em 2007, já como Papa, Ratzinger enviou um abade beneditino para realizar uma visita apostólica, o que trouxe resultados desastrosos.

A comunidade foi confiada a um administrador externo. O fundador e o co-fundador, os padres Benvenuti e Zeno Sartori, foram antes transferidos para os mosteiros beneditinos de Praglia e de Novalesa, e depois exilados num santuário localizado nas montanhas da Áustria, em St. Corona am Wechsel, na arquidiocese de Viena.

Em 12 de abril de 2010 veio o golpe final. A Congregação vaticana para a Vida Religiosa, presidida pelo cardeal Franc Rodé, redigiu o decreto de supressão da Família Monástica Fraternidade de Jesus, decreto aprovado de forma específica por Bento XVI em 22 de abril posterior.

* * * * * *

Outro caso digno de estudo: os Arautos do Evangelho. É o único movimento católico de recente formação, que Bento XVI citou nominalmente no recente livro-entrevista Luz do Mundo.

E o citou em forma de elogio: são “jovens cheios de entusiasmo por terem reconhecido em Cristo o Filho de Deus e por anunciá-lo ao mundo”; são a prova de que também no Brasil – onde o movimento nasceu – “se assiste a grandes renascimentos católicos”.

A partir do Brasil os Arautos do Evangelho se difundiram para dezenas de países. Em Roma estão a cargo da igreja de São Bento em Piscinula. São leigos e leigas consagrados, com alguns sacerdotes. Vivem em comunidade e vestem um uniforme quase militar de aspecto neo-medieval.

Obtiveram o reconhecimento da Santa Sé em 2001. Mas seu fundador, dom João Scognamiglio Clá Dias [foto ao lado], provém de uma estirpe anterior e famosa, a do movimento Tradição, Família e Propriedade - TFP, conduzido por Plínio Corrêa de Oliveira (1905-1985), de quem foi o colaborador e o intérprete mais estreito. Dom Scognamiglio Clá Dias escreveu uma tese de doutoramento sobre o pensamento e a vida de Corrêa de Oliveira.

Assim como a Tradição, Família e Propriedade, também os Arautos do Evangelho são um movimento católico marcadamente tradicionalista e conservador, no extremo oposto das correntes católicas latino-americanas que bebem na Teologia da Libertação.

O conflito entre estas duas tendências teve recentemente por palco o Vicariato Apostólico de San Miguel de Sucumbíos, um posto avançado de missão na área amazônica do Equador, nos limites com a Colômbia.

Até há pouco tempo este Vicariato era dirigido por um bispo carmelita, Gonzalo Marañón López, simpatizante da Teologia da Libertação e, em consequência, das Comunidades Eclesiais de Base, da leitura popular da Bíblia e da criatividade na liturgia.

A Congregação para a Evangelização dos Povos, presidida pelo cardeal Ivan Dias, não estava contente. E em 2007 enviou o arcebispo brasileiro de Petrópolis, Filippo Santoro, para uma visita apostólica.

Em outono de 2010 seguiu a substituição do bispo Marañón López pelo sacerdote argentino Rafael Ibarguren Schindler, da Sociedade Clerical “Virgo Flos Carmeli”, o ramo sacerdotal dos Arautos do Evangelho.

O cardeal Dias confiou oficialmente ao padre Ibarguren e aos Arautos do Evangelho a tarefa de reorganizar o Vicariato “de modo diferente” do anterior, rechaçado por “nem sempre ser conforme à exigência pastoral da Igreja”.

Mas à sua chegada, encontraram imediatamente a áspera oposição dos dirigentes por eles destituídos.

Seguiram-se meses de conflitos verbais e às vezes também físicos, com protestos, marchas e abaixo-assinados. Também a Conferência Episcopal do Equador se dividiu a favor e contra. Intervieram na briga, contra os Arautos do Evangelho, inclusive líderes do governo equatoriano. Para mediar, teve que intervir o núncio apostólico, dom Giacomo Guido Ottonello.

Hoje o conflito ainda não está aplacado. Como outros movimentos católicos marcados por esse mesmo perfil, os Arautos do Evangelho tendem em todas as partes a dividir. Há aqueles que os admiram e apóiam ao ponto da ruptura, e aqueles que, pelo contrário, não os suportam.

O mesmo acontece com os Neocatecumenais. Têm fervorosos admiradores entre os cardeais e bispos, mas também muitos opositores e críticos. Os bispos do Japão, por exemplo, recentemente romperam em bloco com eles. O mesmo aconteceu há poucos dias no Nepal.

Os grandes elogios iniciais de Ratzinger nem sempre são confirmados nos fatos.

Tradução do Cepat.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - 29/08/2011 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=46818

De cada 100 decisões de juízes, só 16 foram executadas em 2010



FELIPE SELIGMAN
DE BRASÍLIA


Morosidade na execução de sentenças contribui para congestionamento dos tribunais, diz relatório do CNJ 
Levantamento mostra que mais da metade dos processos iniciados no ano passado ficou parada o ano inteiro 

De cada cem decisões proferidas pela Justiça da primeira instância ou juizados especiais em 2010, apenas 16 foram de fato executadas. O restante entra na fila e forma o chamado "congestionamento" de processos - casos que demoram mais de um ano para serem resolvidos.

O levantamento, divulgado ontem pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça), registra uma taxa de congestionamento de 84%. Esse número é praticamente o mesmo registrado em 2009 (86,6%).

Segundo o relatório, o maior problema está na cobrança de dívidas.

O acúmulo também atinge os processos recém-chegados ao Judiciário. Os dados mostram que 58% dos casos protocolados no ano passado ficaram parados.

Se contabilizados tanto os processos que ainda aguardam uma primeira análise e aqueles que só faltam serem executados, a média geral do congestionamento, na primeira instância da Justiça nacional, é de 70%.

"Os números não deixam nenhuma dúvida de que há um deficit muito grande em relação às demandas da sociedade e a capacidade do Judiciário de responder", avaliou o presidente do CNJ, Cezar Peluso.

