«Daqui a alguns anos estarás mais arrependido pelas coisas que não fizeste do que pelas que fizeste. Solta as amarras! Afasta-se do porto seguro! Agarra o vento em suas velas! Explora! Sonha! Descubra!»

(Mark Twain [1835-1910] – escritor e humorista norte-americano)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

''O comunismo nos roubou a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã.''

Entrevista com Papa Francisco

Franca Giansoldati
Il Messaggero (Roma – Itália)
29-06-2014 
Papa Francisco
O encontro é em Santa Marta, à tarde. Uma rápida verificação, e um guarda suíço me faz sentar em uma pequena sala de estar.

Seis poltroninhas verdes de veludo um pouco desgastado, uma mesinha de madeira, um televisor daqueles antigos, com a "barriga". Tudo em perfeita ordem, o mármore polido lucidamente, alguns quadros. Poderia ser uma sala de espera paroquial, uma daquelas a que se vai para pedir um conselho ou para fazer os documentos de casamento.

Francisco entra sorrindo: "Finalmente! Eu a leio e agora a conheço". Eu coro. "Eu, ao contrário, o conheço e agora o escuto". Ele ri. Ri com gosto, o papa, como fará outras vezes no decorrer de mais de uma hora de conversa livre.

Roma, com os seus males de megalópole, a época de mudanças que enfraquecem a política; o esforço para defender o bem comum; a reapropriação por parte da Igreja dos temas da pobreza e da partilha ("Marx não inventou nada"); a desolação diante da degradação das periferias da alma, escorregadio abismo moral em que se abusa da infância, tolera-se a mendicância, o trabalho infantil e, não por último, a exploração de meninas prostitutas com menos de 15 anos. E os clientes que poderiam ser seus avós; "pedófilos": o papa os define justamente assim.

Francisco fala, explica, se interrompe, retorna. Paixão, doçura, ironia. Um fio de voz, parecem ninar as palavras. As mãos acompanham o raciocínio, entrelaça-as, solta-as, parecem desenhar geometrias invisíveis no ar. Está em ótima forma, apesar dos rumores sobre a sua saúde.

Eis a entrevista.

É a hora do jogo entre a Itália e o Uruguai. Santo Padre, por quem o senhor torce?
Papa Francisco: Ah, eu, por ninguém, de verdade. Prometi à presidente do Brasil (Dilma Rousseff) que me manteria neutro.

Comecemos por Roma?
Papa Francisco: Mas você sabe que eu não conheço Roma? Pense que eu vi a Capela Sistina pela primeira vez quando participei do conclave que elegeu Bento XVI (2005). Nunca estive nem mesmo nos museus. O fato é que, como cardeal, eu não vinha muitas vezes. Eu conheço Santa Maria Maior, porque sempre ia lá. E depois São Lourenço Fora dos Muros, onde eu fui para crismas, quando estava o padre Giacomo Tantardini. Obviamente, conheço a Praça Navona, porque sempre me hospedei na Via della Scrofa, lá atrás.

Há algo de romano no argentino Bergoglio?
Papa Francisco: Pouco ou nada. Eu sou mais piemontês, são essas as raízes da minha família de origem. No entanto, estou começando a me sentir romano. Pretendo ir visitar o território, as paróquias. Estou descobrindo pouco a pouco esta cidade. É uma metrópole belíssima, única, com os problemas das grandes metrópoles. Uma cidade pequena possui uma estrutura quase unívoca; uma metrópole, ao contrário, inclui sete ou oito cidades imaginárias, sobrepostas, em vários níveis. Também níveis culturais. Penso, por exemplo, nas tribos urbanas dos jovens. É assim em todas as metrópoles. Em novembro, faremos em Barcelona um congresso dedicado justamente à pastoral das metrópoles. Na Argentina, foram promovidos intercâmbios com o México. Descobrem-se tantas culturas cruzadas, mas não tanto por causa das migrações, mas porque se trata de territórios culturais transversais, feitos de pertencimentos próprios. Cidades nas cidades. A Igreja deve saber responder também a esse fenômeno.

Por que, desde o início, o senhor quis enfatizar tanto a função de bispo de Roma?
Papa Francisco: O primeiro serviço de Francisco é este: ser o bispo de Roma. Ele só tem todos os títulos do papa, Pastor universal, Vigário de Cristo etc., porque é bispo de Roma. É a escolha primeira. A consequência do primado de Pedro. Se, amanhã, o papa quisesse ser bispo de Tivoli, é claro que me expulsariam.

Há 40 anos, com Paulo VI, o Vicariato promoveu o congresso sobre os males de Roma. Emergiu o quadro de uma cidade em que aqueles que tinham muito levavam a melhor, e aqueles que tinha, pouco, a pior. Hoje, na sua opinião, quais são os males desta cidade?
Papa Francisco: São os das metrópoles, como Buenos Aires. Quem aumenta os benefícios, e quem é cada vez mais pobre. Eu não estava ciente do congresso sobre os males de Roma. São questões muito romanas, e eu, na época, tinha 38 anos. Sou o primeiro papa que não participou do Concílio e o primeiro que estudou teologia no pós-Concílio, e nesse tempo, para nós, a grande luz era Paulo VI. Para mim, a Evangelii nuntiandi [exortação apostólica de Paulo VI, publicada em 08/12/1975 - para lê-la, clique aqui] continua sendo um documento pastoral nunca superado.

Existe uma hierarquia de valores a ser respeitada na gestão da coisa pública?
Papa Francisco: Certamente. Proteger sempre o bem comum. A vocação para qualquer político é essa. Um conceito amplo que inclui, por exemplo, a proteção da vida humana, a sua dignidade. Paulo VI costumava dizer que a missão da política continua sendo uma das formas mais altas de caridade. Hoje, o problema da política – eu não falo só da Itália, mas de todos os países, o problema é mundial – é que ela se desvalorizou, arruinada pela corrupção, pelo fenômeno dos subornos. Lembro-me de um documento que os bispos franceses publicaram há 15 anos. Era uma carta pastoral que se intitulava "Reabilitar a política" [para ler esse documento no original, clique aqui]e abordava justamente esse assunto. Se não houver serviço na base, não se pode entender nem mesmo a identidade da política.

