«Daqui a alguns anos estarás mais arrependido pelas coisas que não fizeste do que pelas que fizeste. Solta as amarras! Afasta-se do porto seguro! Agarra o vento em suas velas! Explora! Sonha! Descubra!»

(Mark Twain [1835-1910] – escritor e humorista norte-americano)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sábado, 18 de novembro de 2017

33º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 25,14-30


Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos: 
14 «Um homem ia viajar para o estrangeiro.Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens.
15 A um deu cinco talentos, a outro deu dois e ao terceiro, um; a cada qual de acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou.
16 O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles, e lucrou outros cinco.
17 Do mesmo modo, o que havia recebido dois lucrou outros dois.
18 Mas aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra, e escondeu o dinheiro do seu patrão.
19 Depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar contas com os empregados.
20 O empregado que havia recebido cinco talentos entregou-lhe mais cinco, dizendo: “Senhor, tu me entregaste cinco talentos. Aqui estão mais cinco que lucrei”.
21 O patrão lhe disse: “Muito bem, servo bom e fiel! como foste fiel na administração de tão pouco,
eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!”
22 Chegou também o que havia recebido dois talentos, e disse: “Senhor, tu me entregaste dois talentos. Aqui estão mais dois que lucrei”.
23 O patrão lhe disse: “Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!”
24 Por fim, chegou aquele que havia recebido um talento, e disse: “Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste.
25 Por isso fiquei com medo e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence”.
26 O patrão lhe respondeu: “Servo mau e preguiçoso! Tu sabias que eu colho onde não plantei
e que ceifo onde não semeei?
27 Então devias ter depositado meu dinheiro no banco, para que, ao voltar, eu recebesse com juros o que me pertence”.
28 Em seguida, o patrão ordenou: “Tirai dele o talento e dai-o àquele que tem dez!
29 Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado.
30 Quanto a este servo inútil, jogai-o lá fora, na escuridão. Ali haverá choro e ranger de dentes!”»

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

NÃO ENTERRAR A VIDA

A parábola dos talentos é, seguramente, uma das mais conhecidas. Antes de sair de viagem, um senhor confia seus bens a três empregados. Os dois primeiros se põem imediatamente a trabalhar. Quando o senhor regressa, apresentam-lhe os resultados: ambos duplicaram os talentos recebidos. O esforço deles é premiado com generosidade, pois souberam responder às expectativas de seu senhor.

A atuação do terceiro empregado é estranha. A única coisa que lhe ocorre é «esconder debaixo da terra» o talento recebido e conservá-lo seguro até o final. Quando chega o senhor, entrega-lhe o talento pensando que respondeu fielmente aos seus desejos: «Aqui tens o que te pertence». O senhor o condena. Este empregado «negligente e preguiçoso» não entendeu nada. Somente pensou em sua segurança.

A mensagem de Jesus é clara:
* Não ao conservadorismo, sim à criatividade.
* Não a uma vida estéril, sim à resposta viva ao Criador.
* Não à obsessão por segurança, sim ao esforço arriscado para transformar o mundo.
* Não à fé enterrada debaixo do conformismo, sim ao seguimento comprometido com Jesus.

É muito tentador viver sempre evitando problemas e buscando tranquilidade: não nos comprometermos com nada que nos possa complicar a vida, defender nosso pequeno bem-estar. Não há uma forma melhor de viver uma vida estéril, pequena e sem horizonte.

O mesmo acontece na vida cristã. Nosso maior risco não é sairmos dos esquemas de sempre e cair em inovações exageradas, mas congelar nossa fé e apagar o frescor do Evangelho. Devemos nos perguntar sobre o que estamos semeando na sociedade, a quem difundimos esperança, onde aliviamos o sofrimento.

Seria um erro apresentar-nos diante de Deus com a atitude do terceiro servo:
«Aqui tens o que é teu.
Aqui está teu Evangelho, o projeto de teu Reino, tua mensagem de amor aos que sofrem.
Conservamos tudo fielmente.
Não serviu para transformar nossa vida nem para introduzir teu Reino no mundo.
Não quisemos correr riscos. Porém, aqui o tens intacto».


ARRISCAR-SE

Com frequência, compreendeu-se a religião como se fosse um sistema de crenças e práticas que servem para proteger-se contra Deus, porém não ajudam a viver de maneira criativa. Esta religião conduz a uma vida triste e estéril onde o importante é viver seguro diante de Deus, porém falta alegria e dinamismo.

Deve-se dizer sem rodeios. No fundo desse tipo de religião só há medo. Quem busca proteger-se de Deus é porque tem medo dele. Essa pessoa não ama Deus, não confia nele, não desfruta de sua misericórdia. Somente o teme e, por isso, busca na religião remédio para seus medos e fantasmas.

Depois de Jesus, não temos mais direito de entender e viver desse modo a religião. Deus não é um tirano que atemoriza os homens, buscando egoisticamente seu próprio interesse, mas um Pai que confia a cada um o grande dom da vida.

