«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.»

(Aristóteles [384 a.C. – 322 a.C.] – filósofo grego, discípulo de Platão)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

O semiocapitalismo

Ricardo Forster
Página/12
28-07-2017

O semiocapitalismo [capitalismo semiótico] se tornou o ponto máximo de abstração do capital, impactando direta e fulminantemente sobre indivíduos que vivem, cada vez mais, no interior de realidades virtuais e sob o signo da desmaterialização dos vínculos intersubjetivos
FRANCO "BIFO" BERARDI

“O nível de predomínio do capital financeiro na atualidade é esmagador e constitui o eixo central da acumulação contemporânea, até praticamente reduzir a produção de objetos materiais ou imateriais à periferia na busca de rentabilidade. O semiocapitalismo [capitalismo semiótico] se tornou o ponto máximo de abstração do capital, impactando direta e fulminantemente sobre indivíduos que vivem, cada vez mais, no interior de realidades virtuais e sob o signo da desmaterialização dos vínculos intersubjetivos”, escreve o filósofo Ricardo Forster, analisando a obra Fenomenología del fin. Sensibilidad y mutación conectiva, de Franco “Bifo” Berardi, filósofo, escritor e agitador cultural italiano.

Eis o artigo.

Leio, não sem começar a me perguntar algumas coisas que me remetem a nossa atualidade, o último livro de Franco “Bifo” Berardi, Fenomenología del fin. Sensibilidad y mutación conectiva [Caja Negra Editora, 2017], no qual esmiúça a época da digitalização e do predomínio da financeirização do mundo, não sem derramar, ao menos sobre mim, uma sutil dose de pessimismo civilizatório, que conduz mais à melancolia que à rebelião.

Não por isso, deixa de ser um livro valioso e agudo em sua tentativa de cartografar a obscura complexidade de nossa época. Detenho-me em um dos tantos parágrafos de um texto inquietante: “O ponto crucial da crítica de Baudrillard é o fim da referencialidade e a (in)determinação do valor. Na esfera do mercado, as coisas não são consideradas a partir do ponto de vista de sua utilidade concreta, mas, ao contrário, a partir de sua permutabilidade e seu valor de troca. De maneira similar, na esfera da comunicação, a linguagem é comercializada e valorizada como performance. É a efetividade, e não o valor de verdade, a regra da linguagem na esfera da comunicação. É a pragmática, e não a hermenêutica, a metodologia para compreender a comunicação social, especialmente na era dos novos meios de comunicação” (pág. 175).

Nestas reflexões de Berardi se manifesta o processo que, no interior da modernidade burguesa, chegou, séculos depois, ao que ele denomina “semiocapitalismo” [capitalismo semiótico], esta etapa na qual o signo linguístico se emancipou plenamente de qualquer referencialidade para se deslocar por uma espacialidade na qual a abstração domina.

Citando Jean Baudrillard – que não costuma ser citado, ultimamente, para além do valor antecipatório de muitas de suas análises -, diz que o filósofo francês “propôs uma semiologia geral da simulação baseada na premissa do fim da referencialidade, tanto na economia como no campo linguístico. Em O espelho da produção [edição portuguesa: Edições Espaço, Braga, 1976], escreve: ‘[...] a necessidade, o valor de uso e o referencial ‘não existem’: não passam de conceitos produzidos e projetados em uma dimensão genérica pelo próprio desenvolvimento do sistema de valor de troca’. O processo de autonomização do dinheiro, que é a principal característica do capitalismo financeiro, pode se inscrever no marco geral da emancipação da semiose da referencialidade” (págs. 172-173).

O capital financeiro não só constitui o ponto mais avançado da “abstração”, já destacado por Marx, como também, na perspectiva da comunicação, introduz, de forma radical, a autonomização do signo e de seu impacto na produção artificial de conteúdos imateriais que, no entanto, definem o vínculo com a realidade determinando a busca de rentabilidade por parte de um capital que abandonou a esfera da produção para se centrar na esfera financeira. Ao se evaporar a referencialidade, o que também se encerra é a vinculação argumentativa, abrindo passagem à fabricação de sujeitos impulsionados por signos vazios e abstratos que impactam de cheio na dimensão afetiva e sensível.

Todos os signos – escreve Baudrillard, em A troca simbólica e a morte[edição brasileira: Edições Loyola, 1996] – se permutam entre si, daqui por diante, sem se permutar por algo real (e não se permutam bem, não se permutam perfeitamente entre si, a não ser na condição de não se permutar por algo real)”. Pensar as estratégias comunicacionais é adentrar nesta hipérbole do signo, na qual a operação de deslocamento se consumou de forma definitiva, impactando de cheio na subjetivação de indivíduos que estabelecem vínculos com “a realidade” por meio desta “emancipação do signo de sua função referencial”. Na era da “pós-verdade”, tudo pode ser dito e convertido em “verdade irrefutável”. Romper esta nova forma de feitiço constitui o desafio mais árduo e difícil de qualquer projeto de libertação.

O perigo é que a dimensão real e imaginária deste ‘transtrocamento’ da materialidade em abstração acabe por ser aceita pelos sujeitos como a efetiva “realidade”, sem chances de se subtrair desta colonização cada vez mais profunda. “A virtualização financeira – diz Berardié o último passo na transição para a forma do ‘semiocapital’. Nesta esfera, aparecem dois novos níveis de abstração, como fruto da abstração do trabalho, a respeito da qual Marx escreveu (...). A abstração digital soma uma segunda camada à abstração capitalista. A transformação e a produção já não acontecem no campo dos corpos, da manipulação material, mas, sim, no da pura interação autorreferencial entre máquinas informáticas. A informação toma o lugar das coisas e o corpo fica eliminado do terreno da comunicação (...). Depois, há um terceiro nível de abstração, que é o da abstração financeira. As finanças (...) se desvincularam da necessidade da produção. O processo de valorização do capital, ou seja, aquele que aumenta o dinheiro investido, já não passa pela instância da produção do valor de uso ou, inclusive, pela produção física ou semiótica de bens” (págs. 176-177).