O senhor disse que a corrupção tem cheiro de podridão. Também disse que a corrupção social é o fruto do coração doente e não só de condições externas. Não haveria corrupção sem corações corruptos. O corrupto não tem amigos, mas idiotas úteis. Pode nos explicar isso melhor?
Papa Francisco: Eu falei dois dias seguidos desse assunto, porque eu comentava a leitura da vinha de Nabot. Gosto de falar sobre as leituras do dia. No primeiro dia, abordei a fenomenologia da corrupção; no segundo dia, de como acabam os corruptos. O corrupto não tem amigos, mas apenas cúmplices.

De acordo com o senhor, fala-se muito da corrupção porque os meios de comunicação insistem demais no assunto ou porque efetivamente se trata de um mal endêmico e grave?
Papa Francisco: Não, infelizmente, é um fenômeno mundial. Há chefes de Estado na prisão justamente por causa disso. Eu me interroguei muito e cheguei à conclusão de que muitos males crescem principalmente durante as mudanças epocais. Estamos vivendo não tanto uma época de mudanças, mas uma mudança de época. E, portanto, se trata de uma mudança de cultura. Justamente nesta fase, emergem coisas desse tipo. A mudança de época alimenta a decadência moral, não só na política, mas também na vida financeira ou social.

Os cristãos também não parecem brilhar por testemunho...
Papa Francisco: É o ambiente que facilita a corrupção. Não digo que todos sejam corruptos, mas acho que é difícil permanecer honesto na política. Falo sobre todos os lugares, não da Itália. Eu também penso em outros casos. Às vezes há pessoas que gostariam de deixar as coisas claras, mas depois se encontram em dificuldades, e é como se fossem fagocitadas por um fenômeno endêmico, em vários níveis, transversal. Não porque seja a natureza da política, mas porque, em uma mudança de época, os estímulos em direção a um certo desvio moral se tornam mais fortes.

O senhor se assusta mais com a pobreza moral ou material de uma cidade?
Papa Francisco: Ambas me assustam. Por exemplo, eu posso ajudar um faminto para que não tenha mais fome, mas, se ele perdeu o trabalho e não encontra mais um emprego, isso tem a ver com a outra pobreza. Ele não tem mais dignidade. Talvez ele possa ir à Cáritas e levar para casa uma cesta básica, mas experimenta uma pobreza gravíssima que arruína o coração. Um bispo auxiliar de Roma me contou que muitas pessoas vão ao restaurante popular e, às escondidas, cheias de vergonha, levam comida para casa. A sua dignidade progressivamente se empobreceu, vivem em um estado de prostração.

Pelas ruas consulares de Roma, veem-se menininhas de apenas 14 anos muitas vezes forçadas à se prostituir na indiferença geral, enquanto, no metrô, assiste-se à mendicância das crianças. A Igreja ainda é fermento? O senhor se sente impotente como bispo diante dessa degradação moral?
Papa Francisco: Eu sinto dor. Sinto uma enorme dor. A exploração das crianças me faz sofrer. Na Argentina também é a mesma coisa. Para alguns trabalhos manuais, são usadas as crianças porque têm as mãos menores. Mas as crianças também são exploradas sexualmente em hotéis. Uma vez, avisaram-me que, em uma rua de Buenos Aires, havia menininhas prostitutas de 12 anos. Eu me informei, e efetivamente era assim. Isso me fez mal. Mas ainda mais por ver que eram carros de alta cilindrada dirigidos por idosos que paravam. Podiam ser seus avós. Faziam com que a menina subisse e lhe pagavam 15 pesos, que depois serviam para comprar os restos da droga, o "pacote". Para mim, essas pessoas que fazem isso às meninas são pedófilos. Isso também acontece em Roma. A Cidade Eterna, que deveria ser um farol no mundo, é espelho da degradação moral da sociedade. Acho que são problemas que são resolvidos com uma boa política social.

O que a política pode fazer?
Papa Francisco: Responder de modo claro. Por exemplo, com serviços sociais que levam as famílias a entender, acompanhando-as para sair de situações pesadas. O fenômeno indica uma deficiência de serviço social na sociedade.

Mas a Igreja está trabalhando muito...
Papa Francisco: E deve continuar a fazê-lo. Ela precisa ajudar as famílias em dificuldades, um trabalho em saída que impõe o esforço comum.

Em Roma, cada vez mais jovens não vão à igreja, não batizam os filhos, não sabem nem mesmo fazer o sinal da cruz. Que estratégia é preciso para inverter essta tendência?
Papa Francisco: A Igreja deve sair pelas ruas, buscar as pessoas, ir às casas, visitar as famílias, ir às periferias. Não ser uma Igreja que só recebe, mas que oferece.

E os párocos não devem ficar penteando as ovelhas...
Papa Francisco: (Risos) Obviamente. Estamos em um momento de missão há cerca de uma década. Devemos insistir.

O senhor se preocupa com a cultura da desnatalidade na Itália?
Papa Francisco: Acho que se deve trabalhar mais pelo bem comum da infância. Formar uma família é um compromisso. Às vezes, o salário não é suficiente, não se chega ao fim do mês. Tem-se medo de perder o trabalho ou de não poder mais pagar o aluguel. A política social não ajuda. A Itália tem uma taxa baixíssima de natalidade. Na Espanha é o mesmo. A França vai um pouco melhor, mas ela também é baixa. É como se a Europa tivesse se cansado de ser mãe, preferindo ser avó. Muito depende da crise econômica e não só de um desvio cultural marcado pelo egoísmo e pelo hedonismo. Outro dia, eu lia uma estatística sobre os critérios para as despesas da população em nível mundial. Depois da alimentação, do vestuário e dos medicamentos, três itens necessários, seguem a cosmética e as despesas com animais de estimação.