Por isso, Jesus imagina seus seguidores não como «observantes piedosos»
de uma religião, mas como crentes audaciosos dispostos a correr riscos e
superar dificuldades para «inventar» uma vida mais digna e feliz para todos.

Um discípulo de Jesus se sente chamado a tudo, menos enterrar sua vida de maneira estéril!

O terceiro servo da parábola é condenado não por fazer algo ruim porque, paralisado pelo temor a seu senhor, «enterrou» os talentos que lhe haviam sido confiados. A mensagem é clara. Não se pode devolver a vida a Deus dizendo: «Aqui está o que é teu. “A vida que me deste não serviu para nada». É um erro viver uma vida «religiosamente correta» sem nos arriscarmos a viver o amor de maneira mais audaciosa e criativa.

Quem somente busca cuidar de sua vida, protegê-la e defendê-la, a põe a perder.

Quem não segue as aspirações mais nobres de seu coração por medo de fracassar,
já está fracassando.
Quem não toma iniciativa alguma para não errar, já está errando.
Quem somente se dedica a conservar sua virtude e sua fé, corre o risco de enterrar sua vida.
Ao final, não teremos cometido grandes erros, mas também não teremos vivido!

Jesus é um convite a viver intensamente.

A única coisa que devemos temer é viver sempre com medo de arriscar-nos, com temor de sairmos do «correto», sem audácia para renovarmos, sem valor para atualizar o Evangelho, sem fantasia para inventar o amor cristão.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo A (Homilías) – Internet: clique aqui.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Onde está Deus?

Somos capazes de fazê-lo entrar nas 
nossas vidas?

Eugenio Bernardini
Teólogo e pastor valdense
Moderador da Mesa Valdense, o órgão representativo e administrativo da Igreja Valdense
Jornal “Il Fatto Quotidiano”
12-11-2017

“Onde está Deus?
Onde ele é perceptível nas tragédias da humanidade,
causadas também pelos conflitos religiosos, nas catástrofes naturais,
no sofrimento das doenças, no desenvolvimento de sociedades
cada vez mais despersonalizantes e individualistas?
Onde está Deus?
Deus está onde nós o deixamos entrar, entrar na nossa história,
nas nossas escolhas de vida, nas nossas consciências.”
EUGENIO BERNARDINI
Teólogo italiano valdense

De onde viemos?
Qual é o segredo das origens da vida humana?
No princípio, houve um desígnio superior ou somos frutos de reações químicas e físicas casuais, talvez replicadas ou replicáveis em outros mundos?
E, acima de tudo, para onde vamos?
Haverá um futuro para a humanidade, e qual será?

As tentativas de resposta a essas perguntas fundamentais são o motivo condutor de “Origem”, o último best-seller de Dan Brown, o prolífico autor de thrillers de fundo religioso, como “O código Da Vinci” e “Anjos e demônios”.

Assim como na maioria dos romances anteriores, o protagonista é Robert Langdon, professor de simbologia e iconologia religiosa em Harvard, que representa o olhar daquela cultura secular capaz de combater o extremismo e o totalitarismo religiosos, sem, por isso, se tornar ateia e capaz de reconhecer que, dentro de todas as grandes religiões, há movimentos e protagonistas que buscam o diálogo e a paz, e, por isso, devem ser respeitados e apoiados.

Particularmente, “Origem” é uma reflexão sobre o eterno conflito entre ciência e fé, mas partindo dos desafios, também éticos, que o desenvolvimento vertiginoso das novas tecnologias e da inteligência artificial nos colocam cotidianamente, transformando a nossa cotidianidade, mas também as nossas consciências.
Publicado no último dia 3 de outubro no Brasil - Editora Arqueiro - 432 páginas

Ainda haverá lugar para Deus em um mundo dominado pelas tecnologias e pela comunicação informática? É uma típica pergunta do Terceiro Milênio. O último século do segundo milênio, o século XX, fez-se a mesma pergunta – onde está Deus? – mas a partir de outro ponto de vista, o da experiência dilacerante das tragédias e dos sofrimentos das duas guerras mundiais e dos impiedosos massacres dos nacionalismos europeus.

Na Bíblia, dos Salmos ao Novo Testamento, também encontramos muitas vezes esta pergunta: onde está Deus? Quando e onde se manifesta ou se manifestará? Como em um dos textos sugeridos pelo lecionário que estamos seguindo – Un giorno, una parola (Ed. Claudiana 2017) – e que, de algum modo, são preparatórios para o período do Advento, que iniciará neste ano com o primeiro domingo de dezembro: “Os fariseus perguntaram a Jesus sobre o momento em que chegaria o Reino de Deus. Jesus respondeu: ‘O Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: ‘Está aqui’ ou: ‘Está ali’, porque o Reino de Deus está no meio de vocês” (Lucas 17, 20-21; tradução da Bíblia Pastoral).