De qualquer modo, Giovanni Arrighi, em seu livro O longo século XX [edição brasileira: Contraponto Editora, 2012], já havia destacado que em cada uma das etapas ou ciclos atravessados pelo capitalismo, desde sua primeira estação genovesa, era possível constatar um traço comum a todas: que em seus períodos de declive se produzia, no centro hegemônico de cada época, um deslocamento do capital comercial e produtivo para o capital financeiro (isso aconteceu com Gênova, Holanda, Grã-Bretanha e, atualmente, com Estados Unidos que, segundo Arrighi, constituem os quatro ciclos de acumulação que definem o percurso histórico da economia-mundo capitalista). Traço mais que interessante – aquela condição de hegemonia financeira nas épocas de decadência, em cada etapa do capital – que nos permite antecipar a crise, talvez terminal, do ciclo dominado pelos Estados Unidos. É como se no corpo imaterial do capitalismo já estivesse escrito, desde seus começos no século XVI, a significação decisiva da financeirização como núcleo último de seu desdobramento histórico e como marca de sua condição crepuscular.

Claro que, e nisto é preciso dar razão a Berardi, o nível de predomínio do capital financeiro na atualidade é esmagador e constitui o eixo central da acumulação contemporânea, até praticamente reduzir a produção de objetos materiais ou imateriais à periferia na busca de rentabilidade. O semiocapitalismo se tornou o ponto máximo de abstração do capital, impactando direta e fulminantemente sobre indivíduos que vivem, cada vez mais, no interior de realidades virtuais e sob o signo da desmaterialização dos vínculos intersubjetivos.

Berardi acrescenta que a depredação do mundo real se tornou possível, em toda a sua extensão, no exato momento em que o capital pôde prescindir da produção de coisas úteis para se centrar, quase com exclusividade, na dimensão abstrata da circulação e investimento monetário. “A separação do valor de um referencial conduz à destruição do mundo existente” (pág. 178). O domínio da abstração generalizada como traço decisivo da etapa neoliberal não só avança sobre uma depredação do mundo real, como também deixa sem capacidade de reflexão e, portanto, de crítica, a uma humanidade que é incapaz de compreender os mecanismos que definiram uma atualidade demolidora, sobre a qual parece impossível intervir em um sentido político.

Slavoj Zizek, por sua vez, também insiste neste caráter desmaterializador e supostamente não ideológico do capitalismo contemporâneo, um caráter que se torna indecifrável para o indivíduo presos nas volumosas, mas invisíveis malhas do consumo e da virtualidade, a trama de dominação que segue exercendo seu grande poder sobre os corpos e a natureza, ao mesmo tempo em que promove uma “verdade-sem-significado” que se adapta, sem inconvenientes, à era da digitalização e da comunicação de massas.

Em Problema no paraíso. Do fim da história ao fim do capitalismo [edição brasileira: Zahar, 2015], Zizek destaca que talvez “seja aqui onde deveríamos localizar um dos principais perigos do capitalismo: ainda que seja global e abarque todo o mundo, mantém uma constelação ideológica stricto sensu sem mundo, privando a grande maioria das pessoas de qualquer mapa cognitivo significativo. O capitalismo é a primeira ordem socioeconômica que destotaliza o significado: não é global em nível de significado. Além do mais, não existe nenhuma ‘cosmovisão capitalista’, nenhuma ‘civilização capitalista’ propriamente dita: a lição fundamental da globalização consiste precisamente em que o capitalismo consegue se adaptar a todas as civilizações, desde a cristã até a hindu ou a budista, do Oriente ao Ocidente. A dimensão global do capitalismo só pode ser formulada em nível de verdade-sem-significado, como Real do mecanismo global de mercado” (pág. 16). Essa destotalização do significado corresponde ao abandono da ação reflexiva de parte de sujeitos carentes daqueles instrumentos promovidos pela ilustração e que permaneceram como restos arqueológicos de uma história vazia de conteúdo.

Há uma asfixia da compreensão que é proporcional à complexidade tecnológica, a partir da qual se deslocam os infinitos fluxos do capital financeiro pela abstração do éter informacional. É como se aquele sujeito da ilustração tivesse se transformado em um INDIVÍDUO PASSIVO, que é falado por uma realidade desmaterializada, na qual só parece imperar o reino da ficção e da artificialidade. Nada permanece da aposta kantiana que postulava indivíduos autônomos e soberanos. O semiocapitalismo se move, sem inconvenientes, no interior de uma sociedade presa nas redes do binarismo digital.

Bifo Berardi disse isto de um modo direto e preocupante: “Hoje em dia, a tecnologia digital se baseia na inserção de memes neurolinguísticos e dispositivos automáticos na esfera da cognição, na psique social e nas formas de vida. Tanto metafórica como literalmente, podemos dizer que o cérebro social está sofrendo um processo de cabeamento, mediado por protocolos linguísticos imateriais e dispositivos eletrônicos. Na medida em que os algoritmos se tornam cruciais na formação do corpo social, a construção do PODER SOCIAL se desloca do nível político da consciência e a vontade, ao nível técnico dos automatismos localizados no processo de geração de intercâmbio linguístico e na formação psíquica e orgânica dos corpos” (pág. 34).

Fenomenologicamente, isto pode ser observado nas estratégias desenvolvidas pelos meios de comunicação na hora de construir dispositivos que operam sob a lógica dos memes neurolinguísticos, aos quais Berardi faz referência, buscando, justamente, saltar a cristalizada capacidade reflexiva dos telespectadores ou dos usuários da internet e de redes sociais, até atingir sua mais profunda sensibilidade, onde as respostas se vinculam ao GESTO AUTOMÁTICO que se manifesta como um antes e, por que não, como um bloqueador de qualquer ação argumentativa.