Os animais importam mais do que as crianças?
Papa Francisco: Trata-se de outro fenômeno de degradação cultural. Isso porque a relação afetiva com os animais é mais fácil, mais programável. Um animal não é livre, enquanto ter um filho é uma coisa complexa.

O Evangelho fala mais aos pobres ou aos ricos para convertê-los?
Papa Francisco: A pobreza está no centro do Evangelho. Não se pode entender o Evangelho sem entender a pobreza real, levando em conta que também existe uma pobreza belíssima do espírito: ser pobre diante de Deus, porque Deus enche você. O Evangelho se volta indistintamente aos pobres e aos ricos. Ele fala tanto de pobreza quanto de riqueza. De fato, não condena os ricos; no máximo as riquezas, quando se tornam objetos idolatrados. O deus dinheiro, o bezerro de ouro.

O senhor passa a imagem de ser um papa comunista, pauperista, populista. A revista The Economist, que lhe dedicou uma capa, afirma que o senhor fala como Lênin. O senhor se reconhece em tudo isso?
Papa Francisco: Eu digo apenas que os comunistas nos roubaram a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã. A pobreza está no centro do Evangelho. Os pobres estão no centro do Evangelho. Tomemos Mateus 25, o protocolo pelo do qual seremos julgados: tive fome, tive sede, estive na prisão, estava doente, nu. Ou olhemos para as Bem-aventuranças, outra bandeira. Os comunistas dizem que tudo isso é comunista. Sim, como não, 20 séculos depois... Então, quando eles falam, se poderia dizer a eles: mas vocês são cristãos! (risos)

Se o senhor me permite uma crítica...
Papa Francisco: Claro...

O senhor talvez fala pouco das mulheres e, quando fala, aborda o assunto apenas do ponto de vista da maternidade, da mulher esposa, da mulher mãe etc. Porém, as mulheres já lideram Estados, multinacionais, exércitos. Na Igreja, na sua opinião, que lugar as mulheres ocupam?
Papa Francisco: As mulheres são a coisa mais bela que Deus fez. A Igreja é mulher. Igreja é uma palavra feminina. Não se pode fazer teologia sem essa feminilidade. Sobre isso, você tem razão, não se fala o suficiente. Estou de acordo que é preciso trabalhar mais sobre a teologia da mulher. Eu já disse isso, e se está trabalhando nesse sentido.

O senhor não entrevê uma certa misoginia de fundo?
Papa Francisco: O fato é que a mulher foi tirada de uma costela... (ri com gosto). Estou brincando, é uma piada. Estou de acordo que se deve aprofundar mais a questão feminina, senão não se pode entender a própria Igreja.

Podemos esperar do senhor decisões históricas, tipo uma mulher como chefe de dicastério, não digo do clero...
Papa Francisco: (Risos) Bem, muitas vezes os padres acabam sob a autoridade das perpétuas [mulher que atua como secretária da Casa Paroquial e/ou Secretaria da paróquia] ...

Em agosto, o senhor vai para a Coreia. É a porta para a China? O senhor está apontando para a Ásia?
Papa Francisco: Vou ir à Ásia duas vezes em seis meses. À Coreia, em agosto, para encontrar os jovens asiáticos. Em janeiro, ao Sri Lanka e às Filipinas. A Igreja na Ásia é uma promessa. A Coreia representa muito, tem às suas costas uma história belíssima, por dois séculos não teve padres, e o catolicismo avançou graças aos leigos. Também houve mártires. Quanto à China, trata-se de um desafio cultural grande. Grandíssimo. E depois há o exemplo de Matteo Ricci, que fez tanto bem...

Aonde está indo a Igreja de Bergoglio?
Papa Francisco: Graças a Deus, eu não tenho nenhuma Igreja, eu sigo a Cristo. Não fundei nada. Do ponto de vista do estilo, não mudei de como eu era em Buenos Aires. Sim, talvez alguma coisinha, porque se deve, mas mudar na minha idade teria sido ridículo. Sobre o programa, ao contrário, eu sigo aquilo que os cardeais pediram durante as congregações gerais antes do conclave. Eu vou nessa direção. O Conselho dos oito cardeais, um organismo externo, nasce daí. Havia sido pedido para que ajudasse a reformar a Cúria. O que, aliás, não é fácil, porque se dá um passo, mas depois surge que é preciso fazer isto ou aquilo, e, se antes havia um dicastério, depois se tornam quatro. As minhas decisões são o resultado das reuniões pré-conclave. Não fiz nada sozinho.
Franca Giansoldati
Jornalista que entrevistou o Papa Francisco

Uma abordagem democrática...
Papa Francisco: Foram decisões dos cardeais. Eu não sei se é uma abordagem democrática, eu diria mais sinodal, mesmo que a palavra não seja apropriada para os cardeais.

O que o senhor deseja aos romanos pelos patronos São Pedro e São Paulo?
Papa Francisco: Que continuem sendo bravos. São tão simpáticos. Eu vejo isso nas audiências e quando vou às paróquias. Eu lhes desejo que não percam a alegria, a esperança, a confiança, apesar das dificuldades. O romanaccio [dialeto romano] também é bonito.

Wojtyla tinha aprendido a dizer: Volemose bene, damose da fa'. O senhor aprendeu algumas frases em romanesco?
Papa Francisco: Por enquanto, pouco. Campa e fa' campa'! (risos).

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 30 de junho de 2014 – Internet: clique aqui.