Entre os estudiosos, há diversas interpretações das palavras de Jesus – “O Reino de Deus está no meio de vocês” –, mas eu gostaria de partir de uma anedota judaica: “Um famoso rabi, um dia, surpreendeu alguns sábios que eram seus hóspedes, perguntando: ‘Onde Deus habita?’. Eles zombaram dele: ‘O que você está dizendo? O mundo está cheio da sua glória!’. Mas ele mesmo respondeu à sua própria pergunta: ‘Deus habita onde o deixam entrar’”.

Onde está Deus? Onde ele é perceptível nas tragédias da humanidade, causadas também pelos conflitos religiosos, nas catástrofes naturais, no sofrimento das doenças, no desenvolvimento de sociedades cada vez mais despersonalizantes e individualistas? Onde está Deus? Deus está onde nós o deixamos entrar, entrar na nossa história, nas nossas escolhas de vida, nas nossas consciências.

A pergunta justa, então, não deve ser dirigida a Deus: “Deus, onde estás?”.
Mas sim a nós: onde ou quando permitimos que Deus entre na nossa vida?

Quando o deixamos entrar, esta vida – tão pequena, fugaz, discutível – também adquire um valor imenso para nós, finalmente, porque, para Deus, a nossa vida sempre tem um valor imenso.

“O Reino de Deus não vem ostensivamente”, diz Jesus, mas vem para atrair os corações e para transformá-los, abandonando arrogâncias e a autossuficiências, medos e violências, e criando um espaço de vida para todos: “O Reino de Deus”.

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 16 de novembro de 2017 – Internet: clique aqui.

Ordenação de homens casados pode estar próxima

Cardeal Reinhard Marx revela que o Papa pensa
em abolir o celibato clerical

Cameron Doody
Religión Digital
14-11-2017

Cardeal convida toda a Igreja a um amplo debate sobre o assunto.
Sobre o acesso ao sacerdócio dos chamados “viri probati” e também de
outras possíveis novas formas de liderança eclesial 
CARDEAL REINHARD MARX
Arcebispo de Munique e Freising na Alemanha, Presidente da Conferência Episcopal Alemã
e membro do grupo de cardeais que assessora Papa Francisco

O debate sobre a ordenação de homens casados já está sobre a mesa do Papa Francisco.

Durante um encontro, na semana passada, do Comitê de Católicos de Baviera, o purpurado alemão qualificou o desejo dos setores da Igreja onde mais se sofre a escassez de sacerdotes como “legítimo” e algo que “deve ser discutido”.

Segundo informa katholisch.de, o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Freising, também defendeu que, embora “isto não signifique que exista um impulso direto de Roma” para abordar esta problemática, o Papa já está pensando nela, e uma vez que a tenha por bem, “falará com seus conselheiros”, de modo que possa ser pensada e discutida na Igreja em geral, em “todas as suas vertentes”.

E embora tenha revelado estes progressos na questão da consagração dos viri probati – os homens com particular experiência em suas paróquias e com uma virtude e maturidade cristãs comprovadas –, o também presidente dos bispos alemães se referiu em termos mais sombrios sobre outa solicitação de grandes partes da Igreja, como é a ordenação das mulheres.

“Não há movimento” neste último, afirmou o cardeal, acrescentando que embora não possa “prometer nada”, neste momento, sobre se a ideia de mulheres diaconisas e sacerdotisas se tornará realidade ou não, está seguro que o debate continuará.
PAUL MICHAEL ZULEHNER
Teólogo e sacerdote católico austríaco, professor emérito e
um dos mais conhecidos e conceituados sociólogos
da religião da Europa

E não é que o cardeal Marx seja o único que está ansioso em implementar na Igreja novas formas de liderança tais como podem ser os padres casados ou as mulheres sacerdotisas. O teólogo Paul Zulehner concordou com o prelado em suas pregações para o futuro, sustentando, no mesmo encontro em Baviera, que “viveremos para ver” a abolição do celibato clerical na Igreja, “caso ninguém dê um tiro no Papa ou lhe envenene antes”.

“É um erro subordinar a celebração da Eucaristia ao celibato dos sacerdotes”, sustentou o teólogo vienense em seu discurso.

Traduzido do espanhol pelo Cepat. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 15 de novembro de 2017 – Internet: clique aqui.

Os saudosistas de um catolicismo medieval

Antes era melhor?

Massimo Faggioli
Professor de Teologia e Estudos Religiosos da Villanova University (EUA)
COMMONWEAL
13-11-2017

Não é surpresa que a Idade Média substituiu o período moderno no novo cânone do catolicismo neotradicionalista; a distância fornecida pelo tempo dá uma impressão conveniente de estabilidade. O problema é como ele está sendo usado para uma função puramente antimoderna; é uma visão ideológica da história, e um cul-de-sac [beco-sem-saída] muito perigoso, teológica e politicamente.
SESSÃO DO CONCÍLIO DE TRENTO
Arte de Matthias Burglechner - século XVI

No dia 31 de outubro deste ano, os católicos e protestantes marcaram, com espírito ecumênico e em tom polêmico, o aniversário do começo da Reforma. Poucos dias depois – 4 de novembro – veio a festa de São Carlos Borromeu, um dos grandes santos da Contrarreforma, ou “Reforma Católica”, ou ainda do “catolicismo moderno primitivo”, dependendo da interpretação histórico-teológica preferida dada a este longo período.