As taxas de congestionamento de 2010 não sofreram grandes alterações quando comparadas com anos anteriores. Houve, no entanto, uma queda de 3,9% de processos novos em relação a 2009 -o Judiciário recebeu, no ano passado, 24,2 milhões de casos.

O conselheiro José Guilherme Werner aponta como um dos motivos para o problema da morosidade judicial o baixo o número de magistrados. Segundo o relatório, o Brasil tem aproximadamente nove magistrados para cada 100 mil habitantes. No total, o país conta com 16,8 mil juízes.

"O Brasil está um pouco abaixo em número de magistrados por habitantes em relação a outros países. No entanto, a gente sabe que temos certas peculiaridades como, por exemplo, a grande demanda referente aos órgãos governamentais", disse o conselheiro.

DESPESAS
Os dados mostram que o Judiciário gastou em 2010 R$ 41 bilhões (1,12% do PIB nacional), um crescimento de 3,7% do que foi registrado em 2009, quando os gastos foram de R$ 39,6 bilhões.
Na realidade, os dados do CNJ informaram que cada nova ação protocolada em 2010 custou uma média de R$ 1.694. O maior gasto é registrado na Justiça do Trabalho: cada processo novo tem um custo médio de R$ 3.200.

Fonte: Folha de S. Paulo - Poder - Terça-feira, 30 de agosto de 2011 - Pg. A10 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po3008201111.htm

Segredos do câncer começam a ser desvendados


GEORGE JOHNSON 
THE NEW YORK TIMES

Durante a última década, a pesquisa do câncer foi orientada pela visão de como uma célula evolui e se torna um tumor maligno.

Através de uma série de mutações aleatórias, os genes que promovem a divisão celular entram em marcha acelerada, enquanto os genes que normalmente enviam sinais para restringir seu crescimento são "desligados". As mutações se acumulam, permitindo que as células cancerosas enganem outras proteções e invadam tecidos vizinhos.

Esses princípios básicos - expostos 11 anos atrás em um trabalho decisivo, "The Hallmarks of Cancer" [As Características do Câncer], de Douglas Hanahan e Robert A. Weinberg [foto ao lado], e revistos em um artigo complementar este ano, "The Hallmarks of Cancer: The Next Generation" [As Características do Câncer: A Próxima Geração] - ainda servem como principal paradigma.

Mas descobertas recentes tornam a imagem mais complexa. O câncer parece ser ainda mais calculista do que se imaginava.

A maior parte do DNA foi durante muito tempo considerada lixo. Somente 2% do genoma humano contêm o código para fabricar as enzimas que uma célula de câncer transforma em seus próprios dispositivos.

Hoje em dia o DNA "lixo" é chamado mais respeitosamente de DNA "não codificante", e os pesquisadores encontram pistas de que "pseudogenes" que espreitam nessa região obscura podem ter um papel no câncer.

"Estivemos concentrando nossa atenção obsessivamente em 2% do genoma", disse o doutor Pier Paolo Pandolfi [foto abaixo], professor de medicina na Escola de Medicina de Harvard. Mas sinais vindos das duas regiões do genoma participam do delicado equilíbrio entre o comportamento normal das células e a malignidade.

A informação codificada no DNA do genoma é copiada pelo RNA mensageiro, depois transportada para estruturas subcelulares chamadas ribossomos, onde as instruções são usadas para montar proteínas.

Espreitando nos bastidores, fragmentos chamados micro-RNAs antes pareciam pouco mais que "ruído" molecular. Mas eles têm aparecido com destaque crescente nas teorias sobre o câncer.

Ao ligar-se ao RNA mensageiro de um gene, o micro-RNA pode evitar que as instruções atinjam seu alvo e também pode modular o sinal de outras maneiras.

Aumentando um pouco a complexidade, o doutor Pandolfi tem uma elaborada teoria que envolve micro-RNAs e pseudogenes. Para cada pseudogene existe um gene regular que codifica proteína. (Acredita-se que ambos derivem de um gene ancestral comum, o pseudogene rejeitado no passado evolucionário quando ele se tornou disfuncional.) Enquanto os genes normais expressam sua vontade enviando sinais do RNA mensageiro, os pseudogenes danificados ou são mudos ou falam coisas sem sentido.

Era o que se acreditava de modo geral. Pouca coisa é desperdiçada pela evolução, e o doutor Pandolfi acredita que os sinais de RNA dos genes e dos pseudogenes interagem através de linguagem que envolve micro-RNAs.

Em seu primeiro trabalho sobre as "marcas", os doutores Hanahan e Weinberg previram que dentro de 20 anos o circuito de uma célula cancerosa estaria mapeado tão completamente quanto os componentes de um chip de computador.

Hoje parece haver transistores dentro dos transistores. "Ainda acho que o diagrama das conexões, ou pelo menos seu esboço, poderá ser compreendido dentro de uma década", disse o doutor Weinberg por e-mail. "Os micro-RNAs podem ser mais parecidos com minitransistores ou amplificadores, mas seja qual for a representação eles ainda precisam ser soldados no circuito de alguma maneira."

Com tanto maquinário interno, os tumores malignos estão sendo comparados com órgãos rejeitados que brotam dentro do corpo.

Em seu trabalho complementar, Weinberg e Hanahan citaram duas "marcas emergentes" que a futura pesquisa poderá revelar como cruciais para a malignidade - a capacidade de uma célula aberrante reprogramar seu metabolismo para alimentar seu rápido crescimento e escapar à destruição pelo sistema imune.

Os pesquisadores ainda consideram a possibilidade de que as células possam trocar informação com micróbios da boca, pele, sistema respiratório, aparelho urogenital, estômago e sistema digestivo. Cada micróbio tem seu próprio conjunto de genes, que interagem com os do corpo humano trocando sinais moleculares.

"Eles enviam sinais metabólicos entre si - e estão constantemente enviando substâncias químicas que estimulam nossos processos biológicos", disse Jeremy K. Nicholson, presidente de química biológica no Imperial College em Londres.