Mais adiante, e seguindo sua desconstrução da era digital, Berardi especifica melhor sua definição da atual etapa da sociedade dominada pela confluência do semiológico e do financeiro: “Chamo de semiocapitalismo a atual configuração da relação entre linguagem e economia. Nesta configuração, a produção de qualquer bem, seja material ou imaterial, pode ser traduzida a uma combinação e recombinação de informação (algoritmos, figuras, diferenças digitais). A semiotização da produção social e do intercâmbio econômico implica uma profunda transformação no processo de subjetivação. A infosfera atua diretamente no sistema nervoso da sociedade, afetando a psicoesfera e a sensibilidade em particular. Por esta razão, a relação entre economia e estética é crucial para entender a atual transformação cultural” (pags. 127-128).

A massa dos cidadãos-consumidores se movimenta no interior deste processo de estetização do mundo, que corresponde ao que Nicolás Casullo chamava de “culturalização da política”, perspectiva que nos leva diretamente à influência decisiva que se estabeleceu entre as esferas da linguagem e da economia no interior do semiocapitalismo, uma categoria perturbadora que busca decifrar a fabricação de subjetividade e os novos dispositivos da servidão voluntária, que já não se desdobra na dimensão exclusiva da imagem, mas penetra nos interstícios da linguagem até atingir seu núcleo mais profundo e inconsciente. Os sujeitos sujeitados no interior desta lógica do capital são, agora, falados por esta configuração feita de algoritmos, figuras e diferenças digitais. A armadilha já foi construída e caímos em suas redes. Seremos capazes de romper seus nós?

Artigo traduzido do espanhol pelo Cepat. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Sábado, 29 de julho de 2017 – Internet: clique aqui.

sábado, 29 de julho de 2017

17º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 13, 44-52

Naquele tempo, disse Jesus à multidão:
44 «O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo.
45 O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas.
46 Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola.
47 O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo.
48 Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam.
49 Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos,
50 e lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí, haverá choro e ranger de dentes.
51 Compreendestes tudo isso?». Eles responderam: «Sim.»
52 Então Jesus acrescentou: «Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.»

JOSÉ MARÍA CASTILLO & JOSÉ ANTONIO PAGOLA
"PARÁBOLA DO TESOURO ESCONDIDO"
Pintura a óleo de Rembrandt ou Gerard Dou - possivelmente do ano 1630
Museu de Belas Artes de Budapeste

QUAL É ESSE “TESOURO” E “PÉROLA” PELOS QUAIS VALE A PENA DEDICAR TODA A VIDA?

A primeira parábola (tesouro escondido: v. 44-46) compara a oferta de Jesus, o reinado de Deus, com um tesouro. Um tesouro tão valioso e que seduz tanto e produz tanta alegria, que aquele que o encontra se esquece de tudo o que tem, abandona tudo e vê nisso a única coisa que vale a pena neste mundo. Como é lógico, isto quer dizer que aquele que encontra Jesus e sua mensagem, por isso mesmo muda radicalmente a vida.

Uma novidade assim, não pode ser nem a prática religiosa nem, muito menos, as obrigações que impõe a religião. Nem sequer as promessas de felicidade para a outra vida. Nada disso é, para a grande maioria das pessoas, um tesouro que transforma o modo de viver. A crença em uma esperança (incerta?, insegura?) de futuro, normalmente não modifica o presente visível, tangível.

O mesmo há de se dizer da pérola. No fundo, é a mesma comparação formulada com outras palavras. O que podem expressar o «tesouro» e a «pérola»?

Somente pode exprimir aquilo que mais preenche os seres humanos: uma zona e um ambiente humano de respeito, tolerância, estima, carinho e segurança, nos quais damos felicidade e recebemos felicidade, com a convicção de que isso é (e será) para sempre. Somente isso pode significar o que, tal como somos seres humanos, Jesus oferece e afirma.

A comparação da rede e a separação última e definitiva dos peixes abre o horizonte das promessas de Jesus de tal maneira, que transcende todas as limitações inerentes à condição humana. A intenção de Mateus, ao colocar aqui esta última comparação, é pôr uma «sentinela no horizonte» (Paul Ricoeur) acima de tudo o meramente humano, para superá-lo e transcendê-lo mais além de quanto nós mortais atreveríamos a imaginar e suspeitar.

Definitivamente, a garantia mais segura de que o Evangelho está presente na vida está no fato de que esta nossa vida avança e funciona impregnada de alegria pelo fato de ter conhecido e encontrado Jesus e seu Evangelho.

UM TESOURO DESCONHECIDO

Nem todos se entusiasmam com o projeto de Jesus. Em muitos surgem não poucas dúvidas e interrogações. Seria razoável segui-lo? Não seria uma loucura? Essas questões são daqueles galileus e de todos os que se encontram com Jesus em um nível mais profundo.

Jesus contou duas pequenas parábolas para «seduzir» a quem permanecia indiferente. Queria semear em todos uma interrogação decisiva: não haveria na vida um «segredo» que ainda não descobrimos?

Todos entenderam a parábola daquele lavrador pobre que, ao cavar em uma terra que não era sua, encontrou um tesouro escondido em um cofre. Não pensou duas vezes. Era a chance de sua vida. Não poderia desperdiçar. Vendeu tudo o que tinha e, cheio de alegria, pegou o tesouro.

O mesmo fez um rico comerciante de pérolas quando descobriu uma de valor incalculável. Nunca havia visto algo semelhante. Vendeu tudo o que possuía e ficou com a pérola.

As palavras de Jesus eram sedutoras. Seria Deus assim? Seria isto encontrar-se com ele? Descobrir um «tesouro» mais belo e atraente, mais sólido e verdadeiro que tudo o que nós estamos vivendo e desfrutando?

Jesus estava comunicando sua experiência de Deus: aquilo que havia transformado, por inteiro, a sua vida. Teria razão? Seria isto segui-lo? Encontrar o essencial, ter a imensa sorte de encontrar o que o ser humano está desejando desde sempre?