Borromeu, Santo Inácio de Loyola, São Felipe Neri e outros estiveram, certa vez, associados com a “idade de ouro” do catolicismo confessional, mas hoje esta época não parece tão dourada mais. Algumas das reações contra o Papa Francisco parecem ser a expressão da (ou parecem expressar um novo encantamento com a) cristandade medieval.

O debate atual sobre o pontificado de Francisco revela uma abordagem interessante da história, especialmente entre os que acusam o papa de promover o caos nas formas da instabilidade disciplinar e incerteza teológica entre os fiéis. Ele pressupõe uma visão particular deste pontificado e do chamado “catolicismo do Vaticano II”, em oposição à narrativa histórica do período pré-Vaticano II como um tempo de estabilidade e certeza. Há os que acreditam que o Vaticano II marcou o início de uma era de crise e desafios existenciais no catolicismo. Citam dados sobre a afiliação religiosa em declínio, a queda no número de clérigos e religiosos e apontam para os escândalos sexuais e financeiros. Mas é, na verdade, a mudança nos costumes sexuais que levam os críticos do Vaticano II a ver o colapso do catolicismo como um fruto do Concílio. Além disso, a visão deles sobre os papas destes últimos 50 anos se solidificou:
* Paulo VI é visto como um enigma, uma vítima – na melhor das hipóteses – de sua própria ingenuidade sobre a possibilidade de resgatar o catolicismo do progressismo radical;
* João Paulo II é poupado da associação com o Vaticano II e o pós-Vaticano II por meio de sua identificação com o anticomunismo e sua mensagem antiabortista;
* enquanto Bento XVI tem estado sujeito à apropriação neotradicionalista.
* Quanto ao Papa João Paulo I – que serviu por apenas 33 dias e de quem Francisco recentemente reconheceu as “virtudes heroicas” e, portanto, encontra-se no caminho para uma possível santidade –, resta saber se a Igreja descobrirá o “centrismo do Vaticano II” com o qual ele se identificava.

Esta leitura apocalíptica do Vaticano II não é novidade. Mas a forma como os seus adeptos, hoje, veem a história pré-Vaticano II – especialmente o período entre a Idade Média e a atualidade – é nova, e muito mais nostálgica.

Já na época do Vaticano II, a oposição dos céticos ou antagonistas das reformas conciliares tendem a separar os dois mundos: a Igreja pré-Vaticano II e a Igreja do Vaticano II – uma marcada pela certeza e a outra pela incerteza; tradição e estabilidade x reforma e revolução. Naquela época, durante os debates conciliares e o começo da Igreja pós-Vaticano II, a Igreja pré-Vaticano II era vista como mais simples, já que geralmente estava identificada com o Vaticano I (na maior parte, com a noção da primazia papal e da infalibilidade), com o Concílio de Trento e com a Igreja tridentina.

Antes do Concílio Vaticano II não havia estabilidade

A verdadeira narrativa histórica da era pós-Vaticano II ainda precisava tomar forma. Porém o trabalho dos historiadores nestes últimos 50 anos tornou o quadro da Igreja pré-Vaticano II mais complicado do que fariam aqueles chocados pelo Vaticano II. O período pré-Vaticano II, na realidade, não era mais estável – em termos teológicos, sociais e políticos – do que iriam ser os anos pós-Vaticano II. Por exemplo, embora o Concílio de Trento (1545-1563) possa ter ajudado a centralizar o poder no papado e “romanizado” o catolicismo (na liturgia e em outras áreas), ele também levou a um longo período de crises na aplicação das reformas introduzidas.

Para alguns, como o estabelecimento de seminários para a formação presbiteral, mais de um século se passaria antes que a maior parte das dioceses a implementasse. Roberto Bellarmino, um dos teólogos mais importantes do período pós-Trento, enviou ao Papa Clemente VIII um memorando na virada do século XVII indicando que o concílio havia sido um fracasso e que se fazia necessário um outro concílio.

Em seguida, houve as guerras religiosas que devastaram a Europa até 1648 (terminadas por um tratado de paz internacional que humilhava o papado ao reduzir o seu papel no mundo), bem como a luta católica feroz interna sobre “o que aconteceu em Trento” (o conflito entre o padre veneziano e estadista Paolo Sarpi e o jesuíta romano Pietro Sforza Pallavicino é particularmente ilustrativo), que só se encerrou na segunda metade do século XX com a “História do Concílio de Trento”, obra em quatro volumes de Hubert Jedin.

A corrupção na Roma papal condenada por Lutero fora dissipada somente no final do século XVII, sob os papados de Inocêncio XI e Inocêncio XII – isto é, quase dois séculos depois da viagem de Lutero a Roma. Em outras palavras, os anos pós-Trento não exemplificam, na verdade, a noção de um cristianismo perfeitamente estável.