Pessoas de diferentes locais geográficos podem abrigar diferentes ecossistemas microbianos. No ano passado, cientistas relataram evidências de que o microbioma japonês adquiriu um gene para a enzima que digere algas marinhas. O gene, que não é encontrado no aparelho digestivo dos norte-americanos, pode ajudar na digestão das algas usadas em sushis. A ideia de que pessoas em diferentes regiões do mundo tenham coevoluído com diferentes ecossistemas microbianos pode ser um fator para explicar por que elas costumam sofrer cânceres diferentes.

A composição do microbioma também muda. Com higiene, dieta e antibióticos, os níveis do micróbio Helicobacter pylori no trato digestivo humano têm diminuído nos países em desenvolvimento, e junto o câncer de estômago. Ao mesmo tempo, porém, o câncer de esôfago aumentou.

O doutor Zhiheng Pei, da Universidade de Nova York, disse que dois tipos de ecossistemas microbianos foram identificados no esôfago humano. Seu laboratório descobriu que as pessoas com esôfago inflamado ou com uma condição pré-cancerosa chamada esôfago de Barrett têm maior probabilidade de abrigar o que chamou de microbioma Tipo 2.

"As características do câncer: a próxima geração" poderá ter uma sequência - com modificações inesperadas como no filme "Jornada nas Estrelas".

O inimigo dentro de nós é tão formidável quanto invasores vindos do espaço. Para vencê-lo, a ciência mergulha no universo da célula viva.

Fonte: Folha de S. Paulo/The New York Times - Ciência & Tecnologia - Segunda-feira, 29 de agosto de 2011 - Pg. 5 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny2908201115.htm

Tela quente


RICARDO ANTUNES

A percepção de que os de cima saqueiam o Estado, fazendo minguar recursos para saúde e educação, chegou à periferia: a tela está ficando quente

O ano de 2011 começou com a temperatura social alta: na Grécia, várias manifestações se sucederam, repudiando o receituário da constrição de tudo que é público em benefício das grandes corporações. E a pólis moderna presenciou uma nova rebelião do coro.

Depois, veio a revolta no mundo árabe: cansados do binômio ditadura e pauperismo, riqueza petrolífera e fruição diamantífera dos clãs dominantes, a Tunísia deu o pontapé inicial. A forte revolta popular, com boa organização sindical, derrubou a ditadura de Ben Ali.

Os ventos rapidamente sopraram para o Egito: manifestações plebiscitárias diuturnas na praça Tahrir, conectadas pelas redes sociais, exigiam dignidade, liberdade e o fim da ditadura de Mubarak.
Seguiram-se manifestações na Argélia, na Jordânia, na Síria e na Líbia, dentre tantas outras partes que ardem no mundo do combustível fóssil. E Gaddafi viu seu poder desmoronar.

Em março, explodiu o descontentamento da "geração à rasca" em Portugal. Mais de 200 mil em Lisboa, jovens e imigrantes, precarizad@s, sem trabalho e tratados como coisas. É emblemático o manifesto do movimento Precári@s Inflexíveis, que dá a sintomatologia desse quadro: "Somos precári@s no emprego e na vida. Trabalhamos sem contrato ou com contratos a prazos muito curtos. (...) Somos operadores de call-center, estagiários, desempregados, (...) imigrantes, intermitentes, estudantes-trabalhadores (...) Não temos férias, não podemos engravidar nem ficar doentes. Direito à greve, nem por sombras. Flexissegurança? O "flexi" é para nós. A "segurança" é só para os patrões.
(...) Estamos na sombra, mas não calados. (...) Com a mesma força com que nos atacam os patrões, respondemos e reinventamos a luta. Afinal, nós somos muito mais do que eles. Precári@s, sim, mas inflexíveis".

Seguiram-se os indignados da Espanha: o que dizer quando a taxa de desemprego para os jovens de 18 a 24 anos, segundo a Eurostat, é de 47%? A única certeza que eles têm é que, estudando ou não, são sérios candidatos ao desemprego, perambulando atrás de trabalho precário.

Enquanto isso, no Chile, as famílias se endividam, vendem suas casas para manter seus filhos nas universidades, quase todas privatizadas. É por isso que há no país um explosivo e maciço levante estudantil, com apoio dos pais, dos professores e da opinião pública, exigindo mudanças profundas.

Depois foi a vez de a Inglaterra ferver. Começou na cordata Londres. Mais um trabalhador negro assassinado pela polícia, e os jovens pobres, negros, imigrantes e desempregados de Tottenham e de Brixton se rebelaram, sabendo que a polícia britânica é áspera quando a cor da pele é diversa.
Em poucos dias, atingiram Manchester e Liverpool. A percepção de que os de cima saqueiam o Estado, minguando os recursos para saúde, educação e previdência, chegou à periferia.

E é bom recordar, com Tariq Ali, que a polícia nunca foi responsabilizada pela morte de mais de mil pessoas sob sua custódia, desde 1990, sendo os negros e imigrantes presença recorrente.
Também é bom recordar que as revoltas contra o "pool tax" geraram grande descontentamento social e político contra o neoliberalismo, ajudando a selar o fim do governo de Thatcher.

Essa miríade de exemplos, que aflora tantas transversalidades entre classe, geração, gênero e etnia, é o sinal dos novos tempos.
A tela está ficando quente.

RICARDO ANTUNES, é professor titular de sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Seu novo livro, "O Continente do Labor" (Boitempo), está no prelo.

Fonte: Folha de S. Paulo - Tendências/Debates - Opinião - Segunda-feira, 29 de agosto de 2011 - Pg. A3 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2908201107.htm

Índia aceita lei anticorrupção e ativista encerra greve de fome [Belo exemplo!]


DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Anna Hazare, comparado a Gandhi, fazia jejum havia 12 dias

O Parlamento indiano concordou em adotar medidas mais duras contra a corrupção no país, fazendo o ativista Anna Hazare [foto ao lado], 74, anunciar o fim de sua greve de fome que já durava 12 dias.