No mundo, atualmente, muita gente está abandonando a religião sem ter saboreado Deus. Compreendo-os. Eu faria o mesmo. Se alguém não descobriu um pouco da experiência de Deus que vivia Jesus, a religião é uma chatice. Não vale a pena.

Triste é encontrar tantos cristãos cujas vidas não estão marcadas pela alegria, pelo espanto ou pela surpresa de Deus. Jamais ficaram assim por causa de Deus. Vivem fechados em sua religião sem ter encontrado nenhum «tesouro». Entre os seguidores de Jesus, cuidar da vida interior não é, apenas, algo a mais. É imprescindível para vivermos abertos à surpresa de Deus.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fontes: CASTILLO, José María. La religión de Jesús: comentario al Evangelio diario – ciclo A (2016-2017). Bilbao: Desclée De Brouwer, 2016, págs. 325-326; Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo A (Homilías) – Internet: clique aqui.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

É HORA DE AUTOCRÍTICA

«A esquerda menosprezou a importância da democracia»

Entrevista com Leda Maria Paulani
Economista, professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP) e secretária Municipal de Planejamento na gestão de Fernando Haddad (PT)

Ana Paula Guidolin

O campo progressista deve recuperar os valores democráticos,
diz a economista, e não cometer os mesmos erros do PT
LEDA MARIA PAULANI

Leda Maria Paulani afirma que um dos grandes erros da esquerda em sua história foi ter menosprezado a importância da democracia, em especial em um país subdesenvolvido como o Brasil, no qual a elite carrega um caráter senhorial, como bem dizia Florestan Fernandes.

No Brasil temos como tarefa primeira garantir que a democracia não seja completamente destruída (e está sendo). Quando não há democracia, quem mais sofre são as pessoas de esquerda e a população em geral. As elites se ajeitam com governos ditatoriais, eles sempre souberam se entender”, afirma.

Resultado desse pouco cuidado com o aprofundamento da democracia, segundo Leda, é a situação atual, em que as transformações importantes feitas pelos governos do PT no padrão social e na distribuição de renda não se mostraram sustentáveis. Faltou o maior enfrentamento do capital, das “exigências tirânicas da riqueza financeira”, enfatiza. “Eu sempre dizia, ao primeiro vento contrário que soprar isso pode desmoronar”.

No início de junho ela foi uma das convidadas para o 22º. Encontro Nacional de Economia Política (Enep), na Unicamp, promovido pela Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP), a qual já presidiu, e falou sobre o papel dos movimentos sociais brasileiros, alguns deles respeitados no mundo inteiro, como o MST, para pressionar justamente no sentido de enraizamento dos valores democráticos e de pôr em xeque os limites da democracia representativa.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Brasil Debate - Atualmente existe uma crise do neoliberalismo, ou não? Estamos vendo reações muito extremas no mundo todo e não se sabe ao certo se essa é a indicação de uma transição para outro regime ou se é uma exacerbação do neoliberalismo. Como você enxerga esse processo?

Leda Paulani: Quando houve a crise de 2008 eu recebi muitos telefonemas de jornalistas me questionando se o neoliberalismo havia acabado. Eu disse que enquanto a riqueza financeira for mais alta que a riqueza real, o neoliberalismo permanece como discurso dominante. O discurso neoliberal tem uma prática associada, que é a prática, numa palavra, da redução de Estado. Além da desregulamentação e diminuição de intervenção estatal, esse processo passa por privatizações e cortes de gastos sociais. Reduzir o tamanho do Estado implica reduzir direitos trabalhistas. É evidente que essas quase quatro décadas foram entrecortadas por um número elevado de crises, o que é da natureza do capitalismo financeirizado e faz parte de sua lógica. A grande crise de 2008 explicitou as mazelas desse período neoliberal da história capitalista. Quando a crise veio à tona, houve consequências políticas.
COSTAS LAPAVITSAS

Para dar um exemplo de como a crise desmascara o neoliberalismo, o professor Costas Lapavitsas (deputado grego eleito pelo Syriza) pondera com relação ao euro que a União Europeia, equivocadamente, passou a ser vista como uma coisa progressista e a esquerda, de forma geral, achou que isso era um sinal positivo de que a Europa estava unificada e que não poderia mais haver conflitos bélicos. Isso ficou tão forte que falar contra a União Europeia faria qualquer um se passar por conservador ou reacionário. E agora, depois da crise, fica claro quais são os resultados dessa política e as consequências em termos de concentração de renda, exacerbação da concorrência, perda de direitos e a própria exacerbação de uma vida alucinada em que as pessoas vivem correndo etc.

O neoliberalismo foi uma ideologia muito poderosa e bem-sucedida, e esse sucesso ocorreu porque, com a ideia de preservação do indivíduo, as pautas das minorias ficaram claramente associadas à questão da globalização, preservação da liberdade individual, meritocracia e aí acaba desembocando na redução de Estado no outro lado. Para resumir, acho que é cedo para dizer que o neoliberalismo está em crise, mas a crise de 2008 e seus desdobramentos estão gerando reflexos concretos políticos agora. Existe uma chacoalhada que se expressa claramente nesses resultados políticos do Brexit, do Trump nos Estados Unidos da América (EUA) e da ascensão da extrema direita na Europa. Mas não é claro ainda o que vem pela frente.

Brasil Debate - Acabamos de sair de um ciclo de governos progressistas no Brasil e atualmente a esquerda está um pouco desolada sobre qual rumo tomar. Qual seria a saída de forma a não só ficar na defensiva, mas tentar fazer uma proposta pela esquerda nesse cenário atual?