Os anos pós-Vaticano I dificilmente são um exemplo melhor. Este período ficou marcado não só pelo pequeno cisma dos católicos que se recusaram a aceitar as novas doutrinas a respeito do poder papal, mas também – e isso é o mais importante – pela tragédia mais grave na história intelectual moderna do catolicismo: a purga antimoderna iniciada em 1907 sob o comando de Pio X (hoje São Pio X) e o serviço secreto do Vaticano que ele criou para espionar os teólogos. A declaração da infalibilidade papal era uma resposta a – mas não uma solução para a – perda do poder temporal e do isolamento internacional do Vaticano. Depois, seguiu-se a ascensão do marxismo e a cooperação católica com o nacionalismo, levando à Primeira Guerra Mundial, ao fascismo e ao nazismo. A cooperação dos católicos franceses na Action Française levou Pio XI dispensar o jesuíta Louis Billot de seu título de cardeal em 1926. Estas coisas parecem sinais de estabilidade?

Vejamos também o que o futuro Papa João XXIII disse em suas visitas a paróquias e dioceses pela Europa nas décadas de 1920 e 1930, primeiro como secretário de seu bispo no norte da Itália, depois como enviado papal para angariar verbas a missões no começo dos anos 20 e, finalmente, como diplomata papal na Bulgária. Nesse país, ele ficou surpreso com o estado miserável da disciplina eclesiástica, especialmente com respeito à obediência e à castidade entre o clero. Sobre um padre que tinha, de fato, uma família, o futuro papa observou: nisi caste, saltem caute –se não se consegue ser casto, pelo menos tenha cautela”. O debate sobre o celibato não é um fenômeno pós-Vaticano II; antes do concílio, alguns grupos de bispos exigiam que se abordasse a questão. Não só foram ignorados, mas a petição deles foi expurgada do registro oficial do Vaticano II, como descobriu há poucos anos o historiador da Igreja brasileiro José Oscar Beozzo.

Portanto, o constructo de um período tumultuado pós-Vaticano II versus a calmaria dos períodos pós-Trento e pós-Vaticano I parece menos credível. E talvez isto explique o neomedievalismo de certas vozes dentro do catolicismo americano, uma espécie de duplicação das certezas do passado. Não são só os tuítes de uns poucos tradicionalistas radicais católicos, mas algo que parece estar acontecendo no nível intelectual também. Tive essa impressão com algumas das obras que li nos últimos cinco anos ou mais.

Entre o “Defending Constantine”, de Peter J. Leithart, e o “The Unintended Reformation”, de Brad Gregoryi, parece que até mesmo o pensamento teológico está tendendo em direção à cristandade medieval. (Não se trata apenas de uma síndrome católica, como ilustram as tensões entre as comunidades “tradicionais” e “modernas” ortodoxas orientais nos EUA).

Houve também uma série de artigos publicados em First Things sobre a necessidade de se redescobrir uma cristandade viável e, claro, uma cosmovisão dedicada, expressa por Rod Dreher em “The Benedict Option”. Em artigo recente de Ross Douthat dedicado à Reforma Protestante, podemos claramente ver o enquadramento da Reforma como notoriamente próximo ao pré-Vaticano II (e à cultura anti-Vaticano II da Fraternidade Sacerdotal São Pio X) – um “Weltanschauung católico”, isto é, um enquadramento do nosso tempo na genealogia dos “erros modernos”: a Reforma que destrói a unidade da cristandade ocidental e que inaugura o liberalismo social, político e teológico que, finalmente, nos deu Donald Trump. Um fascínio renovado com o medievalismo teológico também parece relacionado com a reação de setores particulares do cristianismo anglo-europeu, do catolicismo branco americano a desafiar a perspectiva da chamada “América pós-cristã” e a solicitação de um paradigma teológico que sustente uma ordem mundial “pós-liberal”.

Na qualidade de católico europeu italiano que se mudou para os Estados Unidos em 2008 e que tem lecionado e escrito sobre o catolicismo, penso ser impossível superestimar a influência clara da imaginação medieval católica no catolicismo americano em comparação a todas as outras igrejas católicas no mundo. Esta influência é poderosa, vista não apenas na arquitetura dos campi universitários, mas na maneira como a Igreja deste país quer ser percebida “pelo mundo” em geral. Além do cânone teológico que abrange os séculos entre Agostinho e Tomás de Aquino, parece haver bastante espaço tanto para o antimodernismo quanto para o pós-modernismo.

Sempre houve um movimento contrário ao Vaticano II, mas também tem existido um
catolicismo aconciliar” mais sutil – como se o Vaticano II nunca tivesse acontecido ou que
errou em muitas coisas (a narrativa antimoderna), ou que o Vaticano II é
um passé e nada tem a nos dizer hoje (a abordagem pós-modernista).
Mas agora parece haver menos espaço para o que a teologia católica (incluída a teologia política)
foi entre o período moderno inicial (Erasmo incluído) e a nouvelle théologie
que levou ao Concílio Vaticano II.
MASSIMO FAGGIOLI
Especialista em História da Igreja & Teologia Católicas

Além disso, o chamado movimento de “reforma católica”, do final do século XV em diante (incluindo Trento), parece ter se tornado demasiado moderno para os que leem a hermenêutica ratzingeriana da “continuidade versus descontinuidade” como uma rejeição, pura e simples, de qualquer desenvolvimento histórico-teológico na tradição católica, esquecendo-se que Bento XVI falou sobre “continuidade e reforma”.