Após quase nove horas de debate, o ministro das Finanças, Pranab Mukherjee, disse que os congressistas apoiavam a ideia defendida por Hazare de criar uma lei anticorrupção mais forte do que a proposta pelo governo.

Com o anúncio, Hazare encerra sua greve de fome hoje pela manhã, segundo discurso que fez a milhares de pessoas que acompanhavam sua campanha em uma praça na capital Nova Déli.

O ativista, que defende protestos sem violência, perdeu 7 kg no período que ficou sem comer e já apresentava danos no fígado. Ele se recusava também a aceitar a sugestão dos médicos de receber alimentação intravenosa.

Comparado a Mahatma Gandhi, Hazare e seus apoiadores exigiam que o Parlamento aceitasse implementar uma lei que valesse para todos os níveis da administração pública e partes do país e incluísse uma carta de defesa de direitos dos cidadãos.

"Sinto que essa é uma vitória do país", disse ele. "Mas apenas metade da batalha foi vencida, ainda há uma parte dela para vencermos".

Contrariando as expectativas dos que apoiam a campanha de Hazare, ainda não ocorreu a votação de nenhum projeto sobre o tema no Parlamento.
Um dos pontos mais polêmicos a ser votado é a submissão de membros do sistema judiciário e do gabinete do primeiro-ministro, Manmohan Singh, a uma autoridade que acompanhasse de perto os atos de corrupção.

A Índia ocupa o 87º lugar no ranking de países mais corruptos da organização Transparência Internacional, de acordo com pesquisa realizada em 2010.

Fonte: Folha de S. Paulo - Mundo - Domingo, 28 de agosto de 2011 - Pg. A16 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2808201103.htm

Povo Judeu é uma invenção do Sionismo

Em campo minado

FABIO VICTOR
DE SÃO PAULO

Em livro que foi best-seller em seu país e chega ao Brasil, historiador israelense Shlomo Sand defende que povo judeu é uma invenção do sionismo para conquistar soberania territorial

Na carteira de identidade do historiador israelense Shlomo Sand [foto acima], no lugar reservado à nacionalidade está escrito que ele é judeu.

Sand, 64, solicitou ao governo que seja identificado de outro modo, como israelense, porque acredita que não existe nem um povo nem uma nação judeus.

Seus motivos estão expostos em "A Invenção do Povo Judeu". Best-seller em Israel, traduzido para 21 idiomas e incensado pelo historiador Eric Hobsbawm, o livro chega agora ao Brasil (Benvirá).

O autor defende que não há uma origem única entre os judeus espalhados pelo mundo. A versão de que um povo hebreu foi expulso da Palestina há 2.000 anos e que os judeus de hoje são seus descendentes é, segundo Sand, um mito criado por historiadores no século 19 e desde então difundido pelo sionismo.

"Por que o sionismo define o judaísmo como um povo, uma nação, e não como uma religião? Acho que insistem em ser um povo para terem o direito sobre a terra. Povos têm direitos sobre terra, religiões não", diz à Folha, por telefone, de Paris.

"Na Idade Média a palavra povo se aplicava a religiões: o povo cristão, o povo de Deus. Hoje, aplicamos o termo a grupos humanos que têm uma cultura secular - língua, comida, música etc. Dizemos povo brasileiro, povo argentino, mas não povo cristão, povo muçulmano. Por que, então, povo judeu?"

Valendo-se de fontes e documentos históricos, a tese de Sand, ele mesmo admite no livro, não é em si nova (cita predecessores como Boaz Evron e Uri Ram). "Sintetizei, combinei evidências e testamentos que outros não fizeram, pus de outro modo."

Ele compara: até meados do século 20, "a maioria dos franceses achava que era descendente direto dos gauleses, os alemães dos teutões e os italianos, do império de Júlio César". "São todos mitos", afirma, "que ajudaram a criar nações no século 19".

Neste século 21, sustenta, não há mais lugar para isso.
"Não só o Brasil é uma grande mistura. A França, a Itália, a Inglaterra são. Somos todos misturados.
Infelizmente há muitos judeus que se acham descendentes dos hebreus. Não me sinto assim. Gosto de ser uma mistura."


Filho de judeus, nascido num campo de refugiados na Áustria, o autor lutou do lado israelense contra os árabes na Guerra dos Seis Dias, em 67, quando o país ocupou Cisjordânia e faixa de Gaza.

Em seguida virou militante de extrema esquerda e passou a defender um Estado palestino junto ao de Israel.

Professor na Universidade de Tel Aviv e na França, onde passa parte do ano, o historiador avalia que as hostilidades entre israelenses e palestinos, reavivadas nas últimas semanas, continuarão por tempo indeterminado.

"Enquanto o Estado palestino não for reconhecido nas fronteiras de 67, acho que a violência não vai parar."

A INVENÇÃO DO POVO JUDEU
AUTOR: Shlomo Sand
EDITORA: Benvirá
TRADUÇÃO: Eveline Bouteiller
QUANTO: R$ 54,90 (576 págs.)

Fonte: Folha de S. Paulo - Ilustrada - Sábado, 27 de agosto de 2011 - Pg. E1 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2708201109.htm
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VISÃO JUDAICA

Obra é panfleto acadêmico com proposta radical


ARIEL FINGUERMAN
ESPECIAL PARA A FOLHA


Autor dá base para a criação de um Estado binacional no lugar de Israel

Até a Idade Média, o judeu (assim como o cristão) sabia muito bem o que era: membro de uma comunidade definida por uma religião. Nascia, vivia e morria sem vontade ou possibilidade de mudar sua identidade.

Com a Idade Moderna, isso mudou. O processo de urbanização quebrou as estruturas comunitárias tradicionais, a Revolução Industrial transformou todos em consumidores, o Iluminismo deu a base filosófica de direitos iguais e a Revolução Francesa colocou tudo isso em ação.