Turismo sexual: Vergonha Mundial

Luis Miguel Modino
Religión Digital
27-06-2014

Um dos elementos negativos que está relacionado com muitos megaeventos que ocorrem em todo o planeta é o turismo sexual. Neste Mundial, não é diferente, o que foi constatado por diferentes meios de comunicação, durante esses dias. Em todas as cidades sedes está sendo comum que, junto com o desembarque de seguidores das diferentes seleções, esta seja uma das principais demandas.

Pensando em conseguir dinheiro rápido entre os que são vistos como endinheirados visitantes, muitas mulheres, a maioria jovens e, inclusive, pertencentes às classes mais castigadas entre a população brasileira, chegam de diferentes lugares do país para oferecer este tipo de serviço para pessoas sem escrúpulos, que, longe de suas casas, sentem-se livres para satisfazer seus desejos carnais.

O governo brasileiro lançou uma campanha coincidindo com o Mundial, mas de fato não deixa de ser um desejo de manter as aparências frente a uma realidade que é comum nesse país, que movimenta muito dinheiro e com a qual estão envolvidas pessoas de todos os âmbitos sociais, inclusive daqueles que deveriam cuidar para que isso não ocorresse.

Neste sentido, cabe destacar as denúncias realizadas, nos últimos anos, pelo bispo espanhol dom José Luis Azcona, da Prelazia de Marajó, na foz do rio Amazonas, que defende que não há vontade política para solucionar este problema do tráfico de pessoas para o comércio sexual, o que o levou a ser ameaçado de morte.

A Igreja Católica brasileira tentou ajudar a sociedade a se conscientizar sobre este problema. De fato, foi um dos pontos abordados na Campanha da Fraternidade deste ano, e também faz parte do material de conscientização que foi elaborado para o Mundial.
Porém, devemos constatar com dor que esta não é uma preocupação para a sociedade brasileira, que vê este problema como uma coisa a mais entre os muitos elementos negativos que estão presentes dentro do espectro social, sem tomar uma providência sobre assunto para que as coisas mudem.

Cabe destacar, como exemplo, o que aconteceu na véspera da abertura do Mundial, quando a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, junto com outras instituições, promoveu uma passeata em Brasília para conscientizar sobre o tráfico de pessoas, durante este evento, e que contou com uma escassa participação, poderíamos dizer insignificante para uma grande cidade como é a capital do país.

Diante deste tipo de situação, questiona-se até onde chega a capacidade humana para se aproveitar de quem, por diferentes motivos, passa por isso. Este, como muitos outros, é um problema que dificilmente será resolvido, caso a sociedade como um todo não busque soluções comuns. Que em pleno século XXI tenha pessoas que se aproveitam da necessidade alheia para, amparados no anonimato, satisfazer seus desejos, sem se importar com as consequências, não deixa de ser preocupante e indignante.

Por fim, isto faz parte do todo que envolve o Mundial, que deseja que quem gasta o dinheiro para enriquecer a FIFA possa voltar “satisfeito”, senão com o resultado de sua seleção, sim com outros tipos de coisas, em relação às quais, mais do que se gabar com os amigos, deveria sentir vergonha, pois, afinal, as vítimas de todo este emaranhado são pessoas que estão vendendo o seu corpo, sendo, muitas vezes, obrigadas ou como último recurso para levar um pedaço de pão à boca.

Traduzido do espanhol pelo Cepat.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 30 de junho de 2014 – Internet: clique aqui.

ONDE ESTÁ O "NÓ" DA VIOLÊNCIA NO BRASIL?

SOB VELHA DIREÇÃO

Fernando Luís Schüler

Acredite, a violência no País diminuiu - o grande nó é o sistema prisional
Cadeia. 70% dos que deixam nosso sistema penitenciário voltam ao crime

A violência é um fenômeno em declínio mundo afora. Steven Pinker nos oferece, em seu monumental estudo Os Anjos Bons de nossa Natureza, uma avalanche de dados demonstrando esse fato. No entanto, quando ligamos a TV somos bombardeados com imagens que vão do linchamento de uma mulher no Guarujá à barbárie do Isis no norte do Iraque. Quando compramos uma revista nacional, bem editada, com a capa “Brasil, recorde de homicídios”, parece não haver dúvida de que vivemos uma época de explosão de violência.

Não é verdade. Nos EUA, por exemplo, a taxa de homicídios caiu 42% desde o início dos anos 1990. No Canadá, a queda foi de 35%. Trata-se de uma tendência global. No Brasil, década a década registra-se uma redução no ritmo de expansão da taxa de homicídios. Ela dobrou nos anos 1980. Na década de 1990, o crescimento foi de 20%, caindo para pouco mais de 2% na primeira década do século.

Isso não nos absolve dos nossos pecados. Ostentamos o nada honroso título de campeões mundiais de homicídios, em números absolutos. Nossa média é de 29 assassinatos para 100 mil habitantes. Há uma Belíndia escondida nesses números. O Brasil do Rio Grande do Sul, São Paulo e Santa Catarina apresenta taxas abaixo de 20 homicídios por 100 mil habitantes, para mais de 60 no Brasil de Alagoas.

Em parte, isso ocorre porque somos uma sociedade tolerante com a violênciaDesde Hélio Oiticica, nos anos 1960, com seu poema Seja Marginal, Seja Herói, ode a Cara de Cavalo, bandido e seu amigo, até Caetano Veloso, vestido de black bloc, nossa cultura tem caído no logro de encontrar algum charme na violência. Se ela for praticada sob o manto de algum discurso ideológico, então, o sujeito se arrisca a virar líder de opinião, articulista de jornal ou capa de revista. Black Blocs, no Brasil, têm direito a reunião com ministro de Estado.

Há duas variáveis que podem ajudar a compreender a aceleração e, logo, a redução no ritmo de crescimento da violência no País. Uma delas é a expansão da população urbana. Em 1970, 56% dos brasileiros viviam nas cidades. Em 1990, esse número saltou para 75%. Vinte anos depois, o senso de 2010 registrou que 84% dos brasileiros vivem no espaço urbano. O ritmo de crescimento da violência acompanhou, de modo geral, a expansão da vida urbana no País - uma vida urbana precária, feita de favelização e exclusão étnica, social e territorial.