Leda Paulani: Eu acho que esses momentos de grande crise sempre são muito dolorosos, mas ao mesmo tempo de alguma forma se ganham mais graus de liberdade. Fica tudo tão em xeque, tão questionável, que pelo menos teoricamente existe a possibilidade de vários caminhos de saída e não apenas de um. Claro que podemos ir para o pior dos mundos com um outro tipo de ditadura, talvez até pior que a dos militares, ou podemos conseguir resgatar a democracia. Eu particularmente acho que um dos grandes erros da esquerda em sua história foi ter menosprezado a importância da democracia. No Brasil temos como tarefa primeira garantir que a democracia não seja completamente destruída (e está sendo).
ANDRÉ SINGER - Cientista Político

Falo isso e outros também, como o professor André Singer, e às vezes criticam a ideia como “pequeno burguesa”, mas tem que tomar cuidado. Quando não há democracia quem mais sofre são as pessoas de esquerda e a população em geral. As elites se ajeitam com governos ditatoriais, eles sempre souberam se entender. Nós que não temos essa cultura, pelo menos não aqui no Brasil. Em outros momentos da história quando a esquerda esteve no poder e desprezou isso, depois pagou muito caro. A história cobra seu preço. Depois que fosse garantida a democracia no país, viriam os ensinamentos do passado.

O período de governo do PT mostrou que as transformações a serem feitas no país têm que ser sustentáveis ao longo do tempo. O que se obteve, que não foi desprezível, foi uma mudança grande no padrão social e na distribuição de renda, mas não foi sustentável. Eu sempre dizia, ao primeiro vento contrário que soprar isso pode desmoronar. Você dependia, por exemplo, do aumento real do salário mínimo e, se o Estado ficasse constrangido por qualquer razão, quem se beneficiava desse aumento, que são os beneficiários do INSS basicamente, iria sofrer.

Com um sistema democrático de fato teríamos que lutar por um governo com um verdadeiro enfrentamento ao capital. Os governos anteriores não enfrentaram e eu escrevi o livro “Brasil Delivery” [Boitempo Editorial, 2008] por causa disso. Não se enfrentaram as exigências tirânicas da riqueza financeira. Como o Brasil crescia, os governos do PT, preocupados com a desigualdade, conseguiram ao mesmo tempo sem afetar essa estrutura macro que estava por trás, com interesses do grande capital, também promover a ascensão dos de baixo. Isso causou a revolta da classe média que ficou espremida, se vendo mais perto dos pobres que dos ricos. Essa situação toda dependia de uma conjuntura internacional favorável que nem sempre existiria.

Os limites de uma política de conciliação são muito reduzidos e por isso as conquistas alcançadas são muito precárias. Tenho a impressão de que esse radicalismo das políticas neoliberais que esse governo golpista está implementando não são da vontade da população, pesquisas mostraram que a esmagadora maioria está contrária à reforma trabalhista e da previdência. Isso deixa claro que existe espaço democrático para o retorno da esquerda. Por mais que agora tenhamos que valorizar o que os governos do PT conseguiram produzir de resultados, a esquerda não pode cometer o mesmo erro que já foi cometido.

Brasil Debate - Em relação à atual situação do Brasil, com esse governo ilegítimo e essas reformas, o que você acha da questão política, que, mais do que nunca, está misturada com a economia?

Leda Paulani: Vou falar de uma questão muito particular. É uma proposta que eu ouvi pela primeira vez do senador Roberto Requião, que seria de fazer um referendo revogatório considerando esse governo como ilegítimo e o que ocorreu como um golpe, revogando tudo que foi aprovado sobre sua égide. Esse processo passaria pelo próprio Supremo Tribunal Federal (STF) reconhecer seu papel nesse golpe, porque foi conivente e até pior, já que seu papel na história deveria ser de guardião último das instituições. O processo de impeachment pela sua flagrante ilegalidade deveria ser barrado no STF e não foi. Tudo foi muito diferente do caso do presidente Collor, lá não havia dúvidas, a legislação previa o impeachment, o vice entrou no lugar, acabou o mandato e outro presidente foi eleito, era outra situação. O caso da presidenta Dilma deixou claro que foi uma armação empurrada por vários interesses. Pela sua fragilidade política com um governo ruim e com o aprofundamento da crise, quem defendia esses interesses percebeu espaço para dar o golpe e tirar o PT do governo federal, o que era tentado desde 2005 e não se conseguiu pela via eleitoral.

É necessário revogar as reformas já aprovadas e barrar as que ainda não foram votadas. E não há espaço para argumentar utilizando o voto do congresso, por exemplo. O congresso foi conivente com esse governo pelas piores razões. A maior parte dos congressistas fazendo esses acordos com o governo está querendo ou levar uma ou se livrar da cadeia. Esse decreto seria a melhor solução. Porque, senão, um novo governo vai ter que lidar com essas reformas já consolidadas. Você vai ter que lidar com terceirização, desmonte da Petrobras (com a redução do conteúdo local como ficam as construções já feitas?), PEC dos gastos etc. Como um governo vai trabalhar com a PEC dos gastos? A crise internacional ainda não dá sinais de que vá arrefecer muito cedo. O referendo revogatório talvez seja uma boa solução, de outra maneira mesmo que se consiga reverter a situação atual e voltar à democracia, o golpe terá sido medianamente bem-sucedido, terá conseguido impor mudanças que depois vão ter consequências inegáveis ao longo do tempo.

Fonte: CartaCapital – blog Brasil Debate – Política – Quinta-feira, 27 de julho de 2017 – 13h16 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.

Esquerda perdeu credibilidade

Entrevista com Costas Lapavitsas
Economista grego eleito deputado pelo Syriza em 2015

Ana Luíza Matos de Oliveira e Paula Quental

«O capitalismo, mais uma vez, não está funcionando»
A frase é do economista grego Costas Lapavitsas
Para ele, a crise exige pensar que o anticapitalismo é insuficiente e que
a esquerda precisa recuperar a credibilidade
COSTAS LAPAVITSAS

Um dos convidados internacionais do 22º Encontro Nacional de Economia Política (Enep), realizado na Unicamp, em Campinas, entre 30 de maio e 2 de junho, o economista grego Costas Lapavitsas, eleito deputado pelo Syriza em 2015, proferiu uma das palestras mais concorridas do encontro, sobre o tema “Políticas de austeridade e as alternativas na periferia em tempos de crise do capitalismo”. Professor de economia na Escola de Estudos Orientais e Africanos, da Universidade de Londres, a SOAS, e autor de vários livros, ele é conhecido por suas críticas ao sistema financeiro ocidental moderno, o qual se dedica a estudar, e às políticas de austeridade.