O resultado para os judeus, e isso até os dias de hoje, é que uma boa parte desse povo, especialmente aqueles que deixaram as muralhas fechadas da ortodoxia, não sabe muito bem o que é. Membro de uma religião, mesmo levando em conta que raramente vai a uma sinagoga?

Parte integral do país onde vive, se bem que nem sempre reconhecido como tal por seus compatriotas? Até mesmo os nazistas, quando resolveram assassinar os judeus, tiveram dificuldade em defini-los. "Eu decido quem é judeu", dizia Göring.

Segundo a lei ortodoxa judaica, a religião é transmitida pela mãe. Para os reformistas, a maior sinagoga dos EUA, pode ser pelo pai. Em Israel, há mais de 60 anos se discute o assunto no Parlamento e na Suprema Corte, sem uma conclusão.

Uma das mais recentes reflexões dessa área é "A Invenção do Povo Judeu", de Shlomo Sand. Trata-se de uma obra acadêmico-panfletária, que causou algum frisson em Israel e na Europa.

Como livro acadêmico, traz uma proposta interessante, definindo o judeu pelo que ele não é: uma raça pura, descendente dos heróis bíblicos.

Sand mostra que em diferentes períodos históricos, especialmente na época de Jesus, os judeus fizeram proselitismo, converteram pagãos e assim desprezaram qualquer ideia de "raça pura".

Mas, em sua face panfletária, Sand quer nos convencer de que a ideia de "povo judeu" é uma mera invenção de historiadores sionistas dos últimos 150 anos, desejosos de unificar comunidades para tomar posse da Palestina.

Para ele, a Bíblia nunca foi uma base cultural comum dos judeus, mas é usada cinicamente agora como "documento de posse".

Somente nas últimas das quase 600 páginas de seu livro Sand revela o motivo de seu esforço intelectual: dar base acadêmica para a ideia de um Estado binacional israelense-palestino, que substituiria o Estado de Israel.

É uma proposta radical, que não é exigida nem pela Autoridade Palestina nem pela Liga Árabe. Como obra acadêmica, o livro de Sand soa panfletário. Mas, como panfleto, é acadêmico demais.

ARIEL FINGUERMAN é doutor em estudos do judaísmo pela USP e pela Universidade de Tel Aviv.

Fonte: Folha de S. Paulo - Ilustrada - Sábado, 27 de agosto de 2011 - Pg. E3 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2708201111.htm
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VISÃO PALESTINA

Sand indica o caminho da paz na região


ABDEL LATIF HASAN
ESPECIAL PARA A FOLHA


Ensaio revê como o mito sionista justificou a ocupação da Palestina

Shlomo Sand derruba os principais mitos israelenses.

Na historiografia oficial, os judeus, após saírem do Egito, ocuparam a Palestina, construíram Estados, sendo o mais importante o reino de Davi e Salomão, foram expulsos da terra várias vezes, e a última expulsão se deu após a destruição do templo, em 70 d.C.

Vagaram por 2.000 anos até retornar à terra prometida e criar seu Estado na Palestina, em 1948.
Sand demonstra que essa narrativa é fantasiosa, falsa, contrária à história.

Os atuais judeus não são descendentes dos antigos hebreus ou israelitas, que viviam na Palestina.
Descendem de povos que se converteram ao judaísmo, bem longe da Palestina.

Destaca o reino de Himyar, no Iêmen, que se converteu ao judaísmo em 378 d.C. O mesmo ocorreu com os berberes do norte da África.

A evidência linguística indica que os judeus sefarditas descendem de árabes, berberes e europeus convertidos.
Os judeus askhenazi (ocidentais) descendem dos kházaros, eslavos que habitavam o território ao longo dos rios Volga e Don (Rússia e Ucrânia) e migraram para a Polônia e territórios vizinhos, dando origem às numerosas comunidades judaicas.

É mito o êxodo dos judeus após a destruição do templo. Roma não expulsou os judeus de Jerusalém ou da Palestina. Não há menção de deportação na extensa documentação dos romanos, minuciosos. Roma nunca deportou povos inteiros.

Na época do alegado exílio, havia muito mais judeus fora da Palestina que dentro. As comunidades judaicas da Mesopotâmia, do Egito (Alexandria) e do norte da África eram mais numerosas que a comunidade na Palestina.

Para os sionistas, era imperioso um exílio forçado, para se aceitar a "história orgânica do povo judeu".
É lenda a saída dos judeus do Egito e a conquista da Palestina. Nada há de dados científicos, históricos ou arqueológicos sobre o reino de Davi e Salomão. Transformaram o Velho Testamento, teologia, em livro de história.

No final do século 19, inventaram um povo e forjaram sua "história", negando fatos históricos e transformando mitos em falsas verdades, para justificar a ocupação da Palestina e expulsar seu povo.

Isso resultou na criação de entidade anômala: Israel se define como Estado judeu democrático, o que é falso, pois quem discrimina 25% de sua população (não judeus) não é democrático.

Sand indica o rumo da reconciliação e paz na região: rever os mitos de Israel e a ideologia sionista, a exclusividade "racial" e falsidade histórica.

ABDEL LATIF HASAN, palestino naturalizado brasileiro, é médico e conselheiro da Federação das Entidades Palestinas.

Fonte: Folha de S. Paulo - Ilustrada - Sábado, 27 de agosto de 2011 - Pg. E3 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2708201112.htm

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Avaliação mostra que metade dos alunos de 8 anos não aprende o mínimo [Alarmante!!!]

Mariana Mandelli

Prova ABC, feita por 6 mil estudantes das redes pública e privada das capitais, revela que 44% leem mal, 46% escrevem errado e 57% têm sérias dificuldades em matemática. 'Estamos produzindo crianças escolarizadas que são analfabetas', diz especialista

Metade das crianças brasileiras que concluíram o 3.º ano (antiga 2.ª série) do ensino fundamental em escolas públicas e privadas não aprendeu os conteúdos esperados para esse nível de ensino. Cerca de 44% dos alunos não têm os conhecimentos necessários em leitura; 46,6%, em escrita; e 57%, em matemática.