A outra variável é demográfica. Os crimes violentos têm maior incidência entre a população jovem, masculina, de menor renda, residente nas periferias urbanas. O ritmo de crescimento dessa população, entre os anos 1960 e 1980, foi assombroso. Em meados dos 1960, a taxa de fecundidade média no Brasil era de seis filhos por mulher. Hoje, é de 1,9. Novamente, temos dois Brasis: um nos anos 1960/80, outro nos anos 1990/2000. Há muitas razões para a mudança: a ação dos programas de saúde da família, a disseminação do planejamento familiar, a mudança do papel da mulher na sociedade, o aumento dos níveis de informação, as taxas de escolarização.

Se queremos apostar em políticas públicas que reduzam a violência, ofereço uma sugestão: fazer uma reforma estrutural em nosso sistema prisional. Pessoas são privadas de liberdade como punição e para que se reeduquem e voltem a viver pacificamente em sociedade. O Estado tem sido sistematicamente incapaz de atender à segunda tarefa. Em 2012, o CNJ divulgou estudo mostrando que 54% dos adolescentes que cumprem medidas de internação reincidem em atos infracionais. No sistema prisional adulto, calcula-se que o porcentual vá a 70%, na média nacional.

Nosso primeiro desafio é reconhecer essa situação e romper com alguns preconceitos. Nos anos 1990, nossos políticos descobriram que o Estado era incapaz de administrar, de modo eficiente, empresas como a Vale do Rio Doce, Embraer ou a CSN. Depois, descobrimos que os hospitais públicos administrados em parceria com o setor privado, como no modelo das Organizações Sociais, em São Paulo, ou na Rede Sara Kubitschek, apresentavam resultados muito superiores às instituições gerenciadas segundo o modelo estatal. Recentemente, descobrimos que também os aeroportos eram mal administrados pelo governo e iniciamos um processo - tardio, é verdade - de concessão de terminais aeroportuários.

Não obstante, continuamos a acreditar que o governo possa ser um bom gestor de unidades prisionais. E o fazemos contra todas as evidências disponíveis. Estudo publicado pelos professores Sandro Cabral e Sérgio Lazzarini, a partir da experiência dos presídios terceirizados no Paraná, no início dos anos 2000, demonstrou a superioridade do modelo de gestão público-privada não apenas no tocante à racionalidade de custos, mas também aos aspectos de segurança, saúde e ressocialização dos apenados. A variável determinante para a qualidade dos serviços prisionais não é o volume de recursos aportado no sistema, mas o modelo de gestão, o sistema de incentivos, a accountability da gestão por parte dos operadores do sistema. O Brasil tem todos os instrumentos jurídicos, a começar pela legislação das PPPs, e todas as condições de mercado para avançar nessa direção. Por que não o faz? Será o despreparo de nossa liderança pública? A força e o medo das corporações do setor público? A prevalência de uma cultura política que confunde o público com o estatal? Tudo isso junto?

No terreno da justiça juvenil, a situação ainda é pior. Em boa parte do País ainda vigora, na prática, o antigo modelo das Febens. Políticos sugerem a redução da maioridade penal como solução para a violência entre os jovens. Ideia curiosa. Imaginamos que distribuir adolescentes infratores de 16 ou 17 anos pelos nossos presídios, Brasil afora, seria uma boa solução. Dou um pequeno testemunho na direção inversa. Em 2008, participei da implantação de um programa que oferecia meio salário-mínimo, durante um ano, e um programa intensivo de treinamento profissional, para jovens egressos das unidades da Fase (o sucedâneo da Febem), no Rio Grande do Sul. O Tribunal de Contas do Estado publicou estudo mostrando que a reincidência em delitos dos jovens participantes do Programa, em 2012, foi de 9,5%, para 45% de reincidência dos internos não participantes. O caminho parece claro. Bandido bom, no fundo, não é o bandido morto, mas o que consegue mudar de vida. E nem é tão difícil assim ajudar para que isso aconteça.

* Fernando Luís Schüler é curador do projeto Fronteiras do Pensamento.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 29 de junho de 2014 – Pg. D8 – Internet: clique aqui.

A POLÍTICA COMO FIM EM SI MESMA!

AS "CONVICÇÕES" DE DILMA
Presidente Dilma e Gilberto Kassab (líder do PSD - Partido Social Democrático)
Convenção Nacional - Brasília, 25/06/2014

Amanhã [segunda-feira, dia 30/06], último dia estabelecido pela legislação eleitoral para a realização de convenções partidárias destinadas a definir candidatos e deliberar sobre coligações para o pleito de 5 de outubro, estará se encerrando a mais despudorada temporada de compra e venda de minutos e segundos da propaganda eleitoral gratuita, que estará no ar a partir de 19 de agosto, jamais registrada neste país. E à afronta à Nação representada por esse vergonhoso espetáculo soma-se o cinismo de quem tem a responsabilidade maior de zelar pela seriedade na vida pública: "A política que aprendi a praticar ao longo da minha vida desde a minha juventude, que me levou inclusive à prisão, implica em construir relações que sejam baseadas não em conveniências, mas em convicções".

Dilma Rousseff permitiu-se esse cínico rompante ao discursar na convenção nacional do PSD [Partido Social Democrático] que na quarta-feira selou o apoio à sua reeleição. Não explicou a quais "convicções" se referia, mas recomendou a todos que não aceitassem "provocações que buscam baixar o nível do debate, que buscam acirrar o antagonismo". E não deixou de se gabar das "transformações rápidas e profundas" realizadas por seu governo, garantia, no futuro, de "um ciclo ainda mais rápido e duradouro de mudanças".