O “ressourcement [retorno às fontes] como antimodernismo e anti-histórico, e o pós-modernismo como pós-tradicional e pós-histórico: tal polarização de visões da história da Igreja é um dos aspectos particulares da recepção teológica do Vaticano II nos Estados Unidos. O Papa Francisco não causou esta involução intelectual, mas, hoje, ele precisa lidar com ela. Veja-se a reação negativa às suas recentes declarações sobre a pena de morte; as reações contra Amoris Laetitia surgem aqui também.

A redução da tradição católica a um catolicismo medieval imaginário tem consequências significativas para a vida intelectual da Igreja Católica nos Estados Unidos, e para a maneira como ela percebe e responde “politicamente” às mudanças sociais e cultuais dos últimos 50 anos. Não é surpresa que a Idade Média substituiu o período moderno no novo cânone do catolicismo neotradicionalista; a distância fornecida pelo tempo dá uma impressão conveniente de estabilidade. O problema é como ele está sendo usado para uma função puramente antimoderna; é uma visão ideológica da história, e um cul-de-sac [beco-sem-saída] muito perigoso, teológica e politicamente.

Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa, com correções de Telmo José Amaral de Figueiredo. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 16 de novembro de 2017 – Internet: clique aqui.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A democracia num beco sem saída?

Pe. Alfredo José Gonçalves
Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos
Vigário Geral
Roma – Itália

Reciprocamente, dinheiro compra poder e o poder faz acumular
mais dinheiro. Uma dinastia, a econômica, ressuscita
“milagrosamente” a outra, a política.
PE. ALFREDO JOSÉ GONÇALVES

A virada à direita em alguns países de relativa importância no universo ocidental, incluindo os Estados Unidos, significa que a democracia entrou num beco sem saída? Talvez convenha retomar a famosa frase de Bertrand Russell, o qual, comentando a filosofia de Locke, escreve que “as dinastias políticas desapareceram, mas as dinastias econômicas sobrevivem” (Cf. História do pensamento ocidental). Com tal pensamento, e de olho nas eleições de 2018, talvez nãos seja ocioso tecer algumas considerações.

Historicamente, de fato, a partir de um determinado momento a herança do poder, de pai para filho, deste para o neto, e assim sucessivamente, revelou-se um excrescência fóssil, cristalizada. Até então, o exercício do poder era não somente de caráter hereditário, mas em muitos casos de origem divina. Não raro os reis subiam ao trono com a benção da Igreja. O brilho do renascimento, as luzes do iluminismo, a declaração da independência dos Estados Unidos (1776) e a Revolução Francesa (1789), entre outros fatores, contribuíram para combater e banir as dinastias políticas. Nasce e expande-se, segundo Abraham Lincoln, “o governo do povo, pelo povo, para o povo”.

Nada disso, porém, impediu que as grandes heranças de ordem econômica, tais como contas bancárias, títulos e propriedades imobiliárias, permanecessem intocáveis. “Propriedade privada” – advertem as placas! Se, de um lado, é verdade que o processo democrático reduziu a dinastia política a um resquício histórico tolerado apenas em países retrógrados, também é certo que não conseguiu distribuir com maior equidade a riqueza e os bens por todos produzidos. Enquanto a primeira vinha relegada a uma peça de museu, uma relíquia de tempos antiquados, a assimetria econômica, longe de aproximar os extremos, alargava cada vez mais o fosso das desigualdades entre o topo e a base da pirâmide social.

Tanto é verdade que, mesmo hoje em dia, semelhante contradição é vista como normal por grande parte da população. Esta aceita com relativa naturalidade que os filhos e/ou familiares de um milionário ou bilionário falecido, e somente seus filhos e familiares, sejam os herdeiros legítimos de uma riqueza acumulada por vias nem sempre transparentes. Ao mesmo tempo, contudo, em nome da democracia, rejeita qualquer forma de hereditariedade quando está em jogo o exercício do poder. Neste caso, entra em cena a visão consolidada da democracia. Numa palavra, esta última agita as águas e as ondas superficiais da política, mas deixa intactas as correntes subterrâneas de uma economia cada vez mais globalizada e centrada no mercado financeiro.