Isso significa que, aos 8 anos, elas não entendem para que serve a pontuação ou o humor expresso em um texto; não sabem ler horas e minutos em um relógio digital ou calcular operações envolvendo intervalos de tempo; não identificam um polígono nem reconhecem centímetros como medida de comprimento.

"Esse panorama mostra que a exclusão na educação, que deveria servir como um mecanismo compensatório das diferenças socioeconômicas, começa desde cedo", afirma Priscila Cruz, diretora executiva do Todos Pela Educação. "A grande desigualdade que tende a se agravar no ensino médio já se faz presente nos primeiros anos do fundamental. Isso é visível nas diferenças entre as regiões do País."

Os resultados descritos são da Prova ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização) e foram divulgados ontem. O exame, conforme o Estado adiantou em dezembro, é uma nova avaliação nacional, organizada pelo Todos Pela Educação, Instituto Paulo Montenegro/Ibope, Fundação Cesgranrio e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). É a primeira vez que são divulgados dados do nível de alfabetização das crianças ao final do ciclo.

A prova foi aplicada no começo deste ano para 6 mil alunos de 250 escolas, apenas das capitais. Somente uma turma por unidade foi sorteada para participar e cada aluno resolveu 20 questões de múltipla escolha de leitura ou de matemática. Todos fizeram a redação, que teve como proposta escrever uma carta a um amigo contando sobre as férias.

Os resultados, divulgados por regiões, estão nas escalas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) para leitura e matemática. O nível de 175 pontos foi estipulado como a pontuação que representa que o aluno aprendeu os conteúdos exigidos para a série.

Disparidades
Os dados da Prova ABC mostram a distância entre o sistema público e o privado e, também, as diferenças bruscas existentes entre as regiões do País. Em algumas, menos de um terço dos estudantes aprendeu o mínimo. É o caso da Região Norte, onde apenas 21,9% dos alunos das escolas estaduais e municipais cumpriram a expectativa de aprendizado em matemática. No Nordeste, essa taxa é de 25,2% para a disciplina e de 21,3% em escrita na rede pública.

"No caso de matemática, que tem a situação mais grave, mesmo a taxa total da Região Sul, que é a melhor, é baixa: 55% dos alunos aprenderam os conteúdos previstos", exemplifica Ruben Klein, consultor da Cesgranrio.

Ele destaca que mesmo entre as escolas particulares a diferença regional se impõe. Enquanto a rede privada nordestina teve média de 67,7 na prova de escrita - numa escala de 0 a 100, em que o ideal é 75 -, a rede particular do Sudeste alcançou 96,7 e a do Sul, 87,5. A nota do Nordeste indica que os alunos apresentam deficiências na adequação ao tema e ao gênero do texto, na coesão e na coerência e possuem ainda falhas na pontuação e na grafia.

Para João Horta, especialista em avaliações do Inep, os dados podem servir para a formulação de políticas públicas. "A partir do momento que identificamos as dificuldades enfrentadas, podemos gerar metas para tentar reverter essa situação preocupante", afirma ele, que acredita que a educação integral pode ajudar a solucionar o quadro. "Aumentar o número de horas dentro da escola pode minimizar as diferenças, colocando equipes para ajudar os professores nesses momentos adicionais."

Confira as tabelas completas da prova ABC acessando:

Fonte: O Estado de S. Paulo - Vida/Educação - Sexta-feira, 26 de agosto de 2011 - Pg. A18 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,avaliacao-mostra-que-metade-dos-alunos-de-8-anos-nao-aprende-o-minimo,763848,0.htm
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"É quase uma reprodução da desigualdade social do País"

TRÊS PERGUNTAS PARA...
Gladys Rocha [foto], professora da Faculdade de Educação da UFMG

1. Como você vê a grande diferença entre as escolas públicas e privadas?

Essa questão é relacionada ao nível socioeconômico das crianças. A diferença entre os dois sistemas de ensino equivale a dois anos de escolaridade. É quase uma reprodução da desigualdade social do País. Espera-se que, com a obrigatoriedade da matrícula a partir dos 4 anos, a situação melhore.

2. O que pode ser feito em relação às dificuldades que as crianças têm em ler e escrever ao final do ciclo de alfabetização?

Temos dois problemas, a apropriação da alfabetização por si só, o que significa o domínio das habilidades de leitura e escrita; e a consolidação dessa alfabetização, que infere que, após ser alfabetizado, o aluno seja capaz de ampliar essas habilidades aprendidas. Não basta saber ler e escrever.

3. A educação deve ser uma política compensatória de desigualdades socioeconômicas?

Temos um problema estrutural e histórico - isso é fato. Mas não acredito que a escola consiga compensar as mazelas sociais. É claro que ela tem uma função social indiscutível e funciona como um fator de mobilidade social, mas não acredito que ela, sozinha, dê conta de tudo isso. Para solucionar esse quadro, dependemos de um conjunto de fatores que passam, é claro, pela questão do ensino. Mas a responsabilidade também é da família e do poder público. As crianças estão tendo o seu direito de aprender afetado. Estamos produzindo crianças escolarizadas que são analfabetas.

Marianna Mandelli

Fonte: O Estado de S. Paulo - Vida/Educação - Sexta-feira, 26 de agosto de 2011 - Pg. A18 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,e-quase-uma-reproducao-da-desigualdade-social-do-pais,764029,0.htm

As cidades: problema ou solução?


MOISÉS NAÍM 

As maiores cidades latino-americanas poderiam ser motor de desenvolvimento, 
mas ainda não o são


Dentro de alguns meses vai nascer um bebê histórico. Será o 7.000.000.000º habitante do planeta. E provavelmente nascerá em uma cidade, já que hoje mais de metade da população mundial vive em cidades, algo que também é novo.

Em 2008 o número de habitantes urbanos superou a população rural pela primeira vez.