Esqueceu-se, apenas, de que a divisão da Nação entre "eles" e "nós" e as campanhas de difamação dos adversários fazem parte da obra política do lulopetismo. Esqueceu-se, ainda, de que seu governo é um continuado desastre econômico-financeiro, ditado por atrasada ideologia.

Poucas horas antes, Dilma havia promovido uma transformação rápida e profunda em seu governo ao trocar o titular do Ministério dos Transportes, feudo do PR [Partido da República], por imposição de um aliado importante, o chefão de fato daquele partido, o mensaleiro Valdemar Costa Neto, que enviara seu ultimato diretamente do presídio da Papuda. O ministro defenestrado, César Borges, também é do PR, mas o sentenciado Costa Neto decidiu trocá-lo por entender que ele "não ajudava" o PR. É assim que Dilma governa.

Tanta "convicção" que marcou esses recentes movimentos da campanha eleitoral é o resultado de reunião de que Dilma participou na noite de terça-feira sob o comando de seu criador, com a indispensável presença do marqueteiro oficial do PT. Ouviu e cumpriu a ordem de Lula de que não é hora de contrariar aliados.

Convém repetir o que tem sido reiteradamente afirmado neste espaço: Lula e os petistas não inventaram o fisiologismo político, o toma lá dá cá na composição da base de apoio parlamentar ao governo, o aparelhamento partidário que compromete a eficiência da máquina governamental e tantas outras mazelas que corrompem a vida pública no Brasil. Na verdade, por mais de 20 anos Lula e o PT rangeram os dentes contra esses vícios, prometeram mudar "tudo isso que está aí". Em 2003 chegaram finalmente ao poder e concluíram - aliás, muito rapidamente, como prova o mensalão - que "é impossível" governar sem o apoio dos "picaretas" que, como Lula denunciara dez anos antes, infestam o Congresso. Deu no que deu.

Esse raciocínio da "impossibilidade" só faz sentido quando o pragmatismo se torna um valor fundamental. Os petistas que hoje argumentam que os fins justificam os meios - e por isso podem cultivar a incoerência e o desmando - não consideram que o fim da política é o bem comum. Seu objetivo é a manutenção do poder - e a qualquer custo, material ou moral. Mas isso tem consequências.

Em decorrência do aprimoramento das ancestrais práticas de fisiologismo político a que o PT se vem diligentemente dedicando, a falta de pudor e de coerência, a mistificação, o populismo mais rasteiro, o apego às "boquinhas", tudo, enfim, que há de mais condenável na vida pública ameaça hoje gangrenar irremediavelmente o tecido político do País, tornando o ato fundamental da cidadania, o de votar, cada vez mais um penoso exercício de escolha do menos pior.

Não se pode esperar que Lula & Cia., inebriados com as delícias do poder, reneguem seu ethos. Mas a presidente de todos os brasileiros - que diz ter "convicções" - poderia pelo menos nos poupar do cínico espetáculo que acabamos de presenciar.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Notas & Informações – Domingo, 29 de junho de 2014 – Pg. A3 – Internet: clique aqui.

sábado, 28 de junho de 2014

Solenidade de São Pedro e São Paulo Apóstolos – Ano A – HOMILIA

Evangelho: Mateus 16,13-19

Naquele tempo:
13 Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos:
“Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”.
14 Eles responderam:
“Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; Outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”.
15 Então Jesus lhes perguntou:
“E vós, quem dizeis que eu sou?”.
16 Simão Pedro respondeu:
“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”.
17 Respondendo, Jesus lhe disse:
“Feliz es tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu.
18 Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la.
19 Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

O SERVIÇO DE PEDRO

Jesus conversa com seus discípulos na região de Cesareia de Filipe, não distante das nascentes do rio Jordão. O episódio ocupa um lugar destacado no evangelho de Mateus. Provavelmente, ele deseja que seus leitores não confundam as “igrejas” que estão nascendo de Jesus com as “sinagogas” ou comunidades judaicas onde há toda classe de opiniões sobre ele [Jesus].

A primeira coisa que precisa ser esclarecida é quem está no centro da Igreja. Jesus pergunta-o diretamente aos seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Pedro responde em nome de todos: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Intui que Jesus não é somente o Messias esperado. Ele é “Filho do Deus vivo”. O Deus que é vida, fonte e origem de tudo aquilo que vive. Pedro capta o mistério de Jesus em suas palavras e gestos que trazem saúde, perdão e vida nova às pessoas.

Jesus o elogia: “Feliz és tu... porque isso somente o meu Pai do céu pôde revelar-lhe”. Nenhum ser humano “de carne e osso” pode despertar essa fé em Jesus. Essas coisas as revela o Pai aos simples, não aos sábios e entendidos. Pedro pertence a essa categoria de seguidores simples de Jesus que vivem com o coração aberto ao Pai. Essa é a grandeza de Pedro e de todo verdadeiro crente.

Em seguida, Jesus faz uma promessa solene: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Não é uma pessoa qualquer que constrói a Igreja. É Jesus, mesmo, quem a edifica. É ele quem convida seus seguidores e reúne-os em torno de sua pessoa. A Igreja é dele. Nasce dele.

No entanto, Jesus não é um insensato que constrói sobre a areia. Pedro será “rocha” nessa Igreja. Não pela solidez e firmeza de seu temperamento, pois, ainda que honesto e apaixonado, também é inconstante e contraditório. Sua força provém de sua fé simples em Jesus. Pedro é o protótipo dos crentes e impulsionador da fé verdadeira em Jesus.

Este é o grande serviço de Pedro e seus sucessores à Igreja de Jesus. Pedro não é o “Filho do Deus vivo”, mas “filho de Jonas”. A Igreja não é sua, mas de Jesus. Somente Jesus ocupa o centro. Somente ele a edifica com seu Espírito. Porém, Pedro convida a vivermos abertos à revelação do Pai, a não esquecer Jesus e a centrar sua Igreja na verdadeira fé.
ENCONTRAR-NOS COM JESUS

Os cristãos têm esquecido, com demasiada frequência, que a fé não consiste em crer em algo, mas em crer em Alguém. Não se trata de aderirmos, fielmente, a um credo e, muito menos, de aceitar cegamente “um conjunto estranho de doutrinas”, mas de nos encontrarmos com Alguém vivo que dá sentido radical à nossa existência.