Lapavitsas defende uma ruptura da Grécia com as políticas da União Europeia e menciona com frequência a existência de uma periferia na zona do euro formada por países que, como o seu, têm pouco a ganhar com o mercado comum. Também é um dos maiores entusiastas de um movimento que unifique as esquerdas dos vários países do bloco, embora admita que este seja um processo lento, de longo prazo.

Em entrevista exclusiva ao Brasil Debate, falou de como a esquerda anda combalida em todo o planeta, e pregou que ela ultrapasse o discurso apenas anticapitalista para trazer propostas “positivas” que conquistem os cidadãos, em geral bastante cansados e desiludidos. “A esquerda perdeu confiança em si mesma e a aproximação com a classe trabalhadora, porque perdemos a credibilidade”, admite. “O momento é de um processo de cura. De recriação da esquerda. De levantar, se reerguer.”

Comentou, ainda, sobre a importância da novidade representada pela micropolítica de gênero e raça, mas alertou que esta não deve se distanciar da questão da luta de classes, para que a esquerda continue a falar a mesma língua dos trabalhadores.

Leia, a seguir, a entrevista:

Brasil Debate – Existem alternativas para países emergentes, como o Brasil, que sejam respostas à retomada agressiva do neoliberalismo pós-crise de 2008? No caso do Brasil, a esquerda assiste, quase perplexa, a uma ofensiva das classes dominantes para impor reformas ultraliberais. Que opções ela tem diante desta ofensiva?

Costas Lapavitsas: A crise dos anos 2008-2009 atingiu vários países desenvolvidos, além dos Estados Unidos, que foi onde ela se iniciou. Atingiu vários países, desenvolvidos e em desenvolvimento, de forma sincronizada, e rapidamente. Isso porque atingiu o comércio de commodities, o fluxo de capitais, os investimentos estrangeiros. Houve impressão por parte de algumas pessoas, em vários países desenvolvidos, de que se poderia continuar no mesmo caminho e a crise terminaria, tudo ficaria OK. Que seria uma situação de crise temporária. Elas estavam dormindo. Agora nós sabemos a realidade. A situação atinge o mercado global e países como o Brasil. Não se imaginava a duração dessa crise e antes dela países da América latina com governos comandados pela esquerda falharam em suas economias com foco no extrativismo e em commodities. Falharam em perceber o que estava acontecendo na economia mundial nas últimas duas décadas. Deveriam ter desenvolvido outros setores da economia, de maneira mais equilibrada. Mas nós sabemos que a mudança é uma coisa difícil.

Brasil Debate – Você acredita que o capitalismo está em crise agora?

Costas Lapavitsas: O termo crise tem que ser usado cuidadosamente. A esquerda fala em crise o tempo inteiro. E às vezes não significa muita coisa. Óbvio que não estamos em crise como estávamos em 2008-2009. Aquela realmente foi uma crise. Mas nós estamos em um período histórico de transformação nas últimas três décadas, com a globalização, a financeirização e o liberalismo. Não está claro. No largo senso, o capitalismo, mais uma vez, não está funcionando. Temos que pensar que não se trata apenas do pensamento anticapitalista. De não apenas se opor ao capitalismo. Precisamos buscar alternativas positivas ao capitalismo.

Brasil Debate – O que você quer dizer com alternativas positivas ao capitalismo?

Costas Lapavitsas: Temos que propor coisas positivas, alternativas que unam as pessoas em um mesmo propósito, não somente criticar o capitalismo. Não basta ser anticapitalista. Temos que propor alternativas socialistas, associativismo. Basicamente alternativas socialistas. O capitalismo iniciou uma nova etapa, mas não terminou. Não é o fim.
CHIPRE - GRÉCIA
Protesto estudantil contra a TROIKA = FMI, BCE e Comissão Europeia
23 de março de 2013

Brasil Debate – O que a crise da Grécia, Portugal, Espanha e outros países da União Europeia submetidos aos rigores da Troika [Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia] tem a ensinar ao Brasil? E, ao contrário, o que os últimos governos populares do Brasil (com Lula e Dilma), seguidos de um golpe dado pela direita, têm a ensinar à Grécia?

Costas Lapavitsas: Isto é muito interessante. Na Europa há claramente uma periferia. Uma nova periferia, conformada pelos países que vocês mencionam. Assim, a Europa tem a ensinar à esquerda sul-americana que as políticas de austeridade que nós fizemos nos últimos sete anos produzem resultados, que promovem a estabilização, mas destroem o emprego, destroem a produção e, na verdade, enfraquecem a economia. É um ponto muito importante para considerar. A perspectiva de crescimento com a estabilização, que na verdade não existe, é a mais importante lição que poderá ser aproveitada pelo Brasil. O resultado das políticas de austeridade na Europa são um equilíbrio da economia muito problemático e uma economia muito fraca. Não se podem cometer os mesmos erros no Brasil. Apenas porque eles querem estabilizar. Austeridade não é o caminho.

Brasil Debate – Diante de uma crise do capitalismo de grandes proporções, como a que estamos vivendo, por que a esquerda – em nível mundial – está com dificuldades de propor saídas e ganhar corações e mentes? E, ao mesmo tempo, assistimos ao fortalecimento da direita?