Esse processo de urbanização vem sendo muito rápido. De acordo com a ONU, a população urbana passou de 13% do total mundial em 1900 (220 milhões de pessoas) para 29% (732 milhões) em 1950, saltando em seguida para 49% (3,2 bilhões) em 2005. Até 2030, estima-se que alcance 60% (4,9 bilhões).

A América Latina é campeã do mundo nesse quesito: com 80% de sua população vivendo em cidades, é a região mais urbanizada do planeta. Esta realidade tem implicações econômicas e políticas enormes.

O Instituto Global McKinsey (MGI) acaba de publicar um excelente estudo sobre esse tema. Sua conclusão principal é que as maiores cidades da América Latina poderiam ser um potente motor de desenvolvimento e prosperidade.

Poderiam. Mas não o são, e seu desempenho econômico e social está abaixo do de seus países e de outras cidades do mundo. As cifras do relatório do MGI são impressionantes. Na América Latina há 198 cidades com mais de 200 mil habitantes, em que vivem 260 milhões de pessoas e nas quais se geram 60% de toda a atividade econômica da região, o que equivale ao PIB de Índia e Polônia juntos. Estima-se que em 2025 essas 198 urbes vão gerar um PIB igual ao da Espanha hoje.

Como sabemos, contudo, as grandes cidades latino-americanas estão repletas de problemas: tráfico, criminalidade, deficits, corrupção e o eterno atraso da oferta de serviços públicos, em relação às necessidades de transportes, água, saúde, eletricidade, habitação, etc.

Esses problemas crônicos explicam por que o índice de crescimento econômico das dez cidades maiores vem sendo menor que o de seus países. De acordo com o MGI, desde 1970 os índices de crescimento econômico de São Paulo [foto acima] e Rio de Janeiro vêm caindo, estando hoje inferiores ao crescimento do Brasil.

A Cidade do México também vem apresentando desempenho pior que o das 45 cidades mais populosas do país. Das dez maiores cidades da América Latina, apenas Lima e Monterrey vêm tendo desempenho melhor que seu país.

Em vista da velocidade com que se movem as variáveis associadas à urbanização, é urgente agir para que as grandes cidades não se transformem em uma carga pesada que afunde seus países.

Os desafios são muitos, e o MGI agrupa as soluções em quatro grandes categorias:

  • elevar o desempenho econômico das grandes cidades
  • melhorar a qualidade de vida de seus habitantes
  • utilizar recursos naturais de maneira sustentável
  • melhorar suas finanças e a maneira como são governadas

É fácil sorrir cinicamente e pensar que nada disso será possível. Quem sabe. Mas, se não tentarmos, a catástrofe urbana da América Latina poderá anular a possibilidade de os latino-americanos terem um futuro melhor que seu passado.

Tradução de CLARA ALLAIN.

Fonte: Folha de S. Paulo - Mundo - Sexta-feira, 26 de agosto de 2011 - Pg. A14 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2608201110.htm

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Idenfique sinais de estresse e evite que os sintomas se intensifiquem


Conheça as quatro fases do estresse. 
No nível máximo, quando o corpo chega à exaustão, 
o organismo fica enfraquecido e a pessoa debilitada.

Hellen Sacconi
Campinas, SP

Fase 1:
No começo o estresse é apenas um estado de alerta. O corpo dá os primeiros sinais de que algo mudou: os músculos ficam contraídos e aumenta a produção de adrenalina. A pessoa está pronta para o que der e vier, fica alerta para o que se passa ao seu redor. De acordo com a especialista em estresse, Marilda Lipp, essa é a fase positiva, que prepara a pessoa para lidar com qualquer eventualidade.
Só que o efeito positivo do estresse deve durar, no máximo, 24 horas.

Fase 2:
A partir daí, é preciso cuidado para não entrar na fase de resistência. É quando mesmo depois de dormir uma noite inteira, ao acordar, a pessoa se sente cansada e a memória fica comprometida. “Esquecer de fazer uma ligação, esquecer onde colocou a chave. São esquecimentos bobos do dia a dia. É como se a vida tivesse pesando muito”, explica a especialista.
A evolução do estresse não tem um prazo definido, mas as duas últimas etapas são as mais perigosas.

Fase 3:
A terceira fase é chamada de quase exaustão. Entre os sintomas estão: irritabilidade, gastrite, oscilação da pressão arterial, alteração da glicemia, queda de cabelo, ansiedade e depressão.
Até identificar que estava neste nível do estresse, qualquer barulho irritava a biomédica Loreta Pereira França. “Já fui parar duas vezes no pronto socorro com aumento de pressão repentina, de ter que ficar dois dias em repouso. É por isso que você precisa de ajuda”, relata Loreta. Ela toma remédios para controlar a ansiedade e sabe que sem o tratamento, poderia chegar ao último estágio.

Fase 4:
Segundo a especialista em estresse, a fase da exaustão pode levar até a morte. A pessoa pode ter um enfarte, um derrame cerebral ou um câncer. “Logicamente não é o estresse que causa essas doenças, mas o estresse enfraquece o organismo e debilita a pessoa de tal maneira que outras doenças, que já estiverem geneticamente programadas, começam a ocorrer”, alerta Marilda.

Cada pessoa reage de uma maneira às fases do estresse. Por isso, antes de ficar doente, é importante colocar na rotina um tempo para a família, cuidados com o corpo e atividades que te façam sentir bem. “Na área emocional você deveria saber seu limite. Saber dizer não e manter atitude positiva frente à vida”, indica a especialista.

Verifique se você tem sintomas de estresse:

Fonte: Centro Psicologico de Controle do Estresse - PUC Campinas
Marilda Lipp, psicóloga e especiliasta em estresse

Assinale os itens que indiquem como se sente neste momento:
1. Ombros levantados
2. Dor ou tensão nas costas
3. Aperto de mandíbula
4. Tensão ou dor na nuca
5. Hiperacidez estomacal (azia)
6. Irritabilidade excessiva
7. Boca seca
8. Taquicardia, ou coração batendo rápido demais
9. Suor excessivo
10. Mãos ou pés frios
11. Respiração ofegante
12. Desorganizado, não sabendo onde colocou as coisas.