O decisivo é, verdadeiramente, encontrar-nos com a pessoa de Jesus Cristo e descobrir, por experiência pessoal, que ele é o único que pode responder, de maneira plena, às nossas perguntas mais decisivas, aos nossos anseios mais profundos e às nossas necessidades mais últimas.

Em nossos tempos, se faz cada vez mais difícil crer em algo. As ideologias mais fortes, os sistemas mais poderosos, as teorias mais brilhantes cambalearam ao descobrirmos suas limitações e profundas deficiências.

O homem moderno, castigado por dogmas, ideologias e sistemas doutrinais, talvez, quem sabe, esteja disposto a crer em pessoas que o ajudem a viver e o possam “salvar” dando um sentido novo à sua existência.

Por isso, o teólogo Karl Lehmann pôde dizer que “o homem moderno somente será crente quando tiver feito uma experiência autêntica de adesão à pessoa de Jesus Cristo”.

Causa tristeza observar a atitude de setores católicos cuja única obsessão parece ser “conservar a fé” como “um depósito de doutrinas” que se deve saber defender contra o assalto de novas ideologias e correntes que, para muitos, resultam mais atraentes, mais atuais e mais interessantes.

Crer é outra coisa. Antes de mais nada, nós cristãos devemos nos preocupar em reavivar nossa adesão profunda à pessoa de Jesus Cristo. Somente quando vivemos “seduzidos” por ele e trabalhamos pela força regeneradora de sua pessoa, poderemos difundir, também hoje, seu espírito e sua visão da vida. Do contrário, continuaremos proclamando com os lábios doutrinas sublimes, ao mesmo tempo que prosseguimos vivendo uma fé medíocre e pouco convincente.

Nós cristãos temos de responder, com sinceridade, a essa pergunta interpeladora de Jesus: “e vós, quem dizeis que eu sou?”.

Ibn Arabi escreveu que “aquele que foi tomado por essa enfermidade chamada Jesus, já não pode se curar”.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: MUSICALITURGICA.COM – Homilías de José A. Pagola – Segunda-feira, 23 de junho de 2014 – 10h44 – Internet: clique aqui.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O PERFEITO IDIOTA BRASILEIRO!

Adriano Silva
Jornalista

Ele fura fila. Ele estaciona atravessado. Acha que pertence a uma casta privilegiada. Anda de metrô – mas só no exterior.
Conheça o PIB (Perfeito Idiota Brasileiro). E entenda como ele mantém puxado o freio de mão do nosso país.

Ele não faz trabalhos domésticos. Não tem gosto nem respeito por trabalhos manuais. Se puder, atrapalha o trabalho de quem pega no pesado. Trata-se de uma tradição lusitana, ibérica, que vem sendo reproduzida aqui na colônia desde os tempos em que os negros carregavam em barris, nas costas, a toilete dos seus proprietários, e eram chamados de “tigres” – porque os excrementos lhes caíam sobre as costas, formando listras. O Perfeito Idiota Brasileiro, ou PIB, também não ajuda em casa por influência da mamãe, que nunca deixou que ele participasse das tarefas – nem mesmo por ou tirar uma mesa, nem mesmo arrumar a própria cama. Ele atira suas coisas pela casa, no chão, em qualquer lugar, e as deixa lá, pelo caminho. Não é com ele. Ele foi criado irresponsável e inconsequente. É o tipo de cara que pede um copo d’água deitado no sofá. E não faz nenhuma questão de mudar. O PIB é um especialista em não fazer, em fazer de conta, em empurrar com a barriga, em se fazer de morto. Ele sabe que alguém fará por ele. Então ele se desenvolveu um sujeito preguiçoso. Folgado. Que se escora nos outros, não reconhece obrigações e que adora levar vantagem. Esse é o seu esporte predileto – transformar quem o cerca em seus otários particulares.

O tempo do Perfeito Idiota Brasileiro vale mais que o das demais pessoas. É a mãe que fura a fila de carros no colégio dos filhos. É a moça que estaciona em vaga para deficientes ou para idosos no shopping. É o casal que atrasa uma hora num jantar com os amigos. A lei e as regras só valem para os outros. O PIB não aceita restrições. Para ele, só privilégios e prerrogativas. Um direito divino – porque ele é melhor que todos os outros. É um adepto do vale tudo social, do cada um por si e do seja o que Deus quiser. Só tem olhos para o próprio umbigo e os únicos interesses válidos são os seus.

O PIB é o parâmetro de tudo. Quanto mais alguém for diferente dele, mais errado esse alguém estará. Ele tem preconceito contra pretos, pardos, pobres, nordestinos, baixos, gordos, gente do interior, gente que mora longe. E ele é sexista para caramba. Mesma lógica: quem não é da sua tribo, do seu quintal, é torto. E às vezes até quem é da tribo entra na moenda dos seus pré-julgamentos e da sua maledicência. A discriminação também é um jeito de você se tornar externo, e oposto, a um padrão que reconhece em si, mas de que não gosta. É quando o narigudo se insurge contra narizes grandes. O PIB adora isso.

O PIB anda de metrô. Em Paris. Ou em Manhattan. Até em Buenos Aires ele encara. Aqui, nem a pau. Melhor uma hora de trânsito e R$ 25 de estacionamento do que 15 minutos com a galera no vagão. É que o Perfeito Idiota tem um medo bizarro de parecer pobre. E o modo mais direto de não parecer pobre é evitar ambientes em que ele possa ser confundido com um despossuído qualquer. Daí a fobia do PIB por qualquer forma de transporte coletivo.