O problema é que a contradição acima assinalada vai mais a fundo. Deixando o campo livre a essas heranças estratosféricas e incalculáveis, a dinastia econômica, com a força bruta da renda, da riqueza e da própria influência, adquire o poder de resgatar a dinastia política. É sabido e notório que para “fabricar” um candidato e disputar uma campanha eleitoral, é necessária uma soma de dinheiro nada desprezível. Bem poucos são capazes de arcar com tais custos. O resultado torna-se óbvio: somente os ricos podem dar-se ao luxo de antecipar tais despesas, comprando o espaço e o tempo nos meios de comunicação social, e até mesmo comprando diretamente o voto dos eleitores. Essas despesas, por outro lado, caso se confirme a vitória, serão generosamente reembolsadas.

Reinstala-se, assim, o círculo vicioso que une e entrelaça ambas as dinastias. A herança de enormes fortunas abre as portas ao exercício do poder, ao mesmo tempo que este abre canais e mecanismos para novas oportunidades de investimentos, os quais, a seu turno, trazem de volta a dinastia do governo. Daí as históricas oligarquias ao longo da trajetória política brasileira, para não falar do corporativismo partidário ou de classe, nem da corrupção crônica. Reciprocamente, dinheiro compra poder e o poder faz acumular mais dinheiro. Uma dinastia, a econômica, ressuscita “milagrosamente” a outra, a política. Ao fim e ao cabo, magnatas e homens de Estado, ricos e governantes, tornam-se “farinha do mesmo saco”.

Resta o desafio de purificar essa mútua promiscuidade. Depurar o processo democrático da força e da tirania dos gigantescos conglomerados de empresas transnacionais. É certo que o dinheiro tudo compra, e a quem o possui, tudo é passível de venda. Mas, no processo democrático, permanecem de pé determinados princípios éticos e morais que não podem entrar nessa lógica do mercado total. Às vésperas das eleições de 2018, é hora de rever tais princípios, no sentido de submeter a economia à política do bem-estar comum. E esta às necessidades básicas e urgentes da população de baixa renda. Disso resulta a insistência em retomar os critérios de participação nas causas populares, para avaliar cuidadosamente os candidatos. Só assim a democracia poderá ainda apresentar qualquer saída alternativa.

Fonte: Divulgação do próprio autor através de e-mail – Roma, 14 de novembro de 2017.

domingo, 12 de novembro de 2017

Advertência do Papa Francisco

“Cristãos, sejam espertos:
há uma fumaça de corrupção na sociedade”

Salvatore Cernuzio
Vatican Insider
10-11-2017

Francisco falou sobre isso durante a missa matinal na Casa Santa Marta, comentando o Evangelho de Lucas sobre o administrador que desperdiça os bens do seu senhor
e recordando o convite de Jesus para sermos
“prudentes como as serpentes e simples como a pomba”.
PAPA FRANCISCO
celebrando na Capela da Casa Santa Marta, no Vaticano

“Fala-se do smog que causa poluição, mas há também um smog de corrupção na sociedade”, denuncia Bergoglio na sua homilia relatada pela Radio Vaticana. Por isso, o cristão deve ser “esperto” e ter “faro”, porque não pode correr o risco de perder por ingenuidade aquele “tesouro” que conserva em seu interior: “o Espírito Santo”.

O pontífice indica três atitudes, em particular, a todos os cristãos:
* a primeira é uma “sã desconfiança” em relação a quem “promete demais” e “fala demais”, em relação a todos aqueles que dizem: “Faça o investimento no meu banco, eu lhe darei um juro duplo”.
* Depois, é fundamental parar e refletir, especialmente diante das seduções do demônio que desfere os seus ataques apontando para as fraquezas de cada um.
* Por fim, há a oração para pedir ao Senhor a “graça da astúcia” e não cair nas “corjas da corrupção”.

“Corjas”, ressalta o papa, como as do administrador do Evangelho de hoje, que, embora descoberto ao dissipar os bens do chefe, em vez de encontrar um trabalho honesto, continua roubando. E faz isso com a cumplicidade de outros “colegas”. “Uma verdadeira corja de corrupção”, diz Francisco. “São poderosos, hein! Quando fazem as corjas da corrupção são poderosos. Chegam até a atitudes mafiosas”.

Mas não devemos nos surpreender demais: “Esta não é uma fábula” para ser pesquisada em livros antigos. É uma história que “encontramos todos os dias nos jornais, todos os dias”.

“Isso também acontece hoje, especialmente com aqueles que têm a responsabilidade de administrar os bens do povo, não os bens próprios, porque este era administrador dos bens alheios, não dos próprios. Com os próprios bens, ninguém é corrupto, os defende”, afirma o papa.

E, enquanto os “filhos deste mundo” continuam levando em frente as suas espertezas “com luvas de seda”, “com cortesia” e sem serem importunados, o que devem fazer os “filhos da luz”? Como devem se comportar?

“Mas se estes são mais astutos do que os cristãos – não diria cristãos, porque muitos corruptos também se dizem cristãos –, se estes são mais astutos do que os fiéis a Jesus, eu me pergunto: existe uma astúcia cristã?”, reflete Bergoglio.

“Existe uma atitude para aqueles que querem seguir Jesus, de modo que não acabem mal, que não acabem sendo comido vivos – como dizia a minha, “comido crus” – pelos outros outros? Qual é a astúcia cristã, uma astúcia que não seja pecado, mas que sirva para me levar em frente no serviço do Senhor e também na ajuda aos outros?”