Costas Lapavitsas: Eu não sei muito sobre o Brasil, mas eu posso dizer sobre a Europa. Na Europa há duas razões. A primeira é que por muito tempo a esquerda foi apenas anticapitalista. Quando a esquerda propõe na Europa qualquer coisa concretamente é uma proposta para consertar instituições que já existem. E isso vem falhando, sistematicamente. A esquerda perdeu confiança nas ideias mais radicais, de socialismo. Ela parou de ser mais radical porque não confia mais nessas ideias.

A segunda razão, ligada à primeira, é que a esquerda deixou de ser conectada aos trabalhadores, como era antes. Da forma orgânica anterior. Parou de falar dos interesses dos mais pobres, de suas ideias, aspirações. Deixou de falar a mesma língua dessas pessoas. As políticas de raça e de gênero se tornaram mais evidentes. A partir do momento em que a esquerda abandona a política clássica de classes sociais e a substitui pelas políticas sexuais, de gênero, ela para de falar a língua das classes sociais, dos pobres, das classes trabalhadoras. Fala com pessoas com certo nível de educação, basicamente da classe média. Esquece sua origem plebeia. A esquerda precisa falar a língua das classes trabalhadoras e isso é muito importante para a esquerda na Europa.

Brasil Debate – Você acha que essas questões de gênero e raça não deveriam estar interligadas com as de classes?

Costas Lapavitsas: Completamente. Deveriam estar conectadas sim. Estamos falando de identidade política. A gente deveria perceber que classe e nação são um tipo de identidade. A questão da classe, da nação, é tudo meio unificado. Ao esquecer a questão de classe, a esquerda se torna supérflua.

Brasil Debate – Nós ouvimos falar sobre movimentos e partidos da esquerda dos países da zona do euro de se unirem para propor algumas medidas de enfrentamento da Troika, como a de criar uma moeda complementar ao euro e estatizar o setor financeiro e energético. Isso é verdade? Como está o andamento dessas conversas e propostas?

Costas Lapavitsas: Sim, isso está ocorrendo e por duas razões… A primeira é o nível geral da política. Uma grande parte da população grega se sente cansada, exausta, desiludida, zangada por tanta exclusão. Ela sente que foram tentadas muitas opções diferentes nos últimos anos, também por parte da esquerda, e todas falharam, causando desapontamento. A desilusão é em relação à política de uma forma geral. É muito importante que isso seja levado em conta. A segunda razão é que os cidadãos se sentiram traídos em vários pontos pela esquerda. Esse é o estrago feito pela esquerda, e suspeito que esse é o estrago feito pela esquerda através do mundo. O prejuízo na Grécia é enorme. A esquerda perdeu confiança em si mesma e perdemos a aproximação da classe trabalhadora, porque perdemos credibilidade. Então para a gente é um tempo muito difícil. O momento é de um processo de cura. De recriação da esquerda. De levantar, se reerguer. A Grécia tem a necessidade de dar um tempo das instituições capitalistas. A esquerda precisa reinventar a ideia de soberania, o que isso significa, de soberania da população, como nós definimos o conceito do cidadão na Grécia, e como isto está conectado à classe trabalhadora. Como nós podemos nos unir de novo, porque a economia está indo muito mal, há ainda a questão da imigração, o movimento dos refugiados em direção à Europa. A Europa está sendo desafiada a redefinir a sua população nacional, a soberania popular. Nós estamos vivendo um processo de reunificação das esquerdas, pois observamos que o que acontece na esquerda na Espanha é semelhante ao que acontece com a esquerda na França e nos outros países. O movimento é de reunificação, mas não espere um processo rápido.

Brasil Debate – É verdade que a Grécia vive hoje o florescimento de iniciativas anarquistas, de organizações autogestionárias, como resultado da crise e no vácuo do desmonte do próprio Estado?

Costas Lapavitsas: Eu tenho razão para acreditar que isso está acontecendo. Sempre houve várias formas de anarquismo na Grécia, mas o que há de novo agora? De fato nesse momento na Grécia há uma influência forte do fascismo, e assim também é com o anarquismo. Você pode entender o porquê de isto estar acontecendo de muitas diferentes maneiras, claro. No caso do anarquismo, eles se unem de forma descompromissada, cada um faz seu trabalho, mas há um movimento forte de querer mudar as coisas. O sentimento de traição dos cidadãos dá um impulso extra a esse movimento. Então definitivamente algo está acontecendo. É difícil de dizer o que é. E há tempos que nós não tínhamos tanta violência, a violência terrorista. O anarquismo cresce nesses tempos. Em época de crise, em momentos de fraqueza (do capitalismo), o anarquismo cresce. Eu acho que eles estão se expandindo e seduzem principalmente os mais jovens. Potencialmente, pode ser uma forma de evolução da esquerda, por meio do que chamamos de esquerda radical. Um tipo de esquerda incorruptível na sua proposta de mudar a sociedade. Estamos diante de um desafio e de uma oportunidade para a esquerda.

Brasil Debate – Gostaria de fazer algum comentário?

Costas Lapavitsas: Sim, eu penso que a esquerda latino-americana especialmente a esquerda que eu vejo no Brasil, na Argentina, tem muitas coisas a ensinar à esquerda europeia. Eles deviam perceber isso. A esquerda europeia está num momento fraco e a esquerda latino-americana tem coisas a mostrar sobre formas de lidar com o capitalismo financeiro, o capitalismo global. Me refiro ao jeito com que vocês lutam contra isso. Até porque existe a histórica exploração da América Latina pela Europa, experiência que a Europa desconhece. O intercâmbio, o fluxo de informação, ainda está muito no começo, é muito embrionário. Temos muito que aprender uns com os outros.