Outro modo de nunca parecer pobre é pagar caro. O PIB adora pagar caro. Faz questão. Não apenas porque, para ele, caro é sinônimo de bom. Mas, principalmente, porque caro é sinônimo de “cheguei lá” e “eu posso”. O sujeito acha que reclamar dos preços, ou discuti-los, ou pechinchar, ou buscar ofertas, é coisa de pobre. E exibe marcas como penduricalhos numa árvore de natal. É assim que se mostra para os outros. Se pudesse, deixaria as etiquetas presas ao que veste e carrega. O PIB compra para se afirmar. Essa é a sua religião. E ele não se importa em ficar no vermelho – preocupação com ter as contas em dia, afinal é coisa de pobre.

O PIB é cleptomaníaco. Sua obsessão por ter, e sua mania de locupletação material, lhe fazem roubar roupão de hotel e garrafinha de bebida do avião e amostra grátis de perfume em loja de departamento. Ele pega qualquer produto que esteja sendo ofertado numa degustação no supermercado. Mesmo que não goste daquilo. O PIB gosta de pagar caro, mas ama uma boca-livre.

E o PIB detesta ler. Então este texto é inútil, já que dificilmente chegará às mãos de um Perfeito Idiota Brasileiro legítimo, certo? Errado. Qualquer um de nós corre o risco de se comportar assim. O Perfeito Idiota é muito mais um software do que um hardware, muito mais um sistema ético do que um determinado grupo de pessoas.

Um sistema ético que, infelizmente, virou a cara do Brasil. Ele está na atitude da magistrada que bloqueou, no bairro do Humaitá, no Rio, um trecho de calçada em frente à sua casa, para poder manobrar o carro. Ele está no uso descarado dos acostamentos nas estradas. E está, principalmente, na luz amarela do semáforo. No Brasil, ela é um sinal para avançar, que ainda dá tempo – enquanto no Japão, por exemplo, é um sinal para parar, que não dá mais tempo. Nada traduz melhor nossa sanha por avançar sobre o outro, sobre o espaço do outro, sobre o tempo do outro. Parar no amarelo significaria oferecer a sua contribuição individual em nome da coletividade. E isso o PIB prefere morrer antes de fazer.
Adriano Silva - jornalista

Na verdade, basta um teste simples para identificar outras atitudes que definem o PIB: liste as coisas que você teria que fazer se saísse do Brasil hoje para morar em Berlim ou em Toronto ou em Sidney. Lavar a própria roupa, arrumar a própria casa. Usar o transporte público. Respeitar a faixa de pedestres, tanto a pé quanto atrás de um volante. Esperar a sua vez. Compreender que as leis são feitas para todos, inclusive para você. Aceitar que todos os cidadãos têm os mesmos direitos e os mesmo deveres – não há cidadãos de primeira classe e excluídos. Não oferecer mimos que possam ser confundidos com propina. Não manter um caixa dois que lhe permita burlar o fisco. Entender que a coisa pública é de todos – e não uma terra de ninguém à sua disposição para fincar o garfo. Ser honesto, ser justo, não atrasar mais do que gostaria que atrasassem com você. Se algum desses códigos sociais lhe parecer alienígena em algum momento, cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus do PIB. Reaja, porque enquanto não erradicarmos esse mal nunca vamos ser uma sociedade para valer.

Fonte: Revista SUPERINTERESSANTE – Edição 335 – Julho/2014 – Pgs. 24-25. Edição impressa.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Lixo tratado poderia elevar PIB em US$ 35 bilhões

Raul Juste Lores

Melhor uso de detritos no país geraria 110 mil empregos em 18 anos, 
diz Banco Mundial
Lixão de Juazeiro do Norte (CE) - depósito de lixo a céu aberto

O Brasil poderia economizar até 1% da demanda elétrica do país e aumentar em US$ 35 bilhões o seu PIB (Produto Interno Bruto) se aplicasse políticas mais inteligentes no uso e na reciclagem de seu lixo.

É o que diz um estudo divulgado nesta segunda-feira (23) pelo Banco Mundial em conjunto com a fundação ambiental ClimateWork.

Se os 42% dos detritos sólidos hoje no Brasil lançados em lixões a céu aberto fossem colocados em aterros sanitários, com aproveitamento do biogás e compostagem do lixo orgânico, as vantagens econômicas também produziriam até 110 mil empregos nos próximos 18 anos.

O tratamento integrado do lixo é uma das "políticas inteligentes" estimuladas pelo Banco Mundial no estudo. Atualmente, segundo a publicação, 58% do lixo no Brasil vai para aterros sanitários.
Investimentos

Esses programas exigiriam investimentos de US$ 1 bilhão a US$ 2 bilhões por ano até 2030. Sem a separação do lixo feita nas próprias residências, o projeto seria "economicamente inviável".

O texto do estudo ainda diz que o lixo incinerado sem controle da poluição do ar cria gases tóxicos e o descarte impróprio polui rios e oceanos, "ameaçando ecossistemas, pesca e turismo".

Foco nos emergentes

O estudo chamado "Aumentando os Benefícios" é considerado preparatório para a Cúpula do Clima da ONU (Organização das Nações Unidas) que será realizada em setembro em Nova York.

Os "estudos de caso" destacados são todos focados em países em desenvolvimento, como Brasil, México, China e Índia, ainda que a emissão de carbono per capita seja muito mais alta nos países ricos.

O relatório diz que "políticas governamentais que melhoram a eficiência energética, gestão do lixo e políticas de transporte público" poderiam aumentar a economia global em US$ 1,8 trilhão, o equivalente a 75% do PIB do Brasil.

Outros estudos apresentados falam do impacto que corredores de ônibus teriam na Índia, o uso de energia solar no México e o uso de fogões "limpos" na China.

Fonte: Folha de S. Paulo – Mercado – Terça-feira, 24 de junho de 2014 – Internet: clique aqui.