Em suma, existe ou não uma “esperteza cristã”?

Sim, existe e se chama “FARO”. E é uma graça a ser pedida a Deus: “Se há uma coisa que o cristão não pode se dar ao luxo é de ser ingênuo. Como cristãos, temos um tesouro dentro: o tesouro que é o Espírito Santo. Devemos conservá-lo. E um ingênuo, aí, se deixa roubar o Espírito. Um cristão não pode se dar ao luxo de ser ingênuo”, enfatiza o Papa Francisco.

Então – é o convite dele – peçamos a Deus essa “graça da astúcia cristã” e do “faro cristão”. Peçamos para ser “cristãos espertos”. E, na mesma oração, aproveitemos “para rezar pelos corruptos”: “Pobrezinhos, que encontrem a saída dessa prisão em que quiseram entrar”.

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Sábado, 11 de novembro de 2017 – Internet: clique aqui.

Educação como mercadoria

Nova fase da Educação-Mercadoria

José Ruy Lozano
Sociólogo, autor de livros didáticos, conselheiro do CIPI – Conselho Independente de Proteção à Infância e coordenador pedagógico geral da Rede Alix – Colégio Nossa Senhora do Morumbi

Elite troca a tradição e excelência por “serviços educacionais”,
vendidos como resorts ou bancos “prime”.
Não se busca formar seres humanos, mas patrões.
Sede da escola Avenues, em São Paulo:
lá, segue-se o calendário do Hemisfério Norte e comemoram-se os feriados norte-americanos

Foi-se o tempo em que pais de classe média e alta escolhiam escolas particulares baseados apenas na tradição. A educação básica privada transforma-se progressivamente em um mercado de serviços como outro qualquer, e a oferta de “experiências perfeitas” (?!) às crianças pouco se distingue das estratégias de propaganda de hotéis de luxo ou resorts à beira-mar.

O mercado de serviços educacionais (é disso que se trata) de grandes cidades brasileiras vem sendo sacudido pela inserção de novos “players” (assim se denominam) e atraindo investimentos de grupos nacionais e estrangeiros de “private equity” ou mesmo de “venture capital”. Sim, a educação básica imita o ensino superior e entra na bolsa de valores (stock market, melhor dizendo), com todas as regras de “compliance” e promessas de ganhos de “market share”.

Anglicismos adentro, os nomes de algumas novas escolas a serem inauguradas em São Paulo e no Rio de Janeiro reiteram a tendência: New York Avenues, Concept, International School… e por aí vai.

Mas há uma importante diferença no “target” entre o ensino superior privado e as novas escolas particulares. Enquanto os centros universitários – eufemismo para uma reunião pouco consistente de faculdades técnicas – miraram o consumidor de baixa renda (“lower income”, para não destoar) e os subsídios governamentais do ProUni, as escolas tentam seduzir o segmento “premium”, a “upper class”.

Os projetos pedagógicos das escolas boutiques, ou colégios de charme, embalam em papel dourado e salas de aula projetadas por famosos designers tendências de metodologia ativa presentes no horizonte educacional desde pelo menos os anos 1960. O aluno como protagonista, a interação como princípio da aprendizagem, a construção de conhecimento por meio de projetos de investigação. Nada de novo aqui, e nem é isso mesmo o que essas escolas querem vender.

Suas estratégias de marketing mobilizam sem maior receio – ou vergonha – o conceito de EXCLUSIVIDADE, como os bancos prime ou algumas pousadas em Trancoso. Esse é o verdadeiro objeto de desejo dos potenciais clientes das escolas boutique.

Afinal, para formar cidadãos de um mundo globalizado, os futuros líderes do século XXI (a quem a plebe rude e ignara está fadada a obedecer), é necessário cobrar mensalidades na faixa de oito mil reais por mês, fora uma taxa de matrícula (ou de adesão) de outros tantos mil reais.

Assim estão a se formar verdadeiros clubes privados de ensino, escolas de empreendedorismo e criatividade (leia-se, negócios), jardins da infância financeirizada e higienizada, cujo acesso é, certamente, exclusivo: longe de gente esquisita que não circula no Clube Pinheiros ou no Jockey, nem vai esquiar em Aspen no carnaval.

Não, essas escolas não se destinam a formar líderes, mas patrões. Não pretendem formar cidadãos globais, mas elites que mandam a partir de espaços delimitados e cercados, muito distantes da realidade diversa e multifacetada do mundo dito globalizado. Esses estabelecimentos não se destinam a uma integração com a realidade contemporânea, mas com uma pequena parcela desta realidade, a que vive nos melhores bairros, tem acesso ao maior número de recursos, seja em Manhattan, seja nos Jardins ou na Barra da Tijuca.

Escolas de alienação, isso sim, compradas a peso de ouro.

Fonte: Outras Palavras – Quarta-feira, 8 de novembro de 2017 – Internet: clique aqui.