Fonte: CartaCapital – blog Brasil Debate – Quinta-feira, 22 de junho de 2017 – 10h47 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.

sábado, 22 de julho de 2017

16º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 13,24-43


Naquele tempo:
24 Jesus contou outra parábola à multidão: «O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo.
25 Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora.
26 Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio.
27 Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: “Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?”
28 O dono respondeu: “Foi algum inimigo que fez isso”. Os empregados lhe perguntaram: “Queres que vamos arrancar o joio?”.
29 O dono respondeu: “Não! pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo.
30 Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo:
arrancai primeiro o joio e o amarrai em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!”».
31 Jesus contou-lhes outra parábola: «O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo.
32 Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos.»
33 Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: «O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado.»
34 Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas,
35 para se cumprir o que foi dito pelo profeta: “Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo”.
36 Então Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: «Explica-nos a parábola do joio!».
37 Jesus respondeu: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem.
38 O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno.
39 O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifadores são os anjos.
40 Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos:
41 o Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal;
42 e depois os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes.
43 Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça.»

JOSÉ MARÍA CASTILLO & ENZO BIANCHI
TRIGO & JOIO

O JUÍZO PERTENCE A DEUS

O ensinamento da primeira parábola narrada por Jesus (Mt 13,24-30) está claro: a juízo dele, ninguém nesta vida tem o direito de erigir-se em juiz do bem e do mal. Ninguém tem, portanto, o direito de decidir onde está o bem (o trigo) e onde está o mal (o joio). E menos ainda, ninguém tem o direito de considerar-se com poder para pretender extirpar o mal pela raiz (arrancar o joio). Porque pode acontecer que, pensando que se arranca o joio, na realidade o que se está arrancando é o trigo.

Assim, ninguém pode constituir-se em juiz dos outros. Ninguém tem o direito de fazer isso. Ninguém pode condenar ninguém, rejeitar a ninguém, reprovar a quem quer que seja. Porque corre o perigo de equivocar-se. De modo que, pensando que faz algo bom, na realidade, o que leva a cabo é um desastre. Jesus condena desse modo o puritanismo e a intolerância. Todos corremos o perigo de incorrer nesse tipo de conduta. A, ainda mais, sabemos até que ponto as pessoas andam por aí condenando, rejeitando, ofendendo, insultando...

Porém, esse perigo aumenta ainda mais, na medida em que uma pessoa se torna religiosa, sobretudo, se sua religião é de caráter fundamentalista. Então, a intolerância supera todos os limites e chega a criar ambientes nos quais não se pode respirar. Este mundo está cheio de fanáticos, que se consideram com o direito e o dever de obrigar que os outros mudem e passem a viver e pensar como vive e pensa o fanático intolerante.

As pessoas «muito religiosas» dão medo! Tornam a vida insuportável e a convivência amarga.

No fundo, o problema está em que, no final das contas, o bem e o mal são categorias que dependem dos que têm poder para defini-las. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche [1844-1900] disse muito bem: «foram os bons mesmos, isto é, os nobres, os poderosos, os homens de posição superior... que se sentiram e se valorizaram a si mesmos e ao seu agir como bons, ou seja, como algo de primeira importância, em contraposição a tudo que é de baixo, abjeto, vulgar e plebeu» (Genealogia da moral I,2).

Assim, como é que limparemos o campo do Senhor do pressuposto joio?

Afinal de contas, a essência do fanatismo consiste no desejo (e até no empenho) de «obrigar os outros a mudar» (Amos Oz – escritor israelense). Neste ponto, coincidem todos os fanáticos do mundo, que frequentemente degeneram para a violência e o terror!
FERMENTO SENDO COLOCADO EM MEIO À FARINHA

A PEQUENEZ DE HOJE GARANTE A GRANDEZA DO FUTURO

O Reino é semelhante a um grão de mostarda semeado no campo. Trata-se de uma semente pequeníssima, porém «quando cresce é maior que as hortaliças e se torna como que uma árvore, ao ponto das aves do céu poder aninhar em seus ramos» (cf. Ez 17,22-24). Aqui a atenção se volta para o enorme desenvolvimento da semente, na distância entre sua pequenez inicial e sua grandeza final.

O mesmo acontece com o Reino de Deus: em nosso hoje parece como uma realidade pequena, porém, no final dos tempos, se manifestará sua grandeza. Os discípulos de Jesus Cristo devem observar o contraste entre o hoje e o futuro, porém também deve entender que o futuro depende precisamente da pequenez de hoje. Pois seu Mestre lhe revelou que os critérios da grandeza e da aparência não se devem aplicar ao Reino dos Céus.

A força do Reino não se deve confundir com a fascinação da grandeza, que se traduz, muitas vezes, no número, outras no prestígio, no poder etc.

Para corroborar esta realidade, Jesus se serve de outra comparação. Uma mulher põe um pouco de fermento em uma grande quantidade de farinha (cerca de 40 quilos). O texto destaca que a mulher «esconde» o fermento, indicando assim que a presença do Reino é oculta, não se impõe. Mesmo assim, a inequívoca força do fermento faz crescer a massa.

A atenção se concentra aqui no poder do fermento: algo tão pequeno é capaz de provocar uma grande transformação. E assim é: a vida de Jesus era pouca coisa, praticamente desconhecida para os historiadores de seu tempo; porém nele, o homem no qual Deus reinou plenamente, se ocultava a potência do Reino, oferecido a toda humanidade.

Somos chamados, pois, por essas três parábolas à paciência, à pequenez , ao ocultamento. Acolhemos o Reino anunciado por Jesus, vivendo com liberdade e inteligência esta realidade, isto é, obedecendo a ele, grão de trigo caído na terra e morto para dar muito fruto (cf. Jo 12,24). Esta dinâmica de morte e ressurreição é a primícia do Reino se soubermos assumi-la em nossa vida e testemunhá-la em meio aos homens e mulheres.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fontes: CASTILLO, José María. La religión de Jesús: comentario al Evangelio diario – ciclo A (2016-2017). Bilbao: Desclée De Brouwer, 2016, págs. 316-317; BIANCHI, Enzo. Jesús, «Dios con nosotros» que cumple la Escritura – Ciclo A. Salamanca: Ediciones Sígueme, 2010, págs. 136-137.