Verifique o significado de sua pontuação:

Se não assinalou nenhum:
Parabéns, seu corpo está em pleno funcionamento no que se refere ao estresse.

Se assinalou de 1 a 3:
A vida pode estar um pouco estressante para você. Avalie o que está ocorrendo. Veja o que está exigindo tanto de sua resistência. Pode ser o mundo lá fora ou pode ser você mesmo. Fortaleça o seu organismo.

Se assinalou de 4 a 8:
Há sinais de que seu nível de estresse está alto e algo está exigindo demais seu organismo. Pode estar chegando no seu limite. Considere uma mudança de estilo de vida e de hábitos. Analise em que seu próprio modo de ser pode estar contribuindo para a tensão que está sentindo.

Se assinalou mais do que 8:
Seu nível de estresse parece estar altíssimo. Seria bom consultar um psicólogo especialista em estresse para fazer um diagnóstico. Sem dúvida, você tem fontes de estresse representadas pelo mundo ao seu redor (pode ser família, ocupação, sociedade, etc) e fontes internas ( seu modo de pensar, de sentir e de ser) com as quais precisa aprender a lidar.

Fonte: GLOBO.COM - Jornal Hoje - Edição do dia 24/08/2011 - 12h10 - Atualizado às 15h09 - Internet: http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2011/08/idenfique-sinais-de-estresse-e-evite-que-os-sintomas-se-intensifiquem.html

Cai percentual de Católicos e Evangélicos estacionam - IBGE

Queda em números de católicos atinge todas as classes

ANTÔNIO GOIS
DO RIO

De 2003 a 2009, a queda na proporção de brasileiros que se dizem católicos, de 74% para 68%, ocorreu em todas as classes sociais. Ao mesmo tempo, aumentou o percentual dos sem religião em todos os grupos de renda.

Esses são dados de um estudo divulgado ontem pelo economista Marcelo Neri [foto ao lado], da Fundação Getúlio Vargas, feito a partir da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Pelas contas de Neri, houve também uma diminuição no ritmo de crescimento dos evangélicos pentecostais de igrejas como Assembleia de Deus, Universal do Reino de Deus ou Congregação Cristã do Brasil. No período analisado, a proporção de pentecostais variou de 12,5% para 12,8% no total da população.

A tendência da década passada só será mais bem conhecida quando o IBGE divulgar os dados do Censo de 2010 sobre religião. Para Neri, porém, a POF indica que os pentecostais, que na década de 90 praticamente dobraram de proporção, podem estar perdendo fôlego.

Segundo o economista, uma possível explicação para esse crescimento menor é o fato de o período entre 2003 e 2009 ter sido marcado por forte crescimento na renda, sobretudo dos mais pobres.

"Em pesquisas anteriores, nós verificamos que os pentecostais cresciam principalmente em setores onde havia maior desemprego e menor renda. Como este período de 2003 a 2009 foi de crescimento a favor dos pobres, isto pode ter influenciado este crescimento menor", afirma.

Ao fazer a divisão por classes, o estudo da FGV mostra que os pentecostais estão mais concentrados nas classes C, D e E, com proporções que variam de 13% a 15%.

Nas classes A e B, de renda domiciliar maior que R$ 6.745, a proporção deste grupo religioso cai para 6%. O inverso ocorre com os espíritas kardecistas. Nas classes D e E, com renda domiciliar inferior a R$ 1.200, eles são menos de 1%. No topo da distribuição de renda (classes A e B), representam 6% do total.

Confira a distribuição das religiões no Brasil por classes sociais, acessando interessante infográfico:

Fonte: Folha de S. Paulo - Poder - Quarta-feira, 24 de agosto de 2011 - Pg. A10 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po2408201112.htm
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ANÁLISE
Os sem religião avançam nos extremos da pirâmide social

HÉLIO SCHWARTSMAN
ARTICULISTA DA FOLHA

Um dos grupos que mais têm crescido nas séries do IBGE é o dos sem religião. Nos anos 60 era uma categoria residual, com apenas 0,5% da população. Mas, de lá para cá, experimentou um crescimento bastante significativo.

Pelos dados da POF (é metodologicamente temerário misturá-los aos do Censo), os sem religião somavam 5,1% em 2003 e 6,7% em 2009. São quase 13 milhões de pessoas.

Embora o grupo seja em geral identificado com ateus e agnósticos, trata-se de uma rubrica bem mais ampla, que inclui quem migra de uma fé para outra ou criou seu próprio "blend" de crenças. Em comum, têm apenas o fato de não pertencer a nenhuma instituição e não ter medo de dizê-lo em alto e bom som.

O trabalho de Marcelo Neri reforça a tese da heterogeneidade dos sem religião ao mostrar que eles crescem nos extremos do espectro social.

Entre os brasileiros com menos de três anos de instrução, os irreligiosos são 7,3% 
(contra 6,7% na população). 
Já entre as pessoas com 12 ou mais anos de estudo, o número vai a 7,5%. O detalhe instigante é que, quando se consideram apenas mestres e doutores, a cifra salta para surpreendentes 17,4%.

Essa distribuição é compatível com um perfil de sem religião no qual ateus e agnósticos preponderariam nas camadas mais instruídas e pessoas com uma religiosidade indefinida e desinstitucionalizada reforçariam os estratos de menor escolaridade.

A correlação entre hiperinstrução e ateísmo está bem documentada em diversos trabalhos de diferentes países. Já o maior trânsito religioso é mais comum entre os menos escolarizados.

Até onde os sem religião podem crescer é uma incógnita. Se o Brasil seguir um padrão próximo ao dos EUA, é razoável esperar que, nos próximos anos, o número se aproxime dos 15%. Se o modelo for mais próximo ao da Europa ocidental, aí as cifras podem exceder os 40%.

Fonte: Folha de S. Paulo - Poder - Quarta-feira, 24 de agosto de 2011 - Pg. A10 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po2408201114